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O Rato que Rugia
Essa classe sacerdotal – os administradores de sistemas – governou no início da era da informação. Se você quisesse usar um computador, teria de passar por eles. E isso significava escrever um programa de acordo com os padrões que eles estabeleciam no que se refere à utilização apropriada de recursos de TI. O software deveria ser focado em objetivos de negócios, mostrar-se eficiente em função da utilização dos ciclos de processamento e modesto em suas ambições. Se você passasse no teste, eles poderiam aceitar seus cartões perfurados através de uma fenda na porta e, dois dias depois, devolveriam um relatório de mensagens de erro para que você pudesse reiniciar o processo.
Em consequência, os primeiros desenvolvedores concentraram os códigos na eficiência dos algoritmos essenciais sem se preocupar muito com a interface com o usuário. Estamos falando da era da linha de comando, e o trabalho do software era servir a unidade de processamento central, e não o contrário.
Os engenheiros da época conheciam a Lei de Moore em um nível: eles sabiam que era possível ter computadores menores e mais baratos do que os mainframes da época. Com efeito, não era sonhar demais imaginar computadores tão pequenos e baratos que uma família comum poderia ter um em casa. Mas por que alguém desejaria isso? Depois de muita reflexão, a comunidade da computação do final da década de 1960 só conseguiu pensar em uma utilidade: organizar receitas. O primeiro computador pessoal do mundo, um estiloso eletrodoméstico de cozinha fabricado pela Honeywell em 1969, fazia exatamente isso – e ainda vinha incorporado a um pequeno balcão. A Honeywell apresentou o produto no catálogo da Neiman Marcus daquele ano, oferecendo-o pela pechincha de $10.600, embora o único método viável para inserir as receitas no sistema consistisse em alternar comutadores no painel frontal e as donas de casa tivessem de dominar a linguagem hexadecimal. Não se sabe ao certo se alguém comprou o computador.
E lá estava Mead dizendo aos programadores para adotar o desperdício. Eles coçavam a cabeça – como desperdiçar poder de computação?
O RATO QUE RUGIA
Foi quando Alan Kay, um engenheiro de Xerox Palo Alto Research Center, entrou na década de 1970 para apontar o caminho. Em vez de conservar transistores para funções de processamento central, ele desenvolveu um conceito de computador – o Dynabook – que desperdiçaria futilmente o silicone para fazer coisas divertidas na tela: desenhar ícones, direcionar ponteiros com um mouse, dividir uma tela em janelas e até acrescentar animações sem função alguma, além de serem interessantes.
Qual era a finalidade desse esbanjador colírio para os olhos? Facilitar a utilização dos computadores por pessoas comuns, incluindo crianças. O trabalho de Kay na interface gráfica do usuário (GUI – Graphical User Interface) inspirou o minicomputador Alto da Xerox e depois o Macintosh da Apple, o qual mudou o mundo ao abrir a computação para nós, meros mortais.
Kay percebeu que o trabalho do tecnólogo não é descobrir as utilidades da tecnologia. Em vez disso, é fazer a tecnologia ser tão barata, fácil e popular que qualquer pessoa possa utilizá-la, de modo que ela se propague ao redor do mundo e em todos os nichos possíveis. Nós, os usuários, decidiríamos o que fazer com ela, porque cada pessoa é diferente: necessidades diferentes, ideias diferentes, conhecimento diferente e formas diferentes de interagir com o mundo.
Ao mostrar o caminho para democratizar a computação, Kay permitiu retirar o fenômeno de Moore da redoma e colocá-lo em casa, no carro e no bolso de cada pessoa. Esse exercício coletivo de exploração do espaço potencial da computação nos trouxe tudo, desde a fotografia digital até os videogames, dos TiVos aos iPods. (E é interessante notar que organizar receitas não está no topo da lista de muitas pessoas.)
Os engenheiros nos trouxeram a infraestrutura técnica da Internet e da Web – TCP/IP e http:// –, mas fomos nós que decidimos o que fazer com isso. Como a tecnologia era gratuita e aberta a todos, nós, os usuários, começamos a utilizá-la e, juntos, a alimentamos com nossos conteúdos, nossas ideias e nós mesmos. Os tecnólogos inventaram a panela, mas nós a enchemos.
É claro que tecnologia barata não significa tecnologia grátis. Computadores poderosos eram caros na época de Kay e continuam sendo caros hoje, como o pobre CIO que acabou de desembolsar um orçamento de seis dígitos para atualizar os servidores será o primeiro a lhe dizer. Com certeza, a tecnologia não parece gratuita quando está sendo comprada a granel. Mas se você a olhar pelo outro lado desse gordo canal, os fatores econômicos mudam. Esse dispendioso banco de discos rígidos (altos custos fixos) é capaz de atender a dezenas de milhares de usuários (baixos custos marginais).
Hoje em dia, a Web funciona em termos de escala, encontrando formas de atrair a maioria dos usuários a recursos centralizados, diluindo esses custos por um público cada vez maior à medida que a tecnologia se torna cada vez mais eficaz. A questão não é o custo do equipamento nas prateleiras do centro de informática, mas o que esse equipamento pode fazer. E todos os anos, como se um despertador tivesse magicamente sido colocado para tocar, esse equipamento faz cada vez mais por menos, aproximando de zero os custos marginais da tecnologia que as pessoas consomem.
O que Mead e Kay prenunciaram teve profundo efeito nas indústrias baseadas em computação. Significava que desenvolvedores de software, sem ter de se preocupar com recursos computacionais escassos, como memória e ciclos de processamento, poderiam tornar-se cada vez mais ambiciosos, concentrandose em outras funções, como interfaces com o usuário, e novos mercados, como o entretenimento. O resultado foi a criação de aplicativos mais atrativos, que trouxeram mais usuários e que, por sua vez, encontraram ainda mais utilidades para os computadores. Graças a esse desperdício de transistores, o mundo mudou.
O interessante é que os transistores (ou o armazenamento, ou a largura de banda) não precisam ser completamente gratuitos para provocar esse efeito. Em determinado ponto, eles passam a ser baratos o suficiente para serem desconsiderados com segurança. O filósofo grego Zenão investigou esse conceito em um contexto ligeiramente diferente. No paradoxo da dicotomia de Zenão, nós nos aproximamos rapidamente de um muro. Enquanto corremos, reduzimos pela metade a distância em relação ao muro, depois reduzimos essa distância novamente pela metade e assim por diante. Mas se continuarmos a subdividir o espaço eternamente, é possível um dia chegar ao muro? (A resposta é que é impossível. Uma vez que chegamos a alguns nanômetros, as forças atômicas de repulsão se tornam intensas demais para que continuemos nos aproximando. No que se refere ao paradoxo matemático, Newton o solucionou com a invenção do cálculo integral.