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Chris Anderson · Capítulo 66 de 98

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12. Economias Não Monetárias

MONETÁRIAS

 

Quando o dinheiro não é a regra, o que é?

 

EM 1971, no despontar a Era da Informação, o cientista social Herbert Simon escreveu:

Em um mundo rico em informações, a riqueza da informação implica a carência de outra coisa:

escassez daquilo que a informação consome. O que a informação consome é bastante óbvio: ela

consome a atenção de seus destinatários. Dessa forma, a abundância de informação gera carência de

atenção.

O que Simon observou foi a manifestação de uma das regras mais antigas da economia: “Cada abundância gera nova escassez.” Tendemos a valorizar mais o que ainda não temos em plenitude. Por exemplo, a abundância de café grátis no trabalho desperta a necessidade de um café muito melhor, pelo qual estamos dispostos a pagar muito. E o mesmo se aplica também a qualquer produto premium que surge de um mar de produtos commoditizados baratos, de comida feita em casa a água de marca.

“É verdade que o homem vive só de pão – quando há pouco pão”, observou Abraham Maslow, em seu revolucionário artigo de 1943, “Uma teoria da motivação humana”. “Mas o que acontece aos desejos de um homem quando há muito pão e quando seu estômago está cronicamente cheio?”

A resposta, expressa em sua hoje famosa “pirâmide das necessidades”, foi a seguinte: “Imediatamente, surgem outras (e superiores) necessidades, e essas necessidades, em vez de ânsias fisiológicas, dominam o organismo.” Na base de sua pirâmide, estão as necessidades físicas, como comida e água. Acima, a segurança. O próximo nível superior é amor e aceitação, depois estima e, finalmente, no alto da pirâmide, está a “realização pessoal”, que busca significado, como a criatividade.

O mesmo tipo de pirâmide pode ser aplicado à informação. Uma vez que nossa fome de conhecimento e entretenimento básico é satisfeita, tornamo-nos mais exigentes em relação a exatamente qual conhecimento e entretenimento queremos e, no processo, aprendemos mais sobre nós mesmos e o que nos motiva. Isso acaba transformando muitos de nós de consumidores passivos a produtores ativos, motivados pelas recompensas psíquicas da criação.

Em geral, no mercado de consumo, nossa escassez de dinheiro nos ajuda a navegar pela abundância de produtos disponíveis a nós – só compramos o que podemos pagar (apesar das dívidas do cartão de crédito). Essa também é a forma como o capitalismo monitora a demanda de consumo, com base no que os consumidores estão dispostos a pagar. Mas o que acontece no ambiente on-line, em que cada vez mais produtos são codificados em software e, dessa forma, podem ser oferecidos de graça? O dinheiro não é mais o indicativo mais importante no mercado. Em vez disso, dois fatores não monetários surgem para assumir seu lugar.

Estamos nos referindo ao que costuma ser chamado de a “economia da atenção” e a “economia da reputação”. Os mercados da atenção e da reputação não constituem novidade alguma. Todo programa de televisão precisa concorrer no primeiro mercado e toda marca precisa concorrer no segundo. Uma celebridade desenvolve sua reputação e a converte em atenção. Mas o aspecto singular na experiência on-line é como eles são mensuráveis e como estão se parecendo cada vez mais com uma economia real a cada dia.

O que define uma “economia”? Em meados do século XVIII, a palavra “economia” era mais utilizada nos âmbitos da política e do direito. Mas Adam Smith deu ao termo seu significado moderno ao definir a economia como o estudo dos mercados, em particular o que hoje nos referimos de forma resumida como “a ciência da escolha diante da escassez”.

Hoje em dia, a economia estuda mais do que apenas os mercados monetários. Desde a década de 1970, subespecialidades como economia comportamental e “neuroeconomia” têm surgido, todas tentando explicar por que as pessoas fazem determinadas escolhas com base nos incentivos percebidos. Muitas vezes, atenção e reputação fazem parte desses incentivos, mesmo que não sejam formalmente definidas como um mercado.

Houve algumas tentativas inteligentes de utilizar a linguagem da economia para descrever os mercados da atenção, como esta elegante pirueta de Georg Franck, economista alemão, em 1999:

Se a atenção que presto aos outros é valorizada na proporção da quantidade de atenção que me

devem, então um sistema de contabilidade é acionado quando atribui valor a algo como os preços da

atenção individual no mercado financeiro de ações sociais.

É nesse mercado secundário que a ambição social prospera. É essa bolsa de valores do capital de

atenção que dá significado preciso à expressão “feira de frivolidades”.

Quando chegava a hora de quantificar a atenção, no entanto, tudo o que Franck podia mensurar era “a presença de uma pessoa na mídia” (sabe-se lá o que isso quer dizer).

Mas e se pudéssemos tratar a atenção e a reputação de forma tão quantitativa quanto tratamos o dinheiro? E se pudéssemos formalizá-las em mercados adequados, de modo a podermos explicá-las e prevê-las com muitas das mesmas equações que os economistas usam na economia monetária tradicional? Para isso, precisamos que a atenção e a reputação apresentem as mesmas características de outras moedas tradicionais: serem mensuráveis, finitas e conversíveis.

Na verdade, estamos nos aproximando disso, graças à criação de 1989, de Tim Berners-Lee: o hyperlink moderno. Não é nada complicado – apenas uma série de caracteres começando com “http://” –, mas o que isso criou foi uma linguagem formal para a troca de atenção e reputação e moedas para ambas. Hoje em dia, quando você inclui um link para alguém no seu blog, você está efetivamente concedendo a essa pessoa parte de sua própria reputação. Em certo sentido, você está dizendo a seu público: “Saia daqui. Vá a este outro lugar. Acho que você vai gostar e, quando isso acontecer, talvez tenha um conceito mais elevado de mim por eu recomendar esse site. E se seu conceito sobre mim for mais elevado, talvez você volte a meu site com mais frequência.”

Teoricamente, essa transferência de reputação deixa as duas partes mais ricas. Boas recomendações desenvolvem a confiança do público leitor e ser recomendado também concede confiança. E com a confiança, vem o tráfego.

Agora temos um verdadeiro mercado da reputação – o Google. Qual é a moeda da reputação on-line além do algoritmo de classificação de páginas do Google, o PageRank, o qual mensura os links recebidos que definem a rede de opiniões que é a Web? E qual seria uma melhor medida de atenção do que o tráfego na Web?

O PageRank é uma ideia enganosamente simples com enorme poder. Basicamente, ele afirma que os links recebidos são como votos e que os links recebidos de sites que também têm muitos links recebidos contam mais do que os de sites que não têm. Esse é o tipo de cálculo que só um computador é capaz de fazer, por demandar toda a estrutura de links da Web na memória e analisar cada link de modo recorrente. (É interessante notar que o PageRank se baseia em um trabalho anterior em uma escala muito menor no âmbito da publicação científica. A reputação de um autor pode ser calculada pelo número de outros autores que o citam em notas de rodapé, um processo denominado “análise de citação”. Não existe qualquer economia de reputação mais explícita do que a reputação acadêmica, que define tudo, de estabilidade no cargo a bônus anual.)

Em termos econômicos, fazemos a conversão da economia da reputação à economia da atenção e ao dinheiro utilizando a seguinte fórmula: o valor econômico de seu site é o tráfego que seu PageRank (um número entre 1 e 9) traz a partir dos resultados da busca do Google para qualquer determinado termo, multiplicado pelo valor de palavra-chave para esse termo. (Um PageRank mais elevado significa mais tráfego, já que você será exibido mais acima nos resultados da busca.) E você pode converter esse tráfego no bom e velho dinheiro rodando anúncios do AdSense em seu site e dividindo o faturamento com o Google.

Goste ou não, hoje, todos nós vivemos na economia do Google, pelo menos em parte de nossa vida. Em um site típico, entre um quarto e metade de todo o tráfego resulta de buscas no Google. Uma indústria inteira, chamada de “otimização de ferramentas de busca”, foi criada para ajudar os sites a aumentar sua visibilidade aos olhos do Google. O PageRank é o padrão ouro da reputação.

Isso faz do cofundador do Google Larry Page (cujo sobrenome faz um trocadilho com o Page, de PageRank) o banco central da economia do Google. Ele e seus colegas do Google controlam a oferta monetária. Eles estão constantemente ajustando o algoritmo, para assegurar a retenção do valor. À medida que a Web cresce, eles evitam a “inflação” do PageRank, dificultando o acesso a ele. Se perceberem a falsificação do PageRank, na forma de spams de links, eles ajustam o algoritmo para tirar esse elemento de circulação. Eles mantêm o valor da moeda trabalhando para manter os resultados de sua busca mais relevantes do que o dos concorrentes, o que manterá a participação de mercado do Google (atualmente, na posição dominante, com 70%). O trabalho de Alan Greenspan não era tão diferente.

Mas da mesma forma como ocorre com os bancos centrais nos dias de hoje, controlar uma moeda está longe de controlar a economia inteira. Pense no Google como os Estados Unidos da Web – a maior de muitas economias de reputação e atenção. Não se trata de uma economia fechada, por constituir apenas uma parte da economia mais ampla da Web. E ao redor dela, existem inúmeras outras economias de reputação e atenção, cada uma com as próprias moedas.

O Facebook e o MySpace têm “amigos”. O eBay tem classificações de vendedores e compradores. O Twitter tem “seguidores”, o Slashdot tem o “carma” e assim por diante. Em cada caso, as pessoas podem acumular capital de reputação e transformá-lo em atenção. Cabe a cada um descobrir como converter isso em dinheiro, se for o desejado (a maioria das pessoas não quer isso), mas, atualmente, a quantificação da atenção e da reputação é um empreendimento global. Este é o mercado no qual todos nós jogamos, cientes disso ou não. A reputação já foi intangível e agora está cada vez mais concreta.

Na Web, todas essas economias coexistem e têm seus altos e baixos com as marés da atenção – mesmo que quisessem controlar inteiramente a atenção, elas não poderiam. Mas existe uma classe crescente de economias on-line fechadas em que os bancos centrais têm muito mais poder. São os jogos on-line, do Warhammer ao Lineage, que normalmente utilizam duas moedas: a moeda da atenção, com a qual os jogadores ganham dinheiro virtual jogando, e a moeda real, que eles podem utilizar para comprar dinheiro virtual se não quiserem investir o tempo necessário para ganhá-lo.

Em cada um desses jogos, as empresas por trás deles levam o papel de banco central a sério. Se os desenvolvedores do Warhammer não controlarem a oferta de ouro, seu valor cairá e o mercado de revenda entrará em colapso. Os desenvolvedores de jogos costumam chamar economistas acadêmicos para ajudar a projetar suas economias do jogo, para evitar todas as mazelas das economias do mundo real, de liquidez insuficiente a fraude.

Mas no final, todos esses jogos gravitam em torno da maior escassez que existe: tempo. Tempo realmente é dinheiro e, no núcleo das economias desses jogos, existe um trade-off entre eles. Jogadores mais jovens podem ter mais tempo do que dinheiro e acumular moedas de atenção com cliques. Jogadores mais velhos podem ter mais dinheiro do que tempo e comprar atalhos. Os designers dos jogos tentam atingir o equilíbrio entre esses dois fatores, de modo que os jogadores possam competir e progredir de uma forma ou de outra. E à medida que fazem isso, estão criando algumas das economias não monetárias mais quantificadas que o mundo já viu.