As Sombras de Outubro
Capítulo 8
Steen sobe as escadas para o segundo andar chamando por ela. A villa aristocrática tem quase cem anos e quase quatrocentos metros quadrados, e ele conhece cada palmo da casa, uma vez que foi ele quem a reformou. Quando compraram e se mudaram para lá, era importante que tivessem muito espaço, mas agora é grande demais. Demais mesmo. Ele a procura no quarto e no banheiro antes de perceber que a porta em frente está entreaberta. Hesita por um instante antes de empurrá-la e espiar o quarto que foi da lha.
A mulher está de casaco e cachecol, sentada no colchão sem lençol perto da parede. Seus olhos passeiam pelo quarto, pelas paredes nuas e caixas de papelão empilhadas em um canto. Depois, voltam para ela.
— O carro chegou.
— Obrigada...
Ela assente rapidamente, ainda sentada. Steen dá outro passo e sente o frio no quarto, então nota que ela está retorcendo uma camiseta amarela nas mãos.
— Você está bem?
É uma pergunta idiota — ela não parece nada bem.
— Eu abri a janela ontem e me esqueci de fechar . Acabei de perceber .
Ele concorda, compreensivo, embora não seja uma resposta para a pergunta. Eles ouvem do m do corredor o lho gritar que Vogel já chegou, mas nenhum dos dois reage.
— Eu não me lembro mais do cheiro dela.
Suas mãos acariciam o tecido amarelo, e ela ca olhando para aquilo como se estivesse procurando algo oculto entre os os
entremeados.
— Eu só precisava tentar . Mas o cheiro não está aqui. Nem em mais nada.
Ele se senta ao lado dela.
— Talvez isso seja bom. Talvez seja melhor assim.
— Como isso poderia ser melhor ... Não é melhor .
Ele não responde e percebe que ela se arrepende de ter se irritado com ele e suaviza a voz.
— Eu não sei se vou conseguir ... Parece errado.
— Não é errado. É a coisa certa a fazer . Você mesma me disse isso.
O lho chama novamente.
— Ela diria para você ir . Ela diria que tudo vai se ajeitar. Ela diria que você é incrível.
Rosa não responde. Por um momento, permanece sentada, segurando a camiseta. Então pega a mão dele, dá um aperto leve e tenta sorrir .
— Tudo bem, ótimo. Vejo você daqui a pouco. — O assessor de Rosa Hartung desliga o telefone quando a vê descendo a escada em direção ao hall. — Cheguei cedo demais? Você quer que eu peça para a família real adiar a abertura até amanhã?
— Não. Estou pronta.
Rosa sorri diante da energia de Frederik Vogel, achando que é uma boa mudança. Quando Vogel está por perto, não há espaço para sentimentalismo.
— Bom. Vamos repassar o programa. Já recebemos muitas perguntas. Algumas boas, algumas previsíveis, e os tabloides...
— Vamos fazer isso no carro. Gustav , lembre que hoje é terça-feira e o seu pai vai te buscar . E ligue se precisar de qualquer coisa, está bem, meu amor?
— Eu sei.
O garoto assente, entediado, e Rosa mal tem tempo de acariciar o cabelo do lho antes que Vogel abra a porta para ela.
— Você também tem que conhecer o seu novo motorista e nós realmente precisamos discutir como vamos organizar algumas negociações...
Steen observa tudo pela janela da cozinha, tentando dar um sorriso encorajador para a esposa enquanto ela cumprimenta o novo motorista e se acomoda no banco de trás. Quando partem, Steen sente uma onda de alívio.
— A gente não tem que ir agora? — pergunta o lho, e Steen consegue ouvi-lo vestindo o casaco e calçando as botas, lá no hall.
— Estou indo.
Steen abre a geladeira, pega um engradado de garra nhas de bebida, abre a tampa de uma delas e vira o conteúdo. Sente o líquido descer queimando até o estômago. Depois coloca as outras garra nhas na bolsa, fecha a geladeira e pega as chaves do carro na mesa da cozinha.