As Sombras de Outubro
Capítulo 77
Olívia não está totalmente desperta, embora esteja sentada na cama, encostada na parede de madeira.
— O que houve, mamãe?
— Nada, meu amor. Só volte a dormir.
Jessie vai até a cama e se senta, acariciando o cabelo da lha.
— Mas eu não consigo dormir com todo esse barulho — sussurra a
lha, apoiando-se no ombro da mãe bem na hora que o alarme é
desligado.
— Pronto. Parou. Pode voltar a dormir, querida.
Um instante depois, Olívia adormece, e, enquanto Jessie olha para ela, pensa que conversar com o policial ajudou. Não é o su ciente, claro, e ela desejava ter falado mais, ter desabafado. Mas o alarme do carro mudou as coisas. Ela sentiu um medo que nunca tinha sentido e, agora que a sirene parou e ela consegue ouvir o telefone do policial tocando no jardim, se sente boba. Até que percebe que ele não está atendendo . Ela presta atenção, mas o toque parou. Então começa novamente, mas de novo ninguém atende.
Do lado de fora, o vento sopra no cabelo de Jessie. Ela está de sapato, mas faz muito frio e ela se arrepende por não ter se enrolado em um cobertor antes de sair . Consegue ouvir o telefone tocando em algum lugar perto do carro , mas não vê o policial.
— Oi? Cadê você?
Ninguém responde. Hesitante, Jessie se aproxima do carro, que está parado no cascalho do lado de fora do portão. Se ela der mais um passo, vai alcançar o chão de cascalho e enxergar toda a lateral do carro e provavelmente o celular também, que está tocando bem perto. Mas então ela se lembra do que os detetives disseram durante o interrogatório e do perigo que eles descreveram. No jardim, por entre as árvores e os arbustos sem folhas, a ameaça se agita e sobe por suas pernas nuas, e ela se vira e volta correndo para a casa, subindo os degraus de madeira e passando pela porta que bate atrás de si.
Pela conversa do detetive ao telefone, pouco antes, sabe que a ajuda está a caminho e diz para si mesma que não deve entrar em pânico. Tranca a porta e arrasta uma cômoda de gavetas até ela. Então corre até a cozinha e o banheiro e confere se todas as portas e janelas estão trancadas. Na cozinha, ela pega uma faca comprida e a ada. Não consegue enxergar nada pela janela que dá para o jardim dos fundos, mas de repente se dá conta de que as luzes estão acesas. Se há alguém lá fora — e, a essa altura, ela não tem a menor dúvida disso —, vai conseguir ver cada movimento dela. Jessie volta correndo à sala e, depois de algumas tentativas para achar o interruptor certo, consegue apagar as luzes.
Fica imóvel, com os olhos xos no jardim da frente. Nada. Apenas o vento tentando derrubar a porta. Ela está em pé diante do radiador elétrico , que percebe que desligou acidentalmente enquanto procurava o interruptor para apagar as luzes. Jessie se abaixa e o liga novamente. O radiador começa a zunir e a luz avermelhada e fraca que ele emite faz com que perceba de repente a pequena gura sentada na cadeira antes ocupada pelo detetive.
Por alguns instantes, ela não sabe o que é. Mas então se dá conta. E embora o sr. Castanha tenha uma aparência bastante inocente, com seus bracinhos de palito de fósforo erguidos, como em uma prece, ele a apavora: ela sabe na hora que aquilo não estava ali minutos antes, quando saiu para procurar o detetive. Quando ergue a cabeça de novo, é como se algo na escuridão ganhasse vida em frente a ela, e, juntando todas as suas forças, ela começa a dar golpes de faca no ar.