As Sombras de Outubro
Capítulo 53
O silêncio é a primeira coisa que Hess nota ao fechar a porta. Seus olhos procuram se ajustar à escuridão . Depois de tentar acender as luzes em três interruptores diferentes, ele imagina que a companhia elétrica deve ter cortado o fornecimento. A casa está em nome de Laura Kjær , sua morte foi registrada, e o desmantelamento da vida humana segue seu curso.
Hess pega sua lanterna e passa pelo corredor , avançando pela casa. A ligação para o assistente social do caso o deixou incomodado. A verdade é que Hess não sabe o que aquilo signi ca. Nem se signi ca alguma coisa. Só sabe que precisa dar uma olhada na casa de novo. Além disso, o interrogatório do clínico geral do Rigshospital foi bom. Por um momento, achou que tinham encontrado o lugar certo e a pessoa certa. Ambas as vítimas tinham interagido com o médico, e seu instinto lhe dizia que as crianças eram o fator comum. Mas então o médico mencionou a denúncia.
É um tiro no escuro vasculhar a casa novamente. Tudo já foi visto e revisto várias vezes por diversas equipes de investigadores e técnicos. Além disso, a denúncia aconteceu três meses antes, então se houvesse alguma coisa para ser encontrada provavelmente já teria desaparecido a essa altura. Mas alguém fez uma denúncia contra Laura Kjær — alguém com interesse su ciente para escrever um e-mail cheio de ódio recomendando que o lho fosse tirado dela —, e Hess espera que a casa possa lhe dar algumas respostas. Enquanto caminha pelo corredor ele percebe que ainda há evidências do trabalho da equipe forense. Traços do pó branco para pegar impressões digitais nas maçanetas e batentes e marcadores numerados em vários objetos. Objetos que poderiam ou não ser usados se e quando fossem feitas acusações formais relativas ao assassinato de Laura Kjær . Hess passa por todos os aposentos e termina, por m, em um pequeno quarto de hóspedes que evidentemente é usado como escritório. Está assustadoramente vazio agora; a mesa está sem o computador , ainda em posse da polícia. Ele abre os armários e gavetas, lê anotações aleatórias e vasculha pedaços de papel, então vai para o banheiro e, por último, para a cozinha, onde repete o processo, sem encontrar nada de interessante. Enquanto a chuva castiga o telhado, Hess volta pelo longo corredor até o quarto principal, onde a cama ainda está desarrumada e o abajur, caído no chão. Acabou de abrir a gaveta de lingeries de Laura Kjær quando ouve um barulho na porta da frente e Thulin reaparece.
— Nenhum dos vizinhos sabe de nada. Ninguém ouviu falar sobre a denúncia. Só repetiram que a mãe e o padrasto eram muito carinhosos com o garoto.
Hess abre um outro armário e ca remexendo lá.
— Estou indo embora. Ainda tenho que checar os antecedentes do médico e o que Sejer-Lassen disse sobre os casos. Leve a chave de volta quando terminar .
— Tranquilo. Tchau.