As Sombras de Outubro
Capítulo 125
O sol brilha atrás do vidro congelado da janela. As malas estão no tapete de bra de coco aos seus pés, e Astrid espera no corredor , inquieta, que a família de bicicleta se afaste um pouco mais da casa para que não vejam quando ela abrir a porta e sair . São só quinze degraus, mais ou menos, até a garagem e o pequeno e velho Seat, mas ela está se remexendo impacientemente: quer voltar bem rápido para casa e pegar Mulle antes que outro ciclista ou carro passe por lá.
Astrid não dormiu muito. Passou a noite praticamente em claro, pensando no que podia ter acontecido, e às cinco e quarenta e cinco da manhã decidiu que ia desa ar as ordens do irmão e sair de lá. Destrancou a porta da despensa e sacudiu Mulle com carinho para acordá-la, então mandou que se vestisse enquanto preparava o café da manhã. Só algumas fatias de pão com geleia, e uma única maçã para Mulle — ela não se atreve a ir ao mercado desde a semana anterior . As malas estão arrumadas desde a noite de sexta-feira, quando o irmão lhe disse que partiriam assim que ele chegasse. Mas ele não chegou. Astrid esperou e esperou e, do seu lugar na cozinha, acima da pia,
cou olhando para a estrada prendendo a respiração, observando os
faróis que brilhavam ocasionalmente na escuridão. Mas todas as vezes eles passaram direto pela casa isolada, cercada por plantações e pela
oresta. Ela sentiu medo e alívio na mesma medida, mas não se
atreveu a fazer outra coisa além de esperar mais um dia. Então mais um e mais outro. Normalmente ele é como um relógio, liga de manhã e no início da noite, para se certi car de que tudo está como deveria, mas não houve mais ligações desde a manhã de sexta-feira, e ela não pode ligar para ele porque não tem seu número. Seria perigoso demais, disse ele séculos atrás, e ela aceitou. Assim como aceitava tudo que ele sugeria, porque ele era forte, porque ele sabia o que era melhor .
Sem seu irmão, Astrid tinha sucumbindo às drogas, à bebida, ao desprezo por si mesma. Ele bateu incansavelmente na porta de instituições e centros de tratamentos para que pudessem tentar curá-la novamente ou encontrar outra estratégia. E todas as vezes ele cou lá ouvindo médicos e terapeutas explicando como sua mente estava dani cada, e ela não entendeu que seu sofrimento era o sofrimento dele também. Astrid sabia, é claro, do que ele era capaz, porque tinha visto com os próprios olhos naquele dia na fazenda de Ørum, mas
cou tão envolvida na própria dor por tantos anos que não notou o
sofrimento dele até ser tarde demais.
Cerca de um ano atrás, quando estava internada em outra instituição , ele a pegou um dia e a levou para passear de carro. Eles pegaram a balsa e seguiram até um lugar ao sul de Rostock, onde havia uma casinha que ele tinha comprado para ela. Astrid cou
perplexa; o lugar era lindo, ainda mais com as cores do outono, e cou muito feliz e grata pelo amor dele. Até que o irmão lhe contou por que tinha comprado a casa e para que seria usada.
Tudo aconteceu à noite. Ele trouxe a garota drogada no porta-malas. Astrid cou horrorizada. Reconheceu o rosto da menina porque tinha visto na TV da sala comunal da instituição, um mês antes, e ele lhe contou em tom triunfante de quem ela era lha.
Quando Astrid fez objeção ao plano, seu irmão teve um surto de raiva, dizendo que teria que matar a garota imediatamente se não quisesse tomar conta dela. Depois ele a colocou em uma despensa preparada para recebê-la, mas não antes de dizer a Astrid que a casa era toda monitorada por câmeras para que ele pudesse observar tudo que faziam. Ela sentiu tanto medo dele naquele momento, de repente muito mais do que quando ele estava em pé sobre o corpo daquele policial, com o machado erguido.
No início, evitou ter qualquer contato com a garota. Só se aproximava dela duas vezes por dia, quando abria a porta da despensa para alimentá-la. Mas o som do choro era insuportável, e o sofrimento da garota a fez se lembrar da própria prisão. Logo, Astrid passou a permitir que ela saísse para comer na cozinha. Também deixava que a menina assistisse a programas infantis na TV da sala, em um dos canais alemães. Sentia que ambas eram prisioneiras sob o mesmo teto, e que o tempo não passava tão devagar quando estavam juntas. Mas, quando a garota tentou fugir , Astrid teve que bloquear seu caminho e trancá-la novamente na despensa. Não havia vizinhos, então não importava que ela zesse barulho, mas aquilo era desagradável, e Astrid percebeu que sentia pena da garota. Então, um pouco depois do Natal e do Réveillon que ela não teve energia para comemorar , decidiu começar algumas rotinas xas para que pudessem aproveitar melhor o tempo.
O dia começava com o café da manhã, depois estudos. Em uma ida à cidade mais próxima, Astrid comprou um estojo cor-de-rosa, assim como livros de matemática e inglês, e se esforçou ao máximo para dar aulas à menina na mesa da cozinha. Usava um site que encontrou na internet para ensinar literatura dinamarquesa, e a garota aproveitou a oportunidade com gratidão. As manhãs eram divididas em três aulas, seguidas por um almoço que preparavam e comiam juntas. Depois tinha mais uma aula, que era sempre de educação física, na sala. Foi lá que elas riram juntas pela primeira vez, porque pareciam tão bobas enquanto tentavam correr sem sair do lugar. Aquilo foi no nal de
março, e Astrid estava se sentindo mais feliz do que se sentia em anos. Começou a chamar a menina de Mulle, porque foi o nome mais doce em que conseguiu pensar .
Quando o irmão ia visitar , o que ele fazia pelo menos uma vez por semana, a atmosfera mudava. Astrid e Mulle cavam tímidas e em silêncio, como se o carrasco tivesse entrado na sala. O irmão sentiu que havia surgido uma ligação entre elas e censurou Astrid várias vezes, inclusive pelo telefone, quando as câmeras revelavam a liberdade que ela dava para a garota. Quando os três comiam juntos, geralmente em silêncio, ele cava observando Mulle com uma expressão sombria, enquanto a menina tirava a mesa e ia lavar a louça, e Astrid cava atenta aos movimentos dele. Mas nunca nada aconteceu. Só depois de outra tentativa de fuga, no verão, foi que ele bateu em Mulle, uma bofetada e nada mais.
Antes daquele episódio, o calor estava insuportável dentro de casa, então elas começaram a estudar no quintal dos fundos, incluindo a aula de educação física. Um dia, Mulle perguntou se podiam passear pela oresta. Astrid não viu perigo naquilo. A oresta era enorme e ela raramente encontrava alguém por lá. De qualquer forma, estavam longe da Dinamarca e Mulle estava completamente diferente de quando chegou. O cabelo estava cortado bem curto, e ela usava roupas que a faziam parecer um menino. Mas em uma dessas caminhadas, depois de o irmão compassivamente dar permissão, Mulle fugiu. Viram outras pessoas caminhando na oresta e estavam voltando para casa, como sempre, mas Mulle se soltou e tentou alcançar um casal idoso. Astrid teve que arrastar a garota histérica até em casa e
cou óbvio que as câmeras mostraram que alguma coisa tinha acontecido. Algumas horas depois seu irmão chegou e o castigo dela foi um mês de isolamento: durante trinta dias, a menina só pôde sair da despensa para ir ao banheiro. Assim que o castigo acabou, Astrid levou a menina para o quintal e lhe deu o maior sorvete que conseguiu comprar . Explicou o quanto estava decepcionada, e Mulle pediu desculpas e Astrid abraçou seu corpo frágil. Depois disso, as coisas melhoraram. Elas seguiram com a rotina de aulas e exercícios, e Astrid desejava que aquilo durasse para sempre. Mas então chegou o outono — e seu irmão começou a trazer as castanhas.
— Fique aqui, Mulle. Eu já volto.
A família de ciclistas nalmente passa, e Astrid abre a porta da frente e sai para o ar frio e puro com uma mala em cada mão. Ela corre até a garagem, imaginando até onde vão conseguir chegar hoje, se dirigir bem depressa. Astrid não tem tempo de traçar um plano, geralmente é o irmão que cuida dessa parte, mas está sozinha agora. Mesmo assim, desde que Mulle esteja com ela, tudo vai car bem. Sabe que foram feitas uma para a outra e que devem car juntas, e parou há muito tempo de pensar que a garota já teve outra casa e outra família. Talvez seja uma boa coisa o irmão não ter aparecido. No fundo , Astrid tem medo do que ele possa fazer com a garota quando tudo estiver acabado.
É o último pensamento que passa por sua cabeça antes de entrar na garagem e alguém com a mão enluvada tapar a sua boca.
— Wie viele gibt es im Haus?!
— Das Mädchen, wo ist sie?!
— Antworte!
As malas são arrancadas de suas mãos, mas Astrid está chocada demais para responder . Só quando um homem alto com rosto ferido e olhos de cores diferentes fala com ela em dinamarquês é que começa a gaguejar que eles não podem levar a menina. Ela sente um nó na garganta e as lágrimas começam a correr pelo seu rosto, porque ele não está ouvindo.
— Onde ela está? — insiste ele, sem parar .
Só quando percebe que eles vão invadir a casa com fuzis e máscaras assustadoras é que ela conta o que o homem quer saber , e então cai no chão aos pés dele.