As Sombras de Outubro
Capítulo 111
Quando Hess consegue falar com Nylander , já está quase chegando ao trecho nal da estrada para Copenhague. Tentou ligar várias vezes, mas só agora o imbecil atende — e claramente não está a m de
conversar .
— O que você quer? Estou ocupado.
— Você os encontrou?
O laboratório estava vazio. Nenhum sinal de Genz, a não ser pela assinatura que deixou para cumprimentar os policiais que o perseguiam. A princípio, sua equipe achou que ele devia estar em uma conferência em Jutland, mas, quando entraram em contato com a organização do evento, descobriram que ele não tinha aparecido.
— E a casa dele?
— É onde estamos agora. Uma cobertura em um condomínio novo em Nordhavn. Mas está vazia. E quando eu digo vazia, quero dizer que está completamente vazia. Não tem móveis nem nada. Nem mesmo uma impressão digital, eu posso apostar.
Hess não consegue ver muito mais do que quinze metros adiante na estrada, mas acelera mais.
— Mas vocês estão com Rosa Hartung, não estão? Tudo isso tem a ver com ela, e se Genz...
— Nós não temos absolutamente nada. Parece que ninguém sabe onde ela está, e o celular dela está desligado, então não conseguimos rastrear . O marido também não sabe de nada. Mas parece que a au pair a viu sair de carro depois que encontrou um enfeite de bonecos de castanha na porta dos fundos.
— Que tipo de enfeite?
— Eu não vi.
— E não temos como localizar Genz? Seu celular ou o carro...
— Não. Ele deixou o celular no escritório e os carros do Departamento Forense não têm rastreadores. Alguma outra sugestão útil?
— E os computadores no laboratório? Peça a Thulin para hackear a senha para vermos o que tem lá.
— Já temos um time lá tentando fazer isso.
— É melhor você chamar a Thulin! Ela vai fazer isso bem...
— Thulin desapareceu.
Há alguma coisa sinistra naquelas palavras. Hess ouve os ecos dos passos de Nylander e dos outros descendo uma escada em um corredor vazio e imagina que a busca ao apartamento de Genz acabou.
— Como assim?
— Parece que ela foi ao Departamento Forense à procura de Genz e se encontrou com ele hoje mais cedo. Um técnico na garagem disse que os viu, umas duas horas atrás, descendo juntos pela escada dos fundos, entrando no carro de Genz e saindo. Isso é tudo que eu sei.
— Duas horas? Você já tentou ligar para ela?
— Ninguém atende. E acabei de receber a informação de que o celular dela foi encontrado em uma lata de lixo perto do prédio do Departamento Forense.
Hess freia e desvia o carro para o acostamento da estrada coberta de neve. Vários carros buzinam, e ele tira um no de um caminhão na pista ao lado antes de chegar ao acostamento e parar .
— Ela não tem utilidade para Genz. Talvez ele a tenha largado em algum lugar . Talvez ela esteja em casa ou com a...
— Hess, nós veri camos. Thulin desapareceu. Você tem alguma informação que eu possa usar? Alguma ideia de onde ele possa estar?
Hess escuta a pergunta enquanto os carros passam por ele. Tenta sair da paralisia que parece tomar conta dele, mas a única coisa se mexendo é o limpador de para-brisa.
— Hess!
— Não. Eu não sei.
Hess ouve uma porta de carro bater e a ligação é cortada. Vários segundos se passam antes de ele afastar o celular do ouvido. Os carros o ultrapassam na neve enquanto o limpador de para-brisa funciona freneticamente.
Ele devia ter ligado para ela do aeroporto no instante em que percebeu que havia alguma coisa errada. Se tivesse ligado, ela estaria trabalhando nas fotos favoritas de Bekker e nunca teria ido ver Genz. Mas ele não ligou, e as emoções que estão lhe provocando um nó na garganta indicam que teve mais motivos para isso do que está disposto a admitir .
Hess tenta se agarrar a alguma linha racional de pensamento. Talvez não seja tarde demais. Ele não faz ideia de por que Thulin foi ver Genz, mas se entrou no carro dele por livre e espontânea vontade era porque ainda não sabia quem ele era. Dessa forma, Genz não tem motivo para feri-la e menos ainda para passar um tempo com ela. A não ser que Thulin tenha descoberto alguma coisa e procurado Genz como um aliado com quem conversar .
Pensar nisso é assustador . Mas Thulin é um problema mínimo no plano de Genz, e ele não vai se concentrar nela. Aquilo tudo tem a ver com Rosa Hartung — foi sobre ela o tempo todo . Rosa Hartung e o passado .
De repente, Hess sabe o que fazer . É um tiro no escuro. Talvez seja mais uma intuição do que um pensamento racional, mas as outras possibilidades são improváveis demais ou já estão a cargo de Nylander e dos detetives em Copenhague. Ele olha por cima do ombro e vê os faróis ofuscados pela neblina da leira de carros que passam por ele, espirrando neve suja. Quando tem uma pequena brecha — pelo menos o su ciente para os outros carros se desviarem dele —, pisa fundo no acelerador e cruza a pista, dirigindo-se para uma abertura na grade de proteção contra acidentes. O volante gira e, por um momento, ele acha que o carro vai rodar na pista. Mas os pneus aderem ao asfalto novamente e ele consegue passar pelo vão central e seguir para a pista no sentido oposto. Sem nem olhar para ver se está vindo algum carro. Simplesmente aperta a buzina e entra entre duas vans quando chega à pista de baixa velocidade.
Hess volta por onde veio. Segundos depois, o velocímetro marca cento e quarenta quilômetros por hora, e a pista rápida está livre para ele.