As Sombras de Outubro
Capítulo 62
Thulin abre o notebook na mesa da sala e começa a examinar o material colhido pelos outros investigadores da equipe naquele dia, concentrando-se em tudo que tenha a ver com Erik Sejer-Lassen. Sebastian já foi embora, que era o que ela queria, mas o encontro poderia ter sido melhor .
— É isso que acontece quando você não me atende ou retorna as minhas ligações. Corre o risco que eu apareça do nada — brincou ele quando chegaram ao apartamento.
Ao acender a luz da cozinha, Thulin cou chocada com a bagunça. As roupas molhadas que usou na busca na oresta em Klampenborg ainda estavam emboladas em um canto e na mesa havia uma tigela com crostas do que tinha sobrado do iogurte do café da manhã.
— Como você sabia que eu estava chegando em casa?
— Resolvi arriscar e dei sorte.
O encontro na rua foi constrangedor , e ela ainda estava irritada por não ter notado o Mercedes cinza-chumbo de Sebastian na porta de casa antes que ele batesse no vidro. Ela desceu do carro e Hess também saiu para assumir a direção. Tinham combinado que ele podia usar o carro para voltar para casa. Por um momento, ele e Sebastian caram se olhando e trocaram um cumprimento de cabeça — Sebastian animado e Hess mais reservado — antes de Thulin seguir para a porta. Foi uma bobagem, mas ainda assim ela cou
irritada por Hess conhecer Sebastian e vislumbrar um fragmento da sua vida pessoal. Ou será que sua irritação era com Sebastian? Às vezes ele parecia uma criatura de outro planeta; mas normalmente gostava disso nele.
— Olha, eu realmente tenho muito trabalho para fazer .
— Aquele é o seu novo parceiro? O cara que chutaram da Europol?
— Como você sabe que ele é da Europol?
— Ah, eu almocei com um sujeito que trabalha na promotoria. Ele comentou que um cara tinha feito uma merda em Haia e acabou sendo mandado de volta para a Homicídios. Então eu juntei dois e dois, já que você contou que tinha um novato idiota que não fazia nada. Como está indo com o caso?
Thulin se arrependeu imediatamente de ter falado sobre Hess quando Sebastian ligou algumas vezes, na semana anterior . Não tiveram tempo de se encontrar , por causa da investigação, e Thulin mencionou que o novo parceiro não estava ajudando muito. O que não parecia mais uma avaliação justa.
— Vi no noticiário que aconteceu alguma coisa na primeira cena do crime. É por isso que ele estava com cara de quem foi atropelado?
Sebastian se aproximou dela, e Thulin se afastou.
— Você precisa ir . Eu tenho um monte de coisas para ler.
Sebastian tentou acariciá-la e ela o rejeitou. Ele tentou de novo, dizendo que estava com saudade, que a queria, chegou a lembrá-la de que a lha não estava em casa, então poderiam transar onde quisessem, inclusive na mesa da cozinha.
— Por que não? Isso tem a ver com Le? Como ela está?
Mas Thulin não estava com ânimo para falar da lha, então pediu de novo para ele ir embora.
— O que foi, então? Você decide quando e como e eu não posso falar nada?
— Sempre foi assim. Se não acha bom, podemos terminar .
— Você conheceu alguém mais divertido?
— Não. Mas se conhecer , pode deixar que eu aviso. Obrigada pelas
ores.
Sebastian riu, mas foi difícil botá-lo para fora, e ela presumiu que devia ser raro alguém mandá-lo embora depois de ele aparecer com
ores e vinho. E talvez seja estranho o fato de ela ter mandado. Então
Thulin promete a si mesma que vai ligar para ele amanhã.
Ela come metade de uma maçã em frente ao notebook antes de seu celular tocar . É Hess. Depois da conversa no carro, concordaram em veri car o acidente da lha de Sejer-Lassen, então não é estranho que ele esteja ligando. O estranho é ele perguntar delicadamente se está atrapalhando.
— Não , tudo bem. O que foi?
— Você estava certa. Acabei de falar com uma pessoa no pronto-socorro do Rigshospital. Além do episódio com o nariz e a clavícula quebrada, que levou a menina mais velha a ser internada, as duas
lhas de Sejer-Lassen tiveram que passar por tratamentos depois de
acidentes em casa quando moravam em Islands Brygge e em Klampenborg. Não há qualquer indicação de abuso sexual, mas é possível que elas sofressem algum tipo de violência doméstica. Talvez só de um jeito diferente de Magnus.
— Quantos acidentes?
— Não recebi o número total ainda. Mas são acidentes demais.
Thulin ouve a pesquisa dele. Quando Hess termina de descrever os relatórios médicos, ela sente a náusea que sentiu no quarto subterrâneo voltar . Mal ouve quando ele sugere que comecem o dia seguinte com uma visita ao Conselho Tutelar local de Gentofte.
— A casa de Sejer-Lassen em Klampenborg está na jurisdição do Conselho Tutelar de Gentofte, e, se houver alguma denúncia anônima sobre Anne Sejer-Lassen na caixa de e-mail deles, vamos saber que estamos no caminho certo.
Ele termina a conversa de forma surpreendente:
— A propósito, obrigado por ter voltado à casa. Acho que ainda não agradeci.
— Tranquilo. Até amanhã — diz ela antes de desligar .
Depois disso, Thulin tem di culdade para recuperar a compostura. Então decide pegar alguma coisa para se distrair , dessa vez um Red Bull, para não correr o risco de dormir . Quando se levanta, olha pela janela.
Do quarto andar, Thulin geralmente consegue ver bem além dos telhados e torres da cidade, quase até os lagos. Mas o andaime no prédio em frente, que foi montado no mês anterior , bloqueia a maior parte da vista. Quando está ventando, como esta noite, o vento faz a lona voar e o andaime geme e range nas juntas metálicas como se ameaçasse desmoronar . Mas é uma pessoa que atrai o olhar de Thulin. Será que tem realmente alguém ali? Atrás da lona e do passadiço, bem em frente ao seu apartamento, ela pensa ver a silhueta de alguém. Por um momento, parece que a pessoa está olhando diretamente para ela. De repente, a lembrança de alguém a observando do outro lado da rua quando deixou a lha na escola passa pela mente de Thulin. Ela ca alerta e seu instinto diz que é a mesma pessoa. Mas quando o vento sopra novamente na lona, levantando-a, a forma é encoberta. Quando a lona volta ao lugar , a silhueta desapareceu. Thulin apaga a luz e fecha o notebook. Fica parada na escuridão da sala por muito tempo, enquanto olha para o andaime, tentando se lembrar de respirar .