As Sombras de Outubro
Terça-Feira, 3 de Novembro
124
O pequeno comboio de três carros desce a rampa e deixa o terminal das barcas enquanto o sol começa a nascer. Está frio e ventando em Rostock. O comboio segue em direção ao destino, a algumas horas de distância. Hess está dirigindo o último carro , e, embora não tenha como prever o resultado da viagem, é bom se afastar um pouco. Nos últimos dias, o clima geral nas várias divisões da delegacia foi de desalento, enquanto as pessoas se apressavam para tirar o delas da reta. Mas na autoestrada o sol de novembro está brilhando, e ele pode ligar o rádio sem medo de ser arrastado para a caça às bruxas da imprensa.
A revelação de que Genz era o sr. Castanha foi um choque para todos. Como chefe do Departamento Forense, era ele quem orientava os colegas e ainda havia alguns com di culdade de acreditar que ele tinha abusado de sua posição e era o responsável por tantas mortes. Por outro lado, havia os críticos que argumentavam que Genz tinha recebido muito poder . Mas a crítica e a busca por um responsável não tinham acabado ali. Certamente não na mídia. A Divisão de Crimes Hediondos — que contava com os serviços de Genz e sua habilidade sem nunca ter descon ado dele — cou sob fogo pesado. Assim como os chefões, é claro, que foram responsáveis por promovê-lo. Até o momento, o sitiado ministro da Justiça tinha conseguido se manter longe das consequências de todos aqueles erros, pelo menos até terem uma explicação para as ações de Simon Genz.
Com todo o furor da imprensa, Hess e outros detetives se concentraram em resolver as pontas soltas. O que o surpreendeu foi o grau em que Genz conseguiu orientar toda a investigação: como desde o início guiou ele e Thulin para o pequeno sr. Castanha com a impressão digital, para que Rosa Hartung fosse trazida à investigação; como fez com que seguissem o pacote contendo o celular e a mão de Laura Kjær até Erik Sejer-Lassen, enquanto ele mesmo atacava a esposa de Sejer-Lassen na casa deles em Klampenborg; como invadiu o banco de dados da ala pediátrica do Rigshospital e encontrou motivos para analisar os lhos de Laura Kjær , Anne Sejer-Lassen e Jessie Kvium — acontece que Olivia Kvium também tinha sido hospitalizada lá, depois de um acidente em casa —, antes de enviar as mensagens anônimas para o Conselho Tutelar , para que a polícia e outras autoridades se deparassem com a incompetência do sistema. E também como ele estava ciente da armadilha para o assassino em Urbanplan e como deve ter se sentido pressionado com a visita de Thulin e Hess a Linus Bekker , motivo pelo qual plantou os membros amputados na propriedade de Skans e Neergaard quando foi examinar a cena como técnico forense. Por m, como Genz seguiu o jovem casal pela oresta usando o rastreador da van alugada, e como deve ter assassinado os dois suspeitos antes de ligar para Nylander e dizer onde seriam encontrados. Todas aquelas descobertas foram desagradáveis e provavelmente ainda havia outras guardadas. Principalmente porque não tinham terminado as investigações do papel de Genz no desaparecimento de Kristine Hartung, no ano anterior .
Em relação à história pessoal de Genz, as informações que Hess descobriu no banco de dados foram examinadas e expandidas. Os gêmeos órfãos foram separados depois da estadia na fazenda de Ørum, e, quando o programa de acolhimento familiar cou sem opção de famílias para Toke Bering, então com dezessete anos, eles o mandaram para um colégio interno na parte oeste de Zelândia. Evidentemente o destino sorriu para ele. Um empresário idoso e sem
lhos que tinha criado um fundo para bene ciar crianças carentes
acabou adotando o garoto. O homem, cujo sobrenome era Genz, lhe deu a chance de um novo começo em uma escola de elite em Sorø, agora com o nome de Simon Genz. O garoto se sobressaiu com uma velocidade impressionante. No entanto, o experimento social só foi um sucesso na superfície: aos vinte e um anos, enquanto estudava economia e tecnologia da informação na faculdade em Aarhus, Genz aparentemente entrou em contato com uma assistente de laboratório do caso Risskov . Ao examinar com mais atenção os arquivos do caso da Polícia de Aarhus, descobriu-se que “Simon Genz, um aluno que morava no dormitório em frente ao da vítima, foi interrogado por ter possivelmente visto o ex-namorado da vítima no dia do assassinato”. Em outras palavras, Genz morava no prédio em frente e ofereceu sua ajuda para resolver um crime que quase certamente ele mesmo tinha cometido.
Quando seu benfeitor morreu de ataque cardíaco, um pouco depois, Genz herdou um valor considerável e usou a liberdade recém-descoberta para se mudar para a capital e pedir transferência para a Academia de Polícia, com o modesto objetivo de ser um técnico forense. Seu talento e dedicação à matéria foram logo notados, mas evidentemente uma das primeiras coisas que aprendeu foi como invadir o banco nacional de identidades e mudar seus dados para que não tivesse mais nenhuma ligação com Toke Bering. Sua ascensão na carreira era impressionante e apavorante, considerando que outros dois assassinatos não resolvidos entre 2007 e 2011 tinham sido reabertos porque bonecos sr . Castanha foram vistos nas fotogra as da cena do crime.
A partir de 2014, já um especialista renomado, ele trabalhou para a Polícia Federal da Alemanha, assim como para a Scotland Yard, mas deixou essas posições quando recebeu um convite para trabalhar como chefe do Departamento de Copenhague, mais ou menos dois anos antes. O verdadeiro motivo pelo qual ele se candidatou foi explorar o emprego nos seus planos para Rosa Hartung, que tinha acabado de car nacionalmente famosa ao se tornar ministra do Bem-estar Social. Genz imediatamente comprou a Fazenda do Castanheiro, reformando-a com o dinheiro que sobrou da herança, e, assim que as folhas começaram a cair das árvores no último outono, ele estava pronto para colocar a primeira parte do seu plano de vingança em ação. Como chefe do Departamento Forense, foi fácil para ele controlar as várias evidências da investigação: primeiro, a evidência que marcava erroneamente o local do sequestro de Kristine, mas também a que serviu para condenar Linus Bekker . Ao examinar o computador de Genz no laboratório, naquele m de semana, Thulin descobriu que ele sabia sobre Linus Bekker e seu acesso aos arquivos de cenas de crime bem antes de a polícia descobrir . Não que ele tenha mencionado isso para alguém. Genz deve ter percebido que tinha encontrado em Bekker o bode expiatório perfeito , e deve ter sido muito fácil plantar o facão sujo de sangue na garagem do prédio dele antes de fazer uma denúncia anônima para a polícia. O fato de Bekker ter decidido confessar posteriormente deve ter sido um bônus divertido para Genz, mesmo que desnecessário — a nal de contas, já existiam muitas evidências.
Para Hess, o principal problema é que em nenhum lugar no reduzido número de posses de Genz há qualquer pista sobre o que realmente aconteceu com Kristine Hartung. Tudo parece ter sido apagado, incinerado , exatamente como a Fazenda do Castanheiro. No início, ele depositou suas esperanças nos dois celulares encontrados no carro destruído, mas ambos eram novinhos em folha, usados apenas no dia que foram descobertos. O histórico do GPS do carro , por outro lado, revelou diversas visitas a uma área especí ca na região sudeste de Rostock, no norte da Alemanha. Aquilo não pareceu relevante no início , considerando o trabalho anterior de Genz com a Polícia Federal alemã, mas na tarde anterior , quando Hess entrou em contato com os terminais onde as balsas dinamarquesas de Falster e Lolland aportavam, começou a parecer interessante seguir a pista de Rostock. Um carro alugado verde-escuro ainda estava esperando para ser pego no terminal de balsas da cidade e estava lá desde sexta-feira — o dia que Genz morreu empalado em um castanheiro. Ao entrar em contato, Hess descobriu que o carro foi alugado no nome de uma mulher .
— Der Name der Vermieterin ist Astrid Bering — disse a voz do outro lado da linha.
A investigação ganhou um novo ritmo. Hess logo usou seus contatos na polícia alemã e, depois de alguns rodeios, descobriram que a irmã gêmea de Genz estava registrada como residente na Alemanha, e conseguiram reduzir a área de busca até uma pequena vila, Bugewits, um trajeto de mais ou menos duas horas a partir de Rostock e não muito longe da fronteira polonesa. Hess se lembra de que viu no banco de dados que todos os rastros da gêmea de Genz desapareceram depois que ela recebeu alta de uma instituição psiquiátrica um ano antes, mas, se os dois mantiveram contato nesse período — como o histórico do GPS indica —, a irmã talvez seja a única pessoa que sabe qualquer coisa sobre o destino de Kristine Hartung.
— Thulin, acorde.
Um telefone começou a tocar no banco do carona, e Thulin levanta a cabeça do casaco acolchoado com o qual se cobriu.
— Talvez sejam os alemães. Já que eu estou dirigindo, pedi para ligarem para você se descobrissem alguma coisa, mas pode passar para mim.
— Eu não sou uma inválida e falo alemão muito bem.
Hess ri enquanto Thulin tira o telefone do bolso, ainda mal-humorada por ter acordado cedo. Ela quebrou o braço esquerdo em dois lugares e está usando uma tipoia. Isso combinado com o rosto machucado faz com que pareça um acidente ambulante. Hess não está muito melhor e eles formaram um casal adorável no bufê de café da manhã da balsa, meia hora antes. Quando voltaram para o carro, a detetive perguntou se ele se importava que ela tirasse um cochilo , e Hess não fez objeções.
Estão trabalhando direto desde a tarde de sábado. Ambos receberam alguns dias de seus respectivos chefes para encerrarem o caso e se recuperarem, e Hess acha que Thulin não dormiu muito. Ele ainda está profundamente grato por ela ter chutado Genz, no carro, caso contrário provavelmente teria sido atropelado e morto. Ele encontrou o corpo inconsciente de Thulin na neve um pouco depois da árvore onde Genz foi empalado , e não pôde avaliar se os ferimentos dela eram graves ou não. Ao ouvir o primeiro som das sirenes se aproximando, ele a pegou no colo e a carregou até a rodovia em direção às ambulâncias, e ela foi levada ao hospital mais próximo na primeira que parou.
— Sim... gut... Entendi... Danke.
Thulin desliga e seus olhos estão brilhando.
— O que eles disseram?
— A força-tarefa está esperando a gente em um estacionamento a cinco quilômetros do endereço. Um dos moradores diz que com certeza tem uma mulher morando na casa, e a descrição combina com alguém da idade de Astrid Bering.
— Mas?
Pela expressão no rosto de Thulin, Hess sabe que ela tem mais informações, mas não consegue avaliar se são boas ou ruins.
— A mulher é discreta e ca muito sozinha, mas aparentemente ela foi vista algumas vezes, passeando com um garoto de uns doze ou treze anos, uma criança que eles achavam até agora que era seu lho...