As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 101 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 101

 

Thulin evita contato visual com os dois detetives que levantam os olhos da tela enquanto ela esvazia o armário e bate a porta de metal um pouco forte demais. Ela evitou deliberadamente chamar a atenção para o fato de que aquele era o seu último dia e não quer mudar isso agora. Não que faça qualquer diferença. Não há ninguém de quem vá sentir falta e é bem provável que ninguém sinta falta dela. Preferiu manter as coisas assim desde o primeiro dia e seria ótimo conseguir

car invisível o máximo possível até sair do prédio. Esbarrou em

Nylander alguns minutos antes, quando ele estava passando pelo corredor com seu séquito de assistentes, seguindo para mais uma das muitas coletivas de imprensa que andava fazendo. A desculpa de hoje era o resultado das análises de DNA. Thulin se pergunta se o motivo não é simplesmente porque Nylander gosta de estar sob os holofotes. É o que parece, quando ele para ao lado do ministro da Justiça no seu terno um tanto chamativo ou quando, em uma tentativa de generosidade, enfatiza a busca dos seus detetives em Sydhavnen como um ponto crucial da investigação.

Nylander parou para lhe desejar boa sorte.

— Tchau, Thulin. Mande um abraço para Wenger .

Ele estava se referindo a Isak Wenger , seu novo chefe no NC3, e ela sente pelo comentário que Nylander agora acha que a balança de poder entre os departamentos mudou, e que Thulin vai se arrepender da sua decisão. Ela mesma quase se esqueceu da mudança de carreira até o chefe do NC3 telefonar pessoalmente parabenizando-a por ter resolvido o caso dos assassinatos.

— Mas não é por isso que estou ligando. Espero que ainda esteja interessada em trabalhar com a gente.

Wenger lhe ofereceu a vaga, embora, no m das contas, ela não tenha nem se candidatado nem entregado a recomendação de Nylander . Se aceitasse, Wenger resolveria toda a parte burocrática com Nylander e ela poderia começar no novo departamento depois do feriado de outono. Essa é a perspectiva diante de Thulin agora: uma semana inteira sozinha com Le. Mas embora muitas coisas tenham terminado como deveriam, Thulin sente-se irritada por ter que car se repetindo que o caso foi encerrado corretamente.

A descoberta da mão decepada de Anne Sejer-Lassen e da mão e do pé de Jessie Kvium no frigobar no antigo abatedouro foi uma prova tão irrefutável que Thulin não teve escolha a não ser aceitar a interpretação de Nylander . Hess apontou algumas coisas que caram sem resposta, mas a possibilidade de que seus traumas pessoais estivessem fazendo com que ele se xasse nelas era alta demais.

Pelo menos esse foi o ponto de vista frio e objetivo de Nylander , e ele con denciou a Thulin que o primeiro afastamento de Hess do departamento e de Copenhague foi motivado por uma tragédia pessoal. Ele não sabia muita coisa sobre o assunto porque tinha sido antes do seu tempo, mas a questão é que em um dia de maio, pouco mais de cinco anos atrás, a esposa de Hess, então com vinte e nove anos, morreu em um incêndio no apartamento deles em Valby .

A informação mexeu com Thulin. No relatório policial, que ela procurou no banco de dados, havia a explicação de que o fogo começou por volta das três da manhã e se espalhou com uma velocidade surpreendente. O prédio foi evacuado, mas a intensidade das chamas impossibilitou que os bombeiros chegassem ao apartamento da cobertura. Quando o fogo foi controlado, o corpo carbonizado de uma mulher foi encontrado na cama e o seu marido, “ um detetive da Divisão de Crimes Hediondos, Mark M. Hess”, que estava em Estocolmo a trabalho, foi informado por telefone. A causa do incêndio era desconhecida. Fiação com defeito, lampião a gás e incêndio criminoso, tudo isso foi investigado, mas não se chegou a uma conclusão. A mulher estava grávida de sete meses, e eles tinham se casado um mês antes.

O relatório fez o estômago de Thulin se revirar . De repente, muito da personalidade de Hess se encaixou. Por outro lado, ainda era impossível compreendê-lo. De qualquer forma, não fazia o menor sentido car pensando nas perguntas que Hess levantou, e talvez tenha sido por isso que ela cou aliviada ao ouvir o comissário adjunto informar a Nylander que Hess fora aceito de volta em Haia e estava a caminho de Bucareste. Ele estava deixando o país e isso certamente era a melhor escolha. Ela tentou falar com ele várias vezes durante a semana, mas Hess não retornou suas ligações e Thulin cou

desconcertada quando Le lhe perguntou quando o “ cara dos olhos coloridos” ia lá para ver como ela tinha avançado no League of Legends. A mesma coisa aconteceu quando ela ligou para perguntar sobre Magnus Kjær , que foi transferido para um orfanato até as autoridades encontrarem uma família adotiva adequada para ele. Um administrador disse que o garoto estava melhorando muito, mas também que tinha perguntado muito sobre “o policial”. Ela não sabia como responder àquilo. Decidiu tirar Hess da cabeça, e ela geralmente tinha a maior facilidade para fazer esse tipo de coisa. Sebastian, por exemplo , ainda deixava várias mensagens na sua secretária eletrônica, mas ela não sentia a menor vontade de falar com ele de novo.

— Naia Thulin?

Virando-se para sua antiga mesa, Thulin encontra um mensageiro olhando para ela e, apesar de ter prometido a si mesma, Hess é a primeira pessoa que lhe vem à mente quando vê o buquê. Flores amarelas, laranja e vermelhas, ores cujos nomes ela nem sabe. Flores nunca tiveram nenhum signi cado para ela. Assina o recebimento com a caneta digital que o entregador lhe oferece, e ele vai embora com seus tênis de ciclista. Thulin abre o cartão, considerando que está com sorte por seus colegas estarem em volta da TV do refeitório assistindo à coletiva de imprensa de Nylander sendo transmitida ao vivo.

“ Obrigado pela corrida. Boa sorte no NC3. Afaste-se daquela mesa J”

Thulin sorri por um instante, mas joga o cartão de Genz na lata de lixo. Quando desce pela escada, em direção à liberdade e à festa de Halloween da escola de Le, deixa o buquê na recepção do departamento administrativo, onde sabe que serão admiradas.

 

Do lado de fora da delegacia, ainda está nevando, e Thulin se irrita por não ter pensado em arranjar um carro antes de começar no NC3. Seus tênis logo cam encharcados enquanto corre pela Bernstor sgade em direção à estação de trem, onde vai pegar o metrô até Dybbølsbro.

A neve ainda não tinha começado a cair quando se encontrou com Genz naquela manhã — tinha decidido marcar seu último dia na Homicídios aceitando , nalmente, o convite dele para uma corrida. Agora que não seriam mais colegas de trabalho , parecia uma maneira legal de concluir o relacionamento. Além disso, ela tinha os próprios interesses. Eles tinham concordado em correr na Strandvejen, então às seis e meia da manhã ela se encontrou com Genz do lado de fora do prédio dele, um dos novos condomínios bonitos em Nordhavn. Ficou surpresa por Genz ter dinheiro para morar em um lugar como aquele. Por outro lado, fazia sentido que ele fosse bom com nanças, já que era tão meticuloso.

A primeira parte da corrida foi uma boa experiência, principalmente ver o sol nascer em Øresund, e eles passaram um tempo conversando sobre a investigação. Como o desejo de Benedikte Skans e Asger Neergaard por vingança tinha crescido a partir da tragédia pessoal que viveram, como a enfermeira deve ter conseguido informações sobre crianças que sofriam abuso e sobre as mães que escolhiam como vítimas, como o casal deve ter usado uma lan house para acessar um servidor de e-mail ucraniano para mandar as denúncias anônimas, em vez de usar o próprio computador , e como foi possível que o conteúdo do frigobar passasse despercebido durante a busca forense preliminar . O porrete e o serrote usados para matar e decepar as vítimas ainda não tinham sido encontrados, mas, como enfermeira, Benedikte Skans tinha acesso a instrumentos do centro cirúrgico do hospital, que estavam sendo examinados e testados.

Genz achava que não tinha motivo para duvidar das conclusões da investigação , embora Thulin suspeitasse que ele estava mais envolvido na corrida do que na conversa. Estava arrependida de ter contado sobre sua paixão por corridas longas, porque logo cou claro que ele estava diminuindo o ritmo para não ultrapassá-la. Depois de oito quilômetros, eles viraram para voltar e Thulin se sentiu como um corredor de m de semana atrás de uma atleta queniano. Só quando ele notou que ela estava vários metros atrás foi que diminuiu o passo e permitiu que a conversa continuasse. Se Thulin achou que o convite tinha sido uma tentativa de Genz de criar oportunidade para ertar

com ela, estava completamente enganada: ele era tão comprometido com a corrida quanto com o trabalho no laboratório.

Thulin mal teve fôlego para falar durante o resto da corrida, mas, quando pararam em um sinal vermelho em Charlottenlund Fort, ela expressou sua frustração por ainda não terem conseguido explicar a presença dos bonecos sr. Castanha com a impressão digital de Kristine Hartung deixados na cena dos crimes. Eles não haviam encontrado nenhum sinal de castanhas nem de bonecos na propriedade do jovem casal, e como Neergaard e Skans tinham conseguido aquilo permanecia um mistério.

— A não ser que Nylander esteja certo e, por algum motivo, o casal os tenha comprado de Kristine Hartung antes de a garota desaparecer — sugeriu Genz.

— Mas qual é a probabilidade disso? Steen Hartung acha que as meninas nem zeram bonecos sr. Castanha naquele ano.

— Talvez ele esteja confundindo as coisas? Skans já estava internada em Roskilde àquela altura, mas Neergaard pode muito bem ter passado pelo bairro e começado a colocar o plano deles em ação naquela época.

— E então Linus Bekker simplesmente passou à frente dele? Não é muita coincidência que tenha sido praticamente no mesmo momento?

Genz encolheu os ombros e sorriu.

— A teoria não é minha. Eu sou só um técnico forense.

Eles provavelmente jamais teriam uma resposta conclusiva, mas havia algo sobre os bonecos que continuava incomodando Thulin. Quase como se houvesse alguma coisa que ela se esquecera de veri car ou considerar . Mas, quando ela e Genz nalmente chegaram à estação Svanemøllen, tinha começado a nevar e ela buscou o abrigo da plataforma, enquanto Genz continuou a corrida, pegando um atalho pelo parque.

— Estou procurando a turma do terceiro ano A.

— Estão na sala deles, é só seguir o barulho.

Sacudindo a neve do casaco, Thulin passa por dois professores na sala de reunião decorada para o Halloween. Chegou à escola, que ca em uma rua lateral não muito longe da estação Dybbølsbro, exatamente na hora marcada e agora promete a si mesma que as coisas vão ser sempre assim. Muitas vezes chegou atrasada, ou nem chegou, em eventos escolares. Vê um lampejo de surpresa passar pelo rosto de alguns pais quando entra na sala. Eles estão parados diante de uma leira de abóboras entalhadas ao longo da parede, enquanto as crianças brincam animadamente com suas fantasias. O Halloween é só no dia seguinte, mas como cai no m de semana a escola decidiu comemorar um dia antes. As meninas estão fantasiadas de bruxas e os meninos, de monstros, muitos dos quais com máscaras bem macabras, uma mais sangrenta do que a outra. Alguns pais exclamam ngindo medo quando as crianças passam correndo por eles. A professora, uma mulher mais ou menos da mesma idade que Thulin, também está fantasiada de bruxa, com um vestido curto , meia-calça arrastão e sapato preto de salto alto , tudo isso nalizado com uma maquiagem branca, batom vermelho e um chapéu pontudo preto. Parece uma personagem de um lme de Tim Burton, e não é muito difícil imaginar por que especialmente os pais estão de muito bom humor nesta tarde de sexta-feira.

Por um instante, Thulin não consegue ver Le nem o avô entre os pais e os pequenos monstrinhos sanguinários, mas então nota uma máscara de zumbi de borracha com o crânio rachado ao meio e miolos amarelados escorrendo pela testa. A máscara é de um jogo chamado Plantas versus Zumbis e foi a única fantasia que a lha quis quando arrastou Thulin até uma loja de quadrinhos na Skindergade no dia anterior . Agora está ao lado do avô, que ajeita o crânio para os miolos não escorrerem pelo pescoço dela.

— Oi, mãe. Dá pra saber que sou eu?

— Não. Cadê você?

Ela olha ao redor e, quando volta o olhar para a lha, Le levanta a máscara para revelar o rostinho suado e triunfante.

— Sou eu que vou levar a abóbora para a festa antes de todo mundo.

— Legal. Estou doida para ver .

— Você vai car e ver tudo?

— Claro.

— Você quer que eu segure um pouco essa máscara para você não morrer de calor? — pergunta Aksel, enxugando a testa de Le.

— Não precisa, vô.

Com a máscara de zumbi pendurada no pescoço, Le atravessa a sala em direção a Ramazan, que está fantasiado de esqueleto.

— Está tudo bem? — Aksel olha para ela, e Thulin sabe que ele está se referindo ao seu último dia na delegacia.

— Tranquilo. Tudo resolvido.

Aksel está prestes a dizer alguma coisa, mas a professora bate palmas para chamar a atenção de todos.

— Certo , vamos começar! Crianças, venham até aqui — pede ela em tom enérgico. Ela se vira para os pais: — Antes de irmos para o salão de festas, vamos terminar o nosso projeto de outono. As crianças prepararam três apresentações para vocês!

A decoração está toda pronta para a festa, assim como os cartazes das árvores de família. Ela só tinha ido uma vez a um evento em que as crianças faziam apresentações — algo sobre um circo, onde um dos teatrinhos mostrava crianças saltando três vezes por um bambolê vestidas de leões. O aplauso histérico dos pais havia feito Thulin se retrair .

Dessa vez, não é muito diferente. O primeiro grupo de crianças apresenta cartazes mostrando galhos e folhas amarelas da oresta,

diante de pais sorridentes e atentos a tudo, usando câmeras e celulares para registrar o momento. Thulin percebe que vai demorar muito antes de parar de associar folhas vermelhas e amarelas com o cenário sombrio de Laura Kjær , Anne Sejer-Lassen e Jessie Kvium. A apresentação do grupo seguinte — a coleção de bonecos de castanha — não melhora o seu humor .

Por m, chega a vez de Le. Ela, Ramazan e algumas outras crianças estão reunidas em volta da mesa da professora, onde anunciam que castanhas também podem servir como alimento.

— Mas primeiro temos que cortar elas! Senão elas explodem no forno! Elas precisam ser assadas a exatamente duzentos e vinte e cinco graus e depois é só passar manteiga e sal e comer!

A voz de Le está clara e animada, e Thulin ca boquiaberta: sua pequena guerreira nunca demonstrou o menor interesse em nada que tivesse a ver com a cozinha. Algumas tigelas de castanhas assadas são passadas para os pais enquanto a professora se vira para Ramazan, que obviamente esqueceu sua fala.

— E Ramazan, do que você deve se lembrar se assar e comer castanhas?

— É preciso escolher o tipo certo. As castanhas que são comestíveis.

— Isso mesmo. Existem vários tipos de castanhas, mas só algumas são comestíveis.

Ramazan concorda com a cabeça, pega uma castanha e mastiga fazendo barulho enquanto seus pais sorriem, demonstrando todo seu orgulho , felizes diante do reconhecimento dos outros pais. A professora começa a contar como as crianças prepararam as castanhas que os pais estão comendo agora, mas Thulin não está mais ouvindo .

— Como assim existem muitos tipos de castanha?

A pergunta é feita tardiamente e está totalmente fora de contexto. A professora se vira para Thulin, surpresa, assim como alguns pais, que pararam de rir.

— Eu achei que só existissem dois tipos de castanhas. As comestíveis e as usadas para fazer bonecos.

— Não, na verdade existem diversos tipos. Mas agora Ramazan vai...

— Você realmente tem certeza disso?

— Absoluta. Mas agora nós vamos...

— Quantos?

— Quantos o quê?

— Quantos tipos de castanha?

A sala ca em silêncio. Os pais olham de Thulin para a professora, e as crianças estão caladas. A última pergunta foi feita em um tom duro de interrogatório , totalmente desprovido da sua delicadeza inicial. A professora hesita, sorrindo de forma incerta; ela não faz ideia do motivo daquele teste repentino.

— Eu não conheço todos. Mas existem diversos tipos de castanhas comestíveis. Por exemplo, as castanhas europeias e japonesas, e há diversos tipos de castanhas-da-índia. Então, por exemplo...

— Que tipo de castanha é usado para fazer bonecos de animais?

— Bem, todos eles. Mas os mais comuns por aqui são os de castanha-da-índia...

Ninguém volta a falar. Os pais estão olhando para Thulin, enquanto ela observa a professora. Pelo canto do olho, ela registra a expressão da lha, que lhe diz que aquele é possivelmente o momento mais constrangedor da sua vida. Mas, segundos depois, Thulin sai pela porta. Passa correndo pelo salão de festas e segue para a saída, enquanto a comemoração do Halloween continua a pleno vapor .