As Sombras de Outubro
Capítulo 128
Está demorando demais, e Rosa sente que isso é um mau sinal. Não dá para ver a casa da estrada principal, onde estão, mas foram informados de que ela ca a menos de quinhentos metros de distância, do outro lado do campo e do bosque de árvores altas e arbustos. O sol brilha, mas o vento está bem frio, mesmo que estejam protegidos atrás de duas grandes vans da polícia alemã.
Quando a polícia os informou de que estavam investigando uma pista na Alemanha, Rosa e Steen insistiram em ir . A irmã do assassino aparentemente vivia em uma casinha perto da fronteira com a Polônia e havia sinais de que ele estava indo se encontrar com ela, antes de morrer no acidente perto da Fazenda do Castanheiro. Havia uma chance de que a irmã fosse sua cúmplice e talvez tivesse alguma informação sobre Kristine. E, já que não havia outras pistas para seguirem, eles zeram questão de se juntar ao comboio. Principalmente agora que o assassino não podia mais contar nada.
Essa foi a primeira pergunta de Rosa quando acordou no hospital, depois das cirurgias. Ela olhou para o rosto manchado de lágrimas de Steen e, ao perceber onde estava — em um hospital de verdade, e não naquele cenário de pesadelo que era o porão branco da fazenda —, perguntou se o homem tinha dito alguma coisa. Steen negou com a cabeça, e ela percebeu que aquilo não importava para ele no momento. Já era um alívio ver que Rosa estava viva, e ela notou o alívio nos olhos de Gustav também. Eles tinham sofrido muito, é claro, com sua tortura e mutilação. A braçadeira colocada no braço esquerdo ajudou a salvar sua vida, evitando que perdesse muito sangue, mas a mão decepada tinha sido devorada pelas chamas. Os médicos disseram que a dor ia diminuir . Em algum momento, receberia uma prótese feita especialmente para ela, e se acostumaria a isso, em vez de car surpresa sempre que esquecia a dor por um momento e via de relance o curativo no coto do braço.
Por mais estranho que pareça, isso não incomoda Rosa. Ela não está arrasada. Em vez disso, considera um pequeno sacrifício. Ela teria dado tudo. A mão direita também, que foi suturada de volta, os dois pés e até a própria vida, se pudesse voltar no tempo para salvar Kristine. A culpa a dominou na cama do hospital e, chorando muito, ela se repreendeu pelo pecado que cometera tantos anos antes, quando não passava de uma garotinha. A culpa era dela, e, embora tenha passado a maior parte da vida adulta tentando recompensar , não tinha adiantado de nada. Em vez disso, Kristine teve que sofrer as consequências, quando seu único pecado era ser sua lha. Saber disso era agoniante. Steen tentou fazê-la ver que ela não devia se torturar mais, que Kristine tinha morrido , assim como o homem que a sequestrou, e não havia um instante em que Rosa não desejasse que o homem a tivesse levado no lugar da lha.
Em meio à tristeza e à culpa, receberam a notícia de uma pista, na noite anterior , e conseguiram um lugar no comboio que partiu para a Alemanha antes de o sol nascer. Chegaram algumas horas depois a um estacionamento onde as vans alemãs estavam esperando , e Steen tentou obter algumas informações da conversa entre os policiais dinamarqueses e alemães sobre a mulher que vivia naquele endereço e que fora vista passeando com uma criança, possivelmente da idade de Kristine. Os policiais dinamarqueses não con rmaram nada, e Rosa e Steen caram no carro com dois policiais alemães quando a operação começou.
Rosa percebe de repente que não se atreve a acreditar que Kristine esteja viva. Novamente ela alimentou uma esperança, um sonho, uma ilusão que pode ruir a qualquer momento. Naquela madrugada, quando acordou para se vestir para a viagem, ela se viu escolhendo roupas que sabia que Kristine reconheceria. Calça jeans escura, o pulôver verde, o antigo casaco de outono e a bota de cano curto envolta com pele que Kristine sempre chamou de “botas de ursinho de pelúcia ”. Ela tinha se justi cado dizendo que precisava vestir alguma coisa, mas escolheu aquelas roupas por um único motivo: porque começou a ter esperança de que aquele seja o dia em que verá a lha de novo, o dia em que ela correrá para Kristine e a abraçará forte e a encherá de amor.
— Steen, eu quero ir para casa. Acho que a gente deve voltar agora.
— O quê?
— Abra a porta do carro. Ela não está lá.
— Eles ainda não voltaram...
— A gente não devia car longe por tanto tempo. Eu quero voltar para Gustav .
— Rosa, nós não vamos a lugar nenhum.
— Abra a porta! Está ouvindo? Abra a porta agora!
Ela tenta abrir a porta, mas Steen não pega a chave e não a deixa entrar . Ele vê algo atrás dela, e Rosa se vira para olhar na mesma direção.
Duas pessoas se aproximam pelo bosque. Estão atravessando a plantação, seguindo para a estrada e para as vans da polícia, levantando os pés bem alto porque a lama está grudenta. Uma é a policial, a que se chama Thulin. A outra, segurando a mão dela, parece ser um garoto de uns doze ou treze anos. O cabelo está bem curto e despenteado. As roupas estão largas, como se ele fosse um espantalho , e ele está concentrado no chão porque é difícil andar pela lama. Mas quando o garoto levanta o olhar e procura no meio dos carros, onde Rosa está ao lado de Steen, ela sabe. Sente um aperto no estômago, e, quando olha para o marido para conferir se ele está vendo o mesmo que ela, o rosto de Steen já está se contraindo e as lágrimas escorrendo. Rosa começa a correr . Ela corre para longe dos carros e entra no bosque. Quando Kristine solta a mão da policial e começa a correr também, Rosa sabe que é verdade.