As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 2 de 130

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As Sombras de Outubro

Segunda-Feira, 5 de Outubro

2

 

Na escuridão , a voz está em todos os lugares, sussurrando baixinho e debochando dela — é a voz que a segura quando ela cai e gira ao seu redor como o vento. Laura Kjær não consegue enxergar mais nada. Não consegue ouvir o farfalhar das folhas nas árvores nem sentir a grama fria sob os pés. Tudo que resta é a voz, que continua sussurrando entre os golpes de porrete. Se parar de resistir , pensa, a voz talvez que quieta, mas não é o que acontece. Ela continua, assim como os golpes, até que por m Laura não consegue mais se mexer. Tarde demais, ela sente os dentes a ados do serrote contra seu pulso e, antes de perder a consciência, ouve o som mecânico da ferramenta e seu osso sendo partido.

 

Mais tarde, ela não sabe por quanto tempo cou inconsciente. Ainda está escuro. E a voz ainda está ali, como se estivesse esperando que Laura volte a si.

— Você está bem, Laura?

O tom é carinhoso e muito próximo ao seu ouvido. Mas a voz não espera uma resposta. Por um momento, ela remove a coisa en ada em sua boca, e Laura ouve os próprios pedidos e súplicas. Não entende o que está acontecendo. Está disposta a fazer qualquer coisa. Por que ela — o que tinha feito? A voz responde que ela sabe muito bem o motivo. Então se aproxima e sussurra em seu ouvido, e Laura percebe que a voz esperou muito tempo por aquele exato momento. Precisa se concentrar para ouvir as palavras. Ela entende o que a voz está dizendo, mas não consegue acreditar . A dor das palavras é maior que a dos outros ferimentos. Não pode ser . Não pode ser . Ela ignora as palavras como parte da loucura que permeia aquela escuridão. Quer se levantar e continuar lutando , mas seu corpo desiste, e ela começa a chorar histericamente. Já sabia há um tempo, embora, de alguma forma, não soubesse — e só agora, enquanto a voz sussurra no seu ouvido, entende que é verdade. Ela quer gritar o mais alto possível, mas a bile já está subindo pela garganta, e quando sente a pancada do porrete no rosto ela despenca para a frente e mergulha ainda mais profundamente na escuridão.