As Sombras de Outubro
Capítulo 9
Tem alguma coisa na casa de que Thulin não gosta. A sensação começou no instante em que pisou no hall de entrada, já com as luvas e a proteção azul de plástico nos pés. Ela vê os sapatos da família bem arrumados embaixo do cabideiro. Quadros de ores, com molduras delicadas, decoram as paredes do corredor , e, quando entra no quarto, o aposento lhe parece imediatamente feminino e inocente, tudo em tons de branco, a não ser pelas persianas cor-de-rosa, que ainda estão fechadas.
— O nome da vítima é Laura Kjær , trinta e sete anos, enfermeira de um consultório dentário no centro de Copenhague. Parece que foi surpreendida ao ir para a cama. Seu lho de nove anos estava dormindo no quarto no m do corredor , mas aparentemente não viu nem ouviu nada.
Thulin está olhando para a cama de casal, que só foi usada de um lado, enquanto recebe o relatório de um policial mais velho. Um abajur tinha caído da mesa de cabeceira e estava sobre o tapete branco felpudo.
— O garoto acordou e a casa estava vazia, não tinha ninguém. Ele preparou o próprio café da manhã, se vestiu e esperou pela mãe, mas quando ela não apareceu ele foi até a casa da vizinha, que veio aqui e não achou ninguém. Então ouviu o cachorro latindo nos fundos, onde acabou encontrando a vítima e ligou para nós.
— O pai já foi informado?
Thulin passa pelo policial, olhando rapidamente para o quarto da criança antes de voltar pelo corredor , o policial a seguindo de perto.
— De acordo com a vizinha, o pai morreu de câncer alguns anos atrás. A vítima conheceu outra pessoa seis meses depois, e eles decidiram morar juntos. O cara está em uma feira de negócios em algum lugar em Zelândia. Ligamos para ele assim que chegamos, então ele logo deve estar aqui.
Pela porta aberta do banheiro, Thulin vê três escovas de dente elétricas, um par de chinelos no piso de ladrilhos, dois roupões em ganchos. Ela deixa o corredor e entra na cozinha aberta, onde a equipe forense, com seus macacões brancos, está ocupada em busca de evidências e impressões digitais. Os móveis são tão comuns quanto o bairro. Estilo escandinavo, muito provavelmente da Ikea e Ilva, três jogos americanos vazios sobre a mesa, um pequeno buquê de raminhos outonais enfeita um vaso, almofadas no sofá e, na ilha da cozinha, uma única tigela funda com restos de cereal e leite, que ela supõe ter sido o café da manhã do menino. Na sala, há um porta-retratos digital mostrando um uxo constante de imagens da pequena família para uma poltrona vazia ao lado. Mãe, lho e o suposto namorado sorrindo felizes. Laura Kjær é uma mulher bonita e esguia, com cabelo ruivo comprido, mas existe um ar de vulnerabilidade no seu olhar caloroso e compreensivo. É uma casa boa, mas mesmo assim tem alguma coisa ali de que Thulin não gosta.
— Sinais de arrombamento?
— Não. Veri camos todas as janelas e portas. Parece que ela estava assistindo à TV e tomou uma xícara de chá antes de ir para a cama.
Thulin dá uma olhada no quadro de recados na cozinha, mas tudo que vê são grades escolares, calendários, o horário de funcionamento da piscina pública, um folheto de um arborista, um convite para a festa de Halloween da associação de moradores e uma carta para lembrá-la do checkup no departamento pediátrico do Rigshospital. Normalmente é nesse ponto que Thulin se sobressai: notar coisas mínimas que se provam signi cativas. Houve um tempo em que isso era sua rotina. Voltar para casa, destrancar a porta e ler os sinais que indicavam se o dia seria bom ou ruim. Mas, nesse caso, não há nada para notar além da vida comum de uma família e sua rotina normal. O tipo de coisa que ela nunca terá e, por um momento, tenta dizer a si mesma que talvez seja disso que não gosta na casa.
— E os computadores, tablets e celulares?
— Até onde vimos, nada foi roubado, e o pessoal de Genz já empacotou e enviou todos os eletrônicos.
Thulin assente. A maioria dos ataques e assassinatos pode ser resolvida por esse caminho. Via de regra, sempre existem mensagens, ligações, e-mails ou conversas de Facebook para indicar o porquê de as coisas terem terminado daquele jeito, e ela ca sempre ansiosa para colocar as mãos nesse material.
— Que cheiro é esse aqui? Vômito?
Thulin de repente percebe o fedor pungente e desagradável seguindo-a pela casa. O policial mais velho ca corado e Thulin nota sua palidez.
— Sinto muito. Eu tinha acabado de voltar da cena. Achei que eu já estivesse acostumado... mas vou levar você até lá.
— Pode deixar que eu me viro. Só me avise quando o namorado aparecer .
Ela abre a porta da varanda para o jardim dos fundos enquanto o policial agradece com um gesto de cabeça.