As Sombras de Outubro
Capítulo 114
Quando ela nalmente vira na estrada que adentra a oresta e acelera, o dia já quase acabou. Está nevando outra vez e a neve já quase cobriu as marcas de pneu; Rosa mal consegue enxergá-las com os faróis. No início, errou o caminho e precisou parar em uma casa para pedir informações. Nunca esteve em Møn, e, mesmo que conhecesse o local, não teria feito a menor diferença. Ela segue as orientações que a mulher da casa lhe deu e, voltando por onde veio, percebe que passou direto pelo enorme castanheiro onde há uma entrada para a oresta. A estrada serpenteia em volta de árvores antigas e abetos altos, uma curva fechada depois da outra, mas, como ainda consegue seguir a marca dos pneus, ela mantém a velocidade e continua. Quando as marcas vão cando cada vez mais fracas por causa da neve, ela começa a entrar em pânico. Não há nenhuma fazenda ali. Nada nem ninguém à vista, só a estrada e a oresta, e se ela errou o caminho de novo, talvez já seja tarde demais.
Quando Rosa começa a duvidar de si mesma, a oresta se abre para uma fazenda cercada por árvores enormes. Não é como ela imaginou. A descrição no relatório que leu no ministério a levou a crer que se tratava de um lugar caindo aos pedaços, malcuidado e feio , mas não é nada disso. É idílico. Rosa para o carro, desliga o motor e se esquece completamente de trancar a porta quando sai apressadamente na neve e olha em volta, sua respiração formando nuvens de vapor diante do rosto.
A fazenda tem duas alas — de dois andares, com telhados de sapê — e, à primeira vista, parece uma casa de campo reformada. Mas a fachada branca é iluminada por modernos holofotes externos que clareiam todo o pátio e, nas vigas abaixo do telhado, há pequenos círculos de vidro que Rosa reconhece como câmeras de segurança. Pelas janelas gradeadas, vê algo brilhando na sala, e quando lê “ Fazenda do Castanheiro” em letras pretas acima da porta tem certeza de que está no lugar certo. Rosa não consegue mais esperar . Grita com todas as forças e, quando respira fundo e solta o ar, o nome ecoa pelo pátio e sobe até as árvores:
— Kristine!
Um bando de corvos alça voo por trás das árvores nos fundos da fazenda. Suas asas cortam a neve e, só quando o último deles desaparece de vista, ela nota uma pessoa na porta do celeiro.
Ele é alto, mais de um metro e oitenta e cinco. Protegido por um casaco impermeável, segura um balde azul-escuro de lenha em uma das mãos e um machado na outra. O rosto é tranquilo e jovial e, a princípio , ela não o reconhece.
— Você encontrou... Bem-vinda.
Há uma nota de reconhecimento em sua voz, um tom quase amigável, e, depois de observá-la por um momento, ele segue até a porta da frente, esmagando a neve sob os pés.
— Onde ela está?!
— Queria começar me desculpando porque a fazenda está bem diferente de como era na época. Quando eu a comprei, planejei recriar o lugar , para que você pudesse ver como realmente era... Mas essa ideia era deprimente demais.
— Onde ela está?!
— Ela não está aqui. Você pode procurar .
O coração de Rosa está martelando no peito. Tudo aquilo é surreal demais, e ela ca ofegante. O homem para na porta da frente e a abre de forma amigável, enquanto limpa a neve dos sapatos.
— Venha, Rosa. Vamos acabar logo com isso.