As Sombras de Outubro
Capítulo 36
Fica claro para Steen que o cliente não sabe nada sobre desenho. Já passou por isso muitas vezes antes, mas dessa vez é extremamente irritante, porque o cliente está tornando sua ignorância em uma virtude e insistindo que aquilo signi ca que suas ideias são “originais”, “laterais” e “fora da caixa”.
Ele e seu sócio Bjarke estão aguardando na grande sala de reuniões, esperando até que o cliente nalmente pare de olhar para mais um desenho e digne-se a lhes dar uma opinião. Steen olha o relógio. A reunião está se arrastando há um tempão. Ele deveria ter pegado o carro há cinco minutos e estar a caminho da escola. Mas o cliente tem vinte e três anos, é um multimilionário da área tecnológica, vestido como um garoto de quinze, com jeans rasgado, um moletom com capuz e tênis brancos. E Steen sabe instintivamente que o cara só consegue escrever funcionalismo com a ajuda do autocorretor do iPhone novinho em folha que colocou em cima da mesa e no qual não consegue parar de mexer .
— Cara, não tem muitos detalhes aqui.
— Não. Da última vez você disse que tinha detalhes demais.
Steen sente Bjarke se retesar diante da resposta e se apressar a suavizar o comentário.
— Nós sempre podemos acrescentar mais detalhes. Sem problemas.
— De qualquer forma, só precisa de mais pá, mais bum.
Steen, que estava justamente esperando por esse comentário, pega uma pilha de desenhos antigos.
— Esses são os últimos desenhos. Eles tinham o pá e o bum, mas você disse que era demais.
— Exatamente. Ou talvez de menos?
Steen encara o rapaz, que retorna o olhar com um grande sorriso.
— Talvez o problema seja que tudo está no meio-termo. Vocês me mostram um desenho depois do outro. Vocês conhecem o seu trabalho , mas eles têm nuances demais, e preciso que seja bem mais solto. Entendeu?
— Não , não entendi. Mas talvez possamos colocar bichinhos de plástico vermelhos no hall e transformar a entrada em um navio pirata, se você preferir.
Bjarke dá uma risada, alta demais, em uma tentativa de aliviar a situação, mas o jovem Sun King não aceita bem.
— Talvez seja uma boa ideia mesmo. Ou talvez eu possa procurar outro arquiteto, se vocês não tiverem nada melhor para oferecer antes de o prazo terminar , esta noite.
No carro, a caminho da escola, alguns minutos depois, Steen liga para o advogado e diz que ainda não recebeu o certi cado de presunção de morte. A secretária parece surpresa e pede desculpas, e Steen a corta rápido demais — mas ela entende a mensagem e promete acelerar as coisas.
Quando estaciona do lado de fora da escola, já bebeu mais três garra nhas, mas dessa vez ele se lembra do chiclete e dirige com as janelas abertas por vários quilômetros. Ao ver que Gustav não está esperando sob as árvores como sempre, liga para o celular do lho. De repente, não sabe mais se chegou adiantado ou atrasado. O pátio da escola está vazio. Steen olha no relógio. Ele raramente entra na escola; na verdade, não consegue se lembrar da última vez que fez isso. É como se ele e o lho soubessem que é melhor que espere do lado de fora. Mas agora o lho não está ali, e em meia hora Steen precisa estar de volta ao escritório para revisar os desenhos de Sun King. Nervoso demais para se conter , ele abre a porta do carro.