As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 39 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 39

 

A casa é uma das maiores em Klampenborg, e desde que Anne Sejer-Lassen, o marido e as duas lhas se mudaram, alguns meses antes, se tornou um hábito para ela terminar sua corrida no imponente portão eletrônico de metal e então caminhar o resto do caminho de cascalho até a porta da frente, recuperando o fôlego, deixando o ritmo do coração voltar ao normal. Mas não hoje. Depois que tomou coragem e ligou para Erik, correu para chegar em casa e continuou correndo sobre o cascalho, passando pelos arbustos recém-aparados, a fonte de alabastro e o Land Rover . Não se importa em fechar o portão, porque sabe que em um minuto vai passar por ele pela última vez na vida. Já ligou para a au pair e disse que ela mesma buscará Lina e So a na creche. Quando chega à porta, o cachorro pula e late, brincando com ela como sempre, mas Anne o acaricia distraidamente, pega a chave embaixo do vaso de pedra e destranca a porta.

A casa está escura e ela acende a luz antes de desarmar o sistema de segurança, ainda sem fôlego. Tira os tênis e sobe as escadas de forma decidida, com o cachorro a seguindo de perto. Sabe exatamente do que precisa, porque na sua cabeça já fez as malas muitas vezes. No quarto das crianças, no segundo andar , pega duas pilhas que já deixou prontas no fundo do armário, e no banheiro ela se lembra de pegar as escovas de dentes e os itens de higiene pessoal. Quando seu celular toca, ela vê o nome do marido brilhar na tela, mas não atende. Se for rápida, poderá ligar para ele depois dizendo que estava dirigindo e por isso não pôde atender . Além disso, ele provavelmente não vai descobrir o que está acontecendo até a manhã seguinte, quando perceber que ela não foi para a casa da mãe. Ela se apressa ainda mais, en ando as roupas das meninas na bolsa preta de viagem no quarto principal, que já está cheia com roupas dela e três passaportes roxos. Então fecha a bolsa e desce correndo a escada, afastando-se ao máximo da sala principal com suas janelas que vão do chão ao teto e têm vista para a oresta, antes de se lembrar, de repente, de que esqueceu uma coisa. Anne larga a bolsa no chão e deixa o celular em cima dela, então sobe correndo para o segundo andar . O quarto das crianças está escuro . Começa a procurar apressadamente embaixo das cobertas na cama, mas só quando olha para o peitoril da janela é que vê os dois indispensáveis ursinhos panda de pelúcia. Feliz por tê-los encontrado , ela desce às pressas a escada, lembrando-se de que tudo que precisa é pegar sua carteira e a chave do carro. As duas coisas estão na cozinha, esperando por ela na grande mesa rústica de madeira chinesa. Então, quando chega à sala, ela ca tensa.

No piso onde um pouco antes tinha colocado a bolsa de viagem, não há nada. Nem a bolsa, nem o celular. Só a luz azulada do re etor do jardim que brilha através das portas da varanda, iluminando o chão encerado de tábua corrida — e um bonequinho feito de castanhas. Por um instante, ela ca confusa. Talvez uma das meninas tenha feito o sr. Castanha junto com a au pair, e talvez Anne tenha largado a bolsa de viagem em outro lugar; mas uma fração de segundo depois, sabe que não é esse o caso.

— Olá...? Erik, é você?

A casa está em silêncio. Ninguém responde e, quando ela se volta para o cachorro, que começou a rosnar , os olhos dele estão xos em algo atrás dela, na escuridão.