As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 10 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 10

 

O pula-pula já tinha visto dias melhores, assim como a estufa coberta de mato à esquerda da porta da varanda. À direita, a grama úmida se estende até a parede dos fundos de uma garagem de metal reluzente que, embora extremamente prática, não combina em nada com a casa branca e moderna. Thulin segue até o m do jardim.

Do outro lado da cerca, vê re etores, policiais uniformizados e técnicos forenses vestidos de branco. Ela atravessa as árvores e os arbustos de folhas vermelhas e amarelas até chegar a um parquinho. Uma luz de ash brilha repetidamente na chuva, perto de uma casa de bonecas, e ela vê, de longe, Genz fotografando incansavelmente os detalhes da cena do crime enquanto orienta a equipe.

— Alguma coisa?

Simon Genz ergue o olhar da câmera com o rosto sério, mas quando a vê a expressão se suaviza com um leve sorriso. Genz deve ter uns trinta e poucos anos, e é um cara ativo: diziam que ele já tinha participado de cinco maratonas só naquele ano. Também era o chefe mais jovem que o Departamento Forense já teve. Thulin o considera uma das poucas pessoas que vale a pena escutar . Ele é inteligente, um nerd, e ela simplesmente con a no julgamento dele. Se mantém certa distância é só porque ele já a convidou para uma corrida um dia desses, e ela não aceitou. Durante os nove meses em que Thulin está na Homicídios, Genz foi a única pessoa com quem desenvolveu algum tipo de relacionamento, mas considera um romance com um colega de trabalho a coisa menos sexy do mundo.

— Oi, Thulin. Não muita. A chuva di culta as coisas e já faz algumas horas desde que aconteceu.

— Já disseram alguma coisa sobre a hora da morte?

— Ainda não. O legista está logo ali. Mas a chuva começou por volta da meia-noite, e meu palpite é que foi mais ou menos quando aconteceu. Se havia algum rasto óbvio na terra, já foi apagado pela água, mas não vamos desistir. Você quer ver o corpo?

— Sim, por favor .

A gura sem vida na grama foi coberta por um lençol branco do Departamento Forense. Estava encostada em uma das colunas que sustentavam o telhado da varanda da casa de bonecas, e a cena parecia quase pací ca: ao fundo, trepadeiras em tons de vermelho e amarelo explodiam em cores nos densos arbustos. Com cuidado, Genz levanta o lençol para revelar a mulher . Está jogada como uma boneca de retalhos, nua a não ser pela calcinha e uma camisa que já foi bege, mas agora está encharcada de chuva e manchas escuras de sangue. Thulin se aproxima mais, se abaixando para ver melhor . Uma ta

adesiva preta dá a volta completa na cabeça de Laura Kjær , passando pela boca rígida e aberta e dando várias voltas em torno da cabeça e no cabelo ruivo. Um dos olhos foi escavado, então dá para ver a órbita profunda e escura, enquanto o outro ta cegamente o espaço . A pele nua e azulada está marcada com incontáveis arranhões, cortes e contusões, e os pés descalços estão esfolados. As mãos estão enterradas em um montinho de ores no seu colo, amarradas

rmemente pelos pulsos com tiras grossas de plástico. Basta uma

olhada para o corpo para que Thulin entenda por que o policial mais velho fraquejou. De forma geral, ela não tem problemas em examinar corpos. Trabalhar na Homicídios exige uma abordagem não sentimental para a morte, e qualquer pessoa que não consegue examinar um corpo deve trabalhar em outro lugar . Mas Thulin nunca viu ninguém tão brutalizado quanto aquela mulher apoiada na coluna da casa de bonecas.

— O legista vai dar mais detalhes, é claro, mas na minha opinião alguns desses ferimentos indicam que ela tentou fugir pela oresta em algum momento. Tentando voltar para casa ou fugindo de lá. Mas devia estar muito escuro e ela devia estar fraca demais por causa da amputação, que eu tenho certeza que foi feita antes de ela ser colocada nesta posição.

— Amputação?

— Segura isso aqui.

Genz lhe entrega distraidamente a pesada câmera com ash. Ele se aproxima do corpo, se agacha e usa a lanterna para erguer com cuidado os pulsos amarrados da mulher . O rigor mortis já se estabeleceu e os braços rígidos acompanham o movimento: Thulin percebe que Laura Kjær está sem a mão direita, que até então tinha imaginado estar apenas enterrada sob as folhas. O braço dela acaba de forma grotesca um pouco acima do pulso, onde um corte oblíquo e serrilhado expõe o osso e os tendões.

— Por ora, estamos supondo que isso aconteceu aqui fora, já que não encontramos nenhuma gota de sangue nem na garagem nem na casa. Pedi para o meu pessoal examinar a garagem com cuidado, é claro, em busca principalmente de ta adesiva, ferramentas de jardinagem e cabos, mas até agora não encontramos nada óbvio. Nem preciso dizer que também queremos saber por que ainda não encontramos a mão, mas estamos procurando.

— Será que um cachorro não pegou?

Era a voz de Hess; ele vem do jardim, passando pela cerca viva. Ele olha à volta por um instante, seus ombros estremecem sob a chuva e Genz o encara, surpreso. Por algum motivo, o comentário irrita Thulin, embora ela saiba que ele pode ter razão.

— Genz, este é Hess. Ele vai trabalhar com a gente por alguns dias.

— Bom dia. Bem-vindo. — Genz se aproxima para trocar um aperto de mãos com Hess, que apenas faz um gesto em direção à casa ao lado.

— Alguém ouviu alguma coisa? Os vizinhos?

Segue-se um ruído alto enquanto um trem passa abruptamente pelos trilhos molhados atrás do parquinho, então Genz é obrigado a gritar a resposta.

— Não, até onde sabemos ninguém ouviu nada! Os trens da linha S não passam com frequência durante a noite, mas, por outro lado, tem alguns cargueiros que passam por essa linha!

O som do trem morre, e Genz olha novamente para Thulin.

— Eu queria ter uma tonelada de evidências para você, mas neste momento não tenho nada a dizer . Só que eu nunca vi ninguém ser espancado dessa forma.

— O que é aquilo?

— Aquilo o quê?

— Ali.

Thulin continua agachada ao lado do corpo, mas agora está apontando para algo que Genz precisa se virar para ver . Atrás da mulher morta, na viga acima da varanda da casa de boneca, há algo pendurado em um o. Genz estende a mão sob a viga e libera o objeto que agora balança livremente, para a frente e para trás. Duas castanhas em um tom escuro de marrom, uma em cima da outra, a de cima menor do que a de baixo. Dois buracos foram entalhados na castanha menor para representar olhos, e varetas de madeira ncadas na castanha maior representam braços e pernas. É um boneco simples, consistindo em duas esferas e quatro varetas, mas, por um breve instante, por algum motivo que ela não entende, ele faz o coração de Thulin quase parar .

— Um sr. Castanha. Será que devemos levá-lo para interrogatório?

Hess está olhando para ela com ar de inocência. Fica evidente que o clássico senso de humor policial também existe na Europol, e Thulin não responde. Ela e Genz só têm tempo para trocar um olhar antes de Genz ser interrompido por uma pergunta de alguém da equipe. Hess en a a mão no bolso e pega o celular que está tocando de novo e, naquele momento, Thulin ouve um assovio vindo da casa. É o policial de antes, parado no jardim e fazendo sinal para a detetive. Ela se levanta e passa o olhar pelo parquinho cercado de folhas cor de bronze, mas não há nada mais para ver . Apenas balanços vazios, um trepa-trepa e um circuito de parkour, desolado e triste apesar de o exército de policiais e peritos andando por lá, debaixo de chuva, examinando a área. Thulin se vira para a casa. Quando passa por Hess, ele está falando em francês de novo, enquanto outro trem passa ribombando pelos trilhos.