As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 55 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 55

 

O quarto de Magnus Kjær é simples em comparação ao luxo do quarto das lhas de Sejer-Lassen, mas mesmo ao brilho fraco da lanterna Hess percebe que é aconchegante. Há um tapete grosso, cortinas verdes, um lustre de papel pendendo do teto. Pôsteres do Pato Donald e do Mickey enfeitam as paredes, e há um monte de bonecos de plástico nas prateleiras, criaturas de contos de fadas em que o bem luta contra o mal. Sobre a mesa há um porta-lápis com canetinhas e lápis coloridos e a estante ao lado deixa bem claro que Magnus Kjær se interessa por xadrez. Hess pega alguns livros e os folheia sem saber muito bem o motivo. Ali parece um lugar seguro, talvez o melhor de toda a casa.

Seus olhos pousam na cama, e um velho hábito o faz se ajoelhar e iluminar embaixo dela, embora saiba que os colegas já olharam ali. Tem alguma coisa presa entre a cama e a parede, mas quando tenta puxá-la vê que é só um livro sobre o jogo League of Legends. Sente um peso na consciência. Não cumpriu a promessa de voltar ao hospital.

Hess coloca o livro no lugar e começa a se arrepender por não ter aproveitado a carona de Thulin para a cidade. Por um tempo, a informação sobre a denúncia anônima pareceu lançar uma nova luz ao caso, mas agora está se sentindo um completo idiota, porque terá que voltar na chuva para o centro da cidade ou pelo menos até a estação mais próxima ou até encontrar um táxi. De repente ele se sente tão cansado que por uns segundos se pergunta se pode tirar uma soneca na cama do garoto, que parece ser um lugar calmo e confortável, ou se deve seguir direto para a delegacia e contar alguma mentira para Nylander sobre precisar voltar para Haia naquela noite. Ou ele pode simplesmente dizer a verdade, claro. Que não está nem um pouco a m de trabalhar naquele caso. Que Kristine Hartung e as impressões digitais e nada daquilo têm nada a ver com ele. Que provavelmente foi apenas a falta de sono despertando todas as teorias horríveis sobre membros amputados e bonecos do sr . Castanha. Com um pouco de sorte, Hess talvez ainda consiga pegar o voo das oito e quarenta e cinco e ir se ajoelhar diante de Freimann o mais tardar na manhã seguinte — naquele instante essa lhe parece uma ótima ideia.

Hess lança um último olhar pela janela, para o jardim e o parquinho onde Laura Kjær foi encontrada, e é quando vê, meio oculta pela cortina verde, uma pilha de folhas A4 com desenhos infantis que antes estavam presos na parede. O primeiro é o desenho de uma casa, que Magnus deve ter feito alguns anos antes. Os traços são bem simples. Nove ou dez linhas representando uma casa com uma porta e o sol brilhando. Hess vira a folha e há outro desenho de uma casa, dessa vez pintada de branco, e com traços um pouco mais exatos e detalhados. A casa de Cedervænget, percebe. O terceiro desenho tem o mesmo tema: a casa branca, o sol e a garagem. Assim como o quarto e o quinto. Magnus está claramente cando mais velho e desenhando melhor . Por algum motivo, Hess ca impressionado e sorri. Até chegar ao último. O tema é o mesmo. Casa, sol, garagem. Mas, dessa vez, há algo de errado. A garagem está desproporcionalmente enorme, muito maior do que a casa. Ela ultrapassa o telhado da casa e suas paredes são grossas e escuras, com uma simetria incômoda.