As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 16 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 16

 

O grande prédio retangular com sua capela adjunta ca na avenida movimentada entre os distritos de Nørrebro e Østerbro. Ali perto, a cidade está cheia de vida, com muitos carros e pedestres apressados, e vozes felizes podem ser ouvidas nos parquinhos e pistas de skate na Common. No entanto, na construção retangular com suas quatro salas estéreis de autópsia e o arquivo frio no porão, é impossível não pensar na morte e na efemeridade de tudo. Há um senso de irrealidade ali. Thulin já foi várias vezes ao Departamento de Medicina Forense, mas nunca se acostuma e ca ansiosa para passar logo pelas portas vaivém e pelo corredor longo demais pelo qual está caminhando. Tinha acabado de assistir ao legista examinar o corpo de Laura Kjær , e agora está tentando falar com Genz. A mensagem de voz da secretária eletrônica começa a repetir o convite automático para deixar um recado, mas Thulin desliga e tenta novamente, impaciente. Genz tinha prometido entregar transcrições preliminares da correspondência de e-mail de Laura Kjær, assim como todas as suas mensagens de texto e histórico de ligações até as três da tarde, mas já são quase três e meia e ela ainda não teve notícias. Em geral Genz é muito pontual, e Thulin nunca soube de nenhuma vez em que ele furou um horário. Na verdade, ele nunca deixou de atender a uma ligação dela antes.

 

O exame do corpo não revelou nenhuma evidência nova e crucial. O convidado da Europol, ou sabe-se lá de onde, não apareceu — é claro — conforme o combinado, e Thulin não se preocupou em esperar nem meio segundo por ele. Ela simplesmente pediu para o legista começar . O cadáver de Laura Kjær estava na mesa de autópsia enquanto o legista passava por suas anotações na tela e conversava sobre o seu dia incomumente ocupado. Houve vários acidentes de trânsito, declarou ele, supostamente por causa da chuva forte. Depois do comentário, ele começou a trabalhar de forma sistemática. O conteúdo estomacal revelou um jantar que consistiu em sopa batida e salada de frango com brócolis, acompanhadas por uma xícara de chá — embora ela possa ter sido ingerida um pouco mais cedo. Thulin pediu para ele pular direto para a parte útil. O legista costumava reagir com impaciência àquele tipo de pedido.

— Thulin, é como pedir para Per Kirkeby explicar seus quadros!

Mas ela insistiu. O dia ainda não tinha trazido nenhuma das respostas que Thulin esperava, e, enquanto o legista lia suas anotações em voz alta, ela ouvia o barulho da chuva batendo no telhado como se estivesse batucando em um caixão.

— Existem diversas perfurações e lacerações e ela sofreu entre cinquenta e sessenta golpes com um porrete feito de aço ou alumínio. Não consigo determinar o tipo exato de porrete, mas, julgando pelas marcas, é equipado com uma esfera do tamanho de uma mão, cravejado com pontas pequenas e a adas de dois ou três milímetros de comprimento.

— Como uma maça?

— Teoricamente, sim, mas não é uma maça. Fiquei imaginando se não poderia ser alguma ferramenta de jardinagem, mas não cheguei a nenhuma conclusão. As amarras nos punhos impediram qualquer defesa. Ela também caiu diversas vezes no chão , o que provocou mais escoriações.

Thulin já sabia de quase tudo aquilo, depois da conversa com Genz: estava mais interessada em saber se havia qualquer evidência que apontasse para o namorado.

— Sim e não — foi a resposta, o que a deixou irritada. — Até o momento, o meu exame revelou o DNA dele na calcinha, camisa e corpo dela, mas não mais do que o esperado se ela dormiu na cama que eles compartilhavam.

— Sinais de estupro?

O legista rejeitou a possibilidade — isso excluía uma motivação sexual.

— A não ser que alguém considere que existe algum impulso sexual por trás da punição sádica.

Thulin pediu para ele explicar melhor e o legista declarou que Laura Kjær tinha sido torturada.

— Ele deve ter visto que ela estava sofrendo . Se quisesse só matá-la, poderia ter feito isso bem rápido. Ela deve ter perdido a consciência várias vezes durante o ataque, e a minha suposição é que isso durou uns vinte minutos antes do golpe no olho, que foi a provável causa da morte.

A ferida deixada no lugar da mão direita, que ainda não tinha sido localizada, também não ofereceu nenhuma pista. O legista não conseguiu determinar que tipo de ferramenta tinha sido usada para amputá-la, mas sugeriu que amputações eram comuns entre gangues de motoqueiros — embora, via de regra, eles se contentassem com arrancar os dedos de quem lhes devia dinheiro , e os instrumentos que costumavam usar eram tesouras de açougueiro, espadas de samurai e coisas do tipo . Ele não podia con rmar se esse era o caso ali.

— Cortador de grama? Tesoura de poda? — perguntou Thulin, pensando nas ferramentas na garagem em Husum.

— Não, foi de nitivamente algum tipo de serrote. Possivelmente circular ou elétrico. O mais provável é que fosse movido a algum tipo de bateria, considerando que o assassino serrou a mão dela no meio de um parquinho. Diante de tudo , eu diria que foi com uma lâmina circular diamantada ou alguma similar .

— Uma lâmina diamantada?

— Existem muitos tipos de serras, dependendo do objetivo. As diamantadas são as mais robustas. Elas costumam ser usadas para cortar ladrilho, concreto ou tijolos, e podem ser compradas em lojas de material de construção. O corte é rápido. Por outro lado, a lâmina estava evidentemente cega porque a laceração está mais desigual e irregular do que veríamos com uma lâmina a ada. De qualquer forma, a amputação deve tê-la deixado bem debilitada.

Então Laura Kjær estava viva quando a amputação aconteceu: a ideia era tão desagradável que Thulin não ouviu o que o legista disse em seguida e teve que pedir que ele repetisse. Considerando os outros ferimentos, Laura Kjær tinha tentado fugir novamente, tonta e cada vez mais incapacitada pela perda de sangue, até que aparentemente

cou tão fraca que não ofereceu resistência quando o assassino a

levou para o lugar de execução do lado de fora da casinha de boneca. Por um momento, Thulin imaginou a mulher correndo no mais completo breu, com o perseguidor em seu encalço, e na sua cabeça surgiu a cena que ela tinha testemunhado em um verão da infância: uma galinha sem cabeça correndo em pânico em volta da fazenda do amigo . Afastando a imagem, Thulin perguntou sobre as unhas, boca e marcas na pele da vítima, mas, além dos ferimentos, o legista já tinha mencionado que não havia evidência de contato físico com o assassino. Comentou, porém, que a chuva poderia ter alguma coisa a ver com a ausência de provas.

A ligação de Thulin cai na caixa-postal de Genz pela terceira vez quando ela passa pela porta vaivém. Então deixa uma mensagem sucinta, reforçando que Genz deve ligar para ela assim que possível. Ainda está chovendo forte do lado de fora, e Thulin se encolhe no casaco e decide que é melhor voltar para o prédio enquanto espera. A essa altura, eles já con rmaram que Hans Henrik Hauge saiu da feira de negócios na noite anterior por volta das nove e meia da noite, após ter tomado uma taça de vinho branco com um dos seus chefes e dois colegas da Jutland enquanto conversavam sobre um novo rewall.

Depois disso, porém, o álibi de Hauge ca fraco. Ele realmente fez o check-in no hotel, mas ninguém conseguiu con rmar com certeza que o Mazda preto cou estacionado lá a noite inteira. Em tese, ele poderia muito bem ter voltado de carro para a casa em Husum e depois retornado ao hotel, mas não têm evidências que justi quem uma investigação mais profunda no carro de Hauge — por isso ela precisa de Genz e dos resultados dos exames forenses.

— Desculpe. Demorei um pouco.

Hess entra no necrotério passando pelas portas de vaivém, deixando pequenas poças no chão , e dá uma sacudida no casaco encharcado.

— Não consegui encontrar o corretor . Está tudo bem?

— Tranquilo.

Thulin passa pelas portas sem olhar para trás. Saindo na chuva, corre até o carro, tentando não se molhar mais do que o necessário. Consegue ouvir Hess atrás de si.

— Não sei para onde você está indo , mas posso pegar os depoimentos de colegas de trabalho da vítima ou...

— Não precisa, eu já z isso. Não se preocupe.

Thulin abre a porta e entra, mas, antes de conseguir fechá-la, Hess a segura. Ele estremece na chuva.

— Acho que você não entendeu o que eu disse. Sinto muito sobre o atraso, mas...

— Eu entendi muito bem. Você fez alguma merda em Haia, alguém te mandou para a delegacia daqui até receber sinal verde para voltar , mas você não está nem aí para o trabalho e só está passando o tempo e fazendo o mínimo de esforço.

Hess não se afasta, apenas se empertiga e a encara com aqueles olhos que Thulin ainda estranha.

— Bem, o trabalho de hoje não foi o mais difícil do mundo.

— Eu estou tentando facilitar as coisas. Você se concentra em Haia e no seu apartamento e eu não vou contar nada para Nylander , está bem?

— Thulin!

Ela olha na direção da entrada, onde o legista saiu e está embaixo de um guarda-chuva.

— Genz pediu para avisar que não está conseguindo falar com você, mas que é para você ir direto para o Departamento Forense.

— Por quê? Por que ele não me ligou?

— Tem uma coisa que você precisa ver . Ele disse que se você não vir pessoalmente vai achar que ele está de onda com a sua cara.