As Sombras de Outubro
Capítulo 32
Rosa Hartung está na reunião com Gert Bukke, o líder da coalizão, há apenas quinze minutos, mas já percebeu que algo está muito errado.
Os últimos dias em Christiansborg foram movimentados. Sugestões para diversos aumentos no orçamento dos programas sociais do ano seguinte foram trocadas entre seu ministério e o escritório de Bukke. Ela e Vogel estão trabalhando dia e noite para conseguirem chegar a um acordo que satisfaça tanto a coalizão quanto o governo, e os dias movimentados caem como uma luva para Rosa. Nos últimos seis dias, ela vem tentando esquecer a breve esperança que sentiu quando os policiais apareceram na sua casa, e em vez disso colocar toda sua energia em alcançar um acordo sobre os programas sociais, como o primeiro-ministro espera. É muito importante que ela esteja à altura da con ança que o primeiro-ministro depositou nela, principalmente porque deu sua palavra de que estava pronta para reassumir o ministério. Talvez não estivesse, mas voltar ao trabalho foi crucial para Rosa. Por sorte, não receberam mais ameaças nem interrupções naquela semana, e ela sentia que as coisas estavam seguindo na direção certa — até aquele momento, pelo menos, sentada na sala de reuniões ao lado da Câmara, analisando Gert Bukke, que está assentindo educadamente. Vogel lhe explica as emendas sugeridas, mas Rosa percebe que ele está prestando mais atenção aos rabiscos do seu bloco. Quando ele fala, a surpreende.
— Entendo suas sugestões, mas preciso discutir o assunto com o grupo.
— Você já fez isso. Várias vezes, não é?
— E agora vou fazer de novo. Por que não encerramos por aqui?
— Mas o grupo segue suas decisões, Bukke. Eu preciso saber se tem alguma chance de chegarmos a um acordo antes...
— Rosa, eu conheço os procedimentos. Mas como disse...
Rosa olha para ele e se levanta. Ela sabe que na verdade Bukke quer ganhar tempo, mas não entende o motivo. Seu apoio político e eleitoral não é dos melhores, e se puderem chegar a um acordo, então em tese isso o colocaria de volta aos eixos.
— Bukke, queremos encontrar um meio-termo, mas não podemos permitir esse tipo de chantagem. Estamos negociando há quase uma semana, já zemos concessões, mas não podemos...
— A mim parece que é o primeiro-ministro que está nos pressionando, e eu não gosto nada disso, então vou levar todo o tempo necessário .
— Pressionando?
Gert Bukke se senta novamente e se inclina para a frente.
— Rosa, eu gosto de você. E sinto muito por sua perda. Mas, para ser sincero, parece que te jogaram de volta na arena para fazer com que a pílula seja mais fácil de engolir , e isso não vai acontecer.
— Não estou entendendo.
— No ano que você cou afastada, o governo passou por uma merda atrás da outra. As pesquisas de opinião mostram uma queda e o primeiro-ministro está desesperado. Agora ele está tentando transformar a aprovação do orçamento em uma grande esmola e arrastou para isso, claro, sua ministra mais popular, ou seja, você. Assim você banca a “Mamãe Noel” e ele reconquista os eleitores a tempo da reeleição.
— Bukke, eu não fui “arrastada para isso”. Eu pedi para voltar .
— Se você diz.
— E se você acha que a proposta é uma esmola, então deveríamos discutir isso. Estamos no meio do mandato parlamentar . Precisamos nos manter unidos por mais dois anos, então quero encontrar uma solução que deixe todo mundo satisfeito. Mas me parece que você está arrastando as coisas.
— Não estou. Só estou dizendo que temos desa os. Eu tenho os meus, e você obviamente tem os próprios problemas, então é compreensível que esteja sendo difícil.
Bukke dá um sorriso diplomático e Rosa o observa. Vogel faz uma tentativa vã de suavizar o tom e tenta novamente:
— Bukke, se nós zermos mais alguns cortes para...
Mas Rosa se levanta abruptamente.
— Não, nós já terminamos aqui. Vamos dar a Bukke tempo para discutir com o grupo.
Ela faz um gesto de despedida com a cabeça e sai antes que Frederik Vogel consiga dizer outra palavra.
A entrada principal de Christiansborg está cheia de visitantes e guias entusiasmados, que apontam para as pinturas de vários antigos chefes de Estado no teto. Rosa notou os ônibus quando chegou e, embora seja totalmente a favor da transparência democrática, ela passa pela multidão e sobe as escadas com uma expressão séria. Vogel a alcança no meio do caminho.
— Eu queria te lembrar de que dependemos do apoio deles. Eles são a base parlamentar do governo. Você não pode reagir assim. Mesmo se ele mencionar a sua...
— Não tem merda nenhuma a ver com isso. Nós desperdiçamos uma semana inteira. O plano dele é fazer parecer que eu não estou à altura do trabalho, assim vai ter uma desculpa para dar à base quando as negociações acabarem e formos obrigados a convocar eleições.
Está claro para Rosa que Bukke cansou de cooperar com o governo. Ele provavelmente recebeu uma proposta mais interessante da oposição. Se ele forçar uma eleição, o partido de centro de Bukke vai
car livre para fazer uma nova aliança, e aquele último comentário —
“ você obviamente tem os próprios problemas” — signi ca que ele vai fazer de tudo para que a merda caia no colo de Rosa.
Vogel lança um olhar para ela enquanto caminham.
— Você acha que a oposição ofereceu alguma coisa para ele? Se sim, você não está ajudando saindo das negociações daquele jeito. Não sei se o primeiro-ministro vai car muito satisfeito.
— Eu não saí de nada. Mas se ele está tentando nos pressionar , precisamos fazer o mesmo.
— Como?
Rosa se dá conta de que cometeu um grande erro. Desde que voltou ao ministério, evitou falar com a imprensa, solicitando que sua equipe recusasse delicada, mas veementemente, qualquer pedido de entrevista. Em parte porque ela sabe o que eles querem realmente perguntar , e em parte porque prefere passar o tempo negociando. Mas principalmente pelo primeiro motivo. Vogel tentou fazê-la mudar de ideia, mas ela se manteve rme na decisão. Agora, em retrospecto, percebe como essa postura pode ser confundida com fraqueza se as negociações caírem por terra.
— Marque algumas entrevistas. Quantas conseguir encaixar na agenda de hoje. Vamos divulgar as nossas políticas sociais para o maior número possível de pessoas. Isso vai jogar a pressão de volta para Bukke.
— Concordo. Mas vai ser difícil manter o assunto exclusivamente na política.
Rosa não tem chance de responder . Uma garota dá um esbarrão em seu ombro, empurrando-a, e ela precisa se apoiar na parede para não cair .
— Ei, o que é isso?!
Vogel a segura pelo braço, olhando indignado para a mulher , que olha para trás sem se preocupar em diminuir o passo. Está usando um colete e um casaco de moletom vermelho, o capuz cobrindo a cabeça. Rosa só consegue ver rapidamente seus olhos escuros antes que ela desapareça em meio a um grupo de visitantes.
— Idiota. Você está bem?
Rosa faz que sim e continua andando, enquanto Vogel pega o celular .
— Vou cuidar de tudo agora mesmo.
Quando Vogel consegue falar com o primeiro jornalista, eles já estão na escadaria. Rosa olha por sobre o ombro, mas não consegue mais ver a mulher. Fica com a impressão de que a conhece de algum lugar , mas não consegue se lembrar de onde nem de quando a viu antes.
— Você está preparada para uma primeira entrevista em quinze minutos?
A voz de Vogel a traz de volta para a realidade, e Rosa logo se esquece do incidente.