As Sombras de Outubro
Capítulo 29
As gigantescas bétulas cobertas de folhas amarelas balançam ao vento de um jeito ameaçador quando Hess estaciona a viatura bem na porta principal do Departamento Forense. Ao chegar à recepção no primeiro andar , ele se adianta a qualquer protesto mostrando o distintivo e dizendo que tem uma reunião agendada. Quando Genz aparece um instante depois, com seu jaleco branco, olha para Hess sem esconder a surpresa.
— Preciso de sua ajuda para um pequeno experimento. Não vai demorar muito, mas preciso de uma sala razoavelmente esterilizada e um técnico que saiba usar um microscópio.
— A maioria sabe. Do que se trata?
— Primeiro preciso saber se posso con ar em você. Talvez seja uma bobagem e nem valha a pena perder tempo, mas não quero arriscar que a informação vaze.
Genz, que até o momento estava olhando Hess com ceticismo, dá um sorriso.
— Se você está falando isso por causa do que eu disse no outro dia, espero que entenda que eu precisava ser cauteloso.
— Bem, agora sou eu que preciso ter cuidado.
— Você está falando sério?
— Muito sério.
Genz lança um olhar por sobre o ombro, como se estivesse pensando na montanha de trabalho sobre a sua mesa.
— Se é relevante e está dentro da lei...
— Creio que sim. A não ser que você seja vegetariano. Agora, por onde eu posso entrar para estacionar na garagem?
O último portão eletrônico ao lado do prédio se abre, e assim que Hess estaciona Genz pressiona um botão para fechá-lo antes que as folhas caindo das árvores possam segui-lo. O cômodo tem o tamanho de uma o cina mecânica. É uma das salas de exame de veículos do departamento e, embora o carro não seja o que Hess quer examinar , a sala vai servir bem, já que conta com forte iluminação de neon no teto e um ralo no chão.
— O que você quer testar?
— Se você puder me ajudar a carregar .
Hess abre o porta-malas, e Genz leva um susto quando se depara com um cadáver pálido enrolado em plástico grosso e transparente.
— O que é isso?
— Um porco. De cerca de três meses. Comprei no açougue, ele estava pendurado no freezer até uma hora atrás. Vamos colocá-lo ali na mesa.
Hess pega as patas traseiras e Genz, hesitante, pega as dianteiras. Juntos, eles levam o animal até a mesa na lateral da sala. A barriga está aberta e todos os órgãos foram removidos, os olhos sem vida
tam a parede xamente.
— Não estou entendendo. Isso não pode ser relevante, e, se é algum tipo de brincadeira, já vou avisando que não tenho tempo para isso.
— Claro que não é uma brincadeira. Esse animal pesa uns quarenta e cinco quilos, ou seja, mais ou menos a mesma coisa que uma pré-adolescente. Tem uma cabeça e quatro membros e, embora a cartilagem, os músculos e os ossos sejam um pouco diferentes dos nossos, acho que pode servir bem como ferramenta de comparação. Depois que zermos o desmembramento.
— Desmembramento ?
Genz olha boquiaberto para Hess, que voltou ao carro para pegar a pasta de um caso e um objeto embrulhado no banco de trás. En ando a pasta embaixo do braço, ele rasga o pacote grosso do objeto comprido e revela um facão de quase um metro de comprimento.
— É isso que temos que examinar quando terminarmos. O facão é praticamente idêntico ao encontrado na casa do agressor do caso Hartung. Queria que a gente desmembrasse o porco o mais próximo possível da descrição que ele deu durante o interrogatório. Eu só vou precisar de um avental emprestado.
Hess coloca a arma e o arquivo do caso Hartung sobre a mesa de metal ao lado de Genz antes de pegar um dos aventais pendurados. Genz olha para o relatório e depois para Hess.
— Mas por quê? Achei que o caso de Hartung não fosse relevante. Thulin me disse...
— Não é relevante. Se alguém perguntar , estamos só cortando um leitão de Natal para colocarmos no freezer . Você quer começar , ou prefere que eu comece?
Na semana anterior , Hess não teria, nem em um milhão de anos, imaginado que estaria desmembrando um porco, mas então algo aconteceu e lhe deu uma perspectiva completamente diferente do caso de Laura Kjær. Não tinha nada a ver com a inquietação que sentiu depois da visita a Magnus no Glostrup Hospital. Se o sr . Castanha com a impressão digital de Kristine Hartung tivesse sido deixado na cena do crime por volta do mesmo horário do assassinato, só podia ser uma coincidência extraordinária, mas no trem ao voltar do hospital ele se viu revisando o caso novamente. Não estava questionando se a menina Hartung tinha sido assassinada e desmembrada um ano antes, como Thulin tinha contado. Trabalhar com a polícia dinamarquesa não é a coisa mais fácil do mundo — ele sabe, por experiência própria —, mas a e cácia da Divisão de Homicídios e a taxa de resolução de crimes estão, há anos, entre as melhores da Europa. A vida humana ainda signi ca alguma coisa neste país — principalmente quando se trata de crianças —, e sobretudo quando se está falando da lha de uma importante parlamentar . O fato de Kristine Hartung ser lha de uma ministra signi cava que uma investigação meticulosa e completa tinha sido conduzida, com detetives, técnicos forenses, geneticistas, equipes da SWAT e serviços de inteligência trabalhando vinte e quatro horas por dia. O crime contra a garota provavelmente tinha sido considerado um potencial ataque contra a democracia, então tinha contado com todos os recursos disponíveis. Resumindo, Hess tem plena con ança na investigação e nos resultados. No entanto, ainda há aquela coincidência aleatória e a sensação de inquietação que o incomodou depois de voltar a seu refúgio em Odin.
Conforme os dias se passaram, as suspeitas naturalmente caíram sobre o namorado, Hans Henrik Hauge, e Hess se resignou àquilo. A investigação está aos cuidados de Thulin, e ela parece meticulosa e persistente, claramente de saída do departamento para alavancar sua carreira. Ela também parece bastante fria, mas, por outro lado, ele vinha sendo negligente — a não ser pela visita espontânea a Magnus Kjær — e fez de tudo para car fora do departamento. Dedicou a maior parte do tempo a escrever um relatório para o seu chefe na Europol, que compartilhou com François. Depois de alguns ajustes, os dois enviaram os respectivos relatórios para Freimann e, enquanto aguardava a decisão do chefe alemão, Hess começou a reformar o apartamento. Considerando que logo voltaria ao trabalho — ou assim esperava —, tinha até entrado em contato com um corretor de imóveis. Vários, na verdade. Os primeiros três não quiseram o apartamento em seus catálogos. O quarto aceitou, mas avisou a Hess que não esperasse uma negociação rápida. Como ele bem sabia, a região não tinha a melhor das reputações.
— A não ser que você seja islâmico ou esteja de saco cheio da vida — acrescentou ele.
É claro que o zelador , que zelava até demais, tinha se envolvido na redecoração , e aquele paquistanês baixinho encheu a paciência de Hess enquanto pintava o apartamento, mas, ainda assim, até que o projeto estava caminhando bem.
Então, na noite anterior , aconteceu uma coisa. Primeiro, ele recebeu um telefonema de Haia. Uma secretária de voz fria informou, em inglês, que Freimann queria uma conferência por telefone com ele às três horas da tarde do dia seguinte, e a perspectiva da conversa deixou Hess mais con ante. Ele usou a maré positiva para se animar e começar a pintar o teto, com o qual nem teria se importado antes. Infelizmente, tinha acabado o papelão, então o zelador lhe entregou uma pilha de jornais velhos que pegou no porão e espalhou pelo chão, mas, quando Hess estava terminando de pintar o teto da quitinete, ele olhou para baixo e se deparou com o rosto de Kristine Hartung olhando para ele em uma das páginas.
Não conseguiu resistir à tentação e pegou o jornal com os dedos sujos de tinta. “Onde está Kristine?” era a manchete, e ele logo se viu em busca da continuação do artigo, que estava nas páginas que forravam o piso do banheiro. Era um artigo datado de 10 de dezembro do ano anterior , trazendo um resumo do caso e o relato da busca infrutífera pelo corpo da garota. No entanto, naquela época a polícia já sabia o que tinha acontecido com Kristine, contava o artigo em tom assustador e misterioso. O assassino Linus Bekker tinha confessado o estupro, o assassinato e o desmembramento da garota, durante o interrogatório um mês antes, mas as partes do corpo jamais foram encontradas. O artigo era ilustrado com fotos em preto e branco de policiais fazendo buscas na oresta. Diversas fontes anônimas da polícia foram citadas, a rmando que raposas, texugos ou outros animais poderiam ter desenterrado as partes do corpo e as comido, o que talvez explicasse por que nada jamais foi encontrado. Nylander , no entanto , tinha soado otimista, embora também tivesse mencionado que o clima talvez obrigasse a encerrar as buscas. O jornalista tinha lhe perguntado se era possível que a con ssão de Linus Bekker fosse falsa, já que não tiveram sucesso nas buscas, mas Nylander rejeitou a ideia: além da con ssão de Bekker , eles tinham provas físicas do assassinato e desmembramento, embora ele não tenha dado detalhes.
Hess tentou continuar pintando, mas por m foi obrigado a aceitar que talvez fosse necessário ir até a delegacia. Primeiro para pegar um carro da polícia, que ele precisava para buscar a lixadeira para o piso na loja de material de construção no dia seguinte. E segundo, para tentar descansar a mente.
Os corredores estavam vazios — eram quase dez horas de um domingo —, e ele teve sorte de encontrar o último funcionário da administração de plantão. No computador no fundo da sala do departamento mal iluminado, Hess entrou no banco de dados dizendo que precisava dar uma olhada no caso de Laura Kjær, mas, assim que o plantonista sumiu de vista, ele procurou o caso de Kristine Hartung.
O material era detalhado e abrangente. Quase quinhentas pessoas tinham sido interrogadas. Foram feitas buscas em centenas de lugares e um número incontável de itens foi analisado pela equipe forense. Hess, no entanto, só estava interessado no resumo das provas contra Linus Bekker, e isso facilitou muito a pesquisa. O único problema foi que ler aquilo não lhe trouxe paz de espírito. Na verdade, o efeito foi oposto .
A primeira coisa que o deixou inquieto foi descobrir que Linus Bekker só começou a ser investigado depois de uma denúncia anônima. Como ele era um criminoso sexual condenado, já tinha passado por um interrogatório de rotina, claro, mas este não levou a lugar nenhum até a denúncia — e eles nunca descobriram quem estava por trás dela. A outra coisa que Hess não conseguia tirar da cabeça era a insistência de Linus Bekker de que não se lembrava do local exato onde tinha enterrado o corpo esquartejado da garota, aparentemente porque estava escuro e ele estava extremamente perturbado na época.
Quanto às provas contra Bekker , eles tinham encontrado a arma que parecia ter sido usada para esquartejar Kristine Hartung na garagem da casa dele, um apartamento no primeiro andar em Bispebjerg; certamente aquela era a prova conclusiva que Nylander mencionou no artigo. A arma, um facão de noventa centímetros, foi examinada por um geneticista forense, e — considerando o fato de que o sangue encontrado na arma correspondia em cem por cento ao da vítima — Bekker acabou confessando o crime. Ele descreveu como seguiu a garota de carro até a oresta, onde a dominou, violentou e estrangulou. Depois de enrolar o corpo em plásticos pretos que estavam no porta-malas, ele voltou para casa para pegar o facão e uma pá na garagem. Insistiu, porém, que sofreu alguns blecautes durante a ação e só conseguia se lembrar de uns poucos ashes.
Escureceu, contou ele, enquanto dirigia com o corpo na mala do carro até a oresta ao norte de Zelândia, onde cavou um buraco , cortou o corpo e enterrou uma parte, provavelmente o torso, antes de continuar seguindo pela oresta para enterrar os membros em outros lugares. A con ssão somada à análise do geneticista forense, que não deixou dúvidas de que o facão tinha sido usado para atacar Kristine Hartung, signi cou que o caso estava resolvido.
No entanto, foi justamente a análise da arma que fez Hess ir até o açougue naquela manhã. No caminho, parou em uma loja de pesca perto de Gammeltorv, da qual ele se lembrava da época em que trabalhava na Divisão de Homicídios. A loja ainda vendia armas exóticas, e Hess cou imaginando se era legalizada. Lá encontrou um facão que não era exatamente idêntico ao do caso Hartung, embora a lâmina tivesse mais ou menos o mesmo comprimento, peso e curvatura e fosse feito do mesmo material. Hesitou em relação a qual perito forense procurar para pedir ajuda com o experimento, mas como sabia que Genz tinha boa reputação — reconhecida até mesmo entre os peritos da Europol — escolheu ele. A vantagem era que poderia continuar evitando seus velhos conhecidos.
Eles tinham quase acabado de esquartejar o porco. Quando Hess corta outra perna, dessa vez a dianteira, com dois golpes fortes e precisos na articulação da espádua, ele enxuga a testa e se afasta da mesa de metal.
— E agora? Terminamos?
Genz, que estava segurando o porco, solta a perna dianteira e o corpo e olha para o relógio, enquanto Hess ergue a lâmina em direção à luz para examinar o efeito do contato com o osso.
— Ainda não. Primeiro precisamos limpá-la e então espero que você tenha um microscópio muito bom.
— Para quê? Ainda não entendi o que estamos fazendo aqui.
Hess não responde. Com bastante cuidado, passa a ponta do indicador pelo o da lâmina do facão.