As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 31 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 31

 

— Me desculpe por não estar aqui mais cedo. Eu sei que você teve que soltar o Hauge, mas isso talvez não importe. Precisamos falar sobre aquela impressão digital de novo.

— A digital não é importante.

Thulin continua seguindo pelo corredor e ouve Hess atrás dela.

— O garoto disse que o boneco não estava lá antes do assassinato. Você precisa investigar se alguém mais pode con rmar isso. As pessoas que moram por ali talvez tenham visto alguma coisa.

Thulin já está quase na escada caracol que leva ao pátio central. Seu telefone toca, mas ela não quer desacelerar, então deixa tocar enquanto desce, com Hess no seu encalço.

— Não, nós já explicamos isso. Neste departamento, costumamos achar que é melhor dedicar o tempo a casos que não foram solucionados ainda, em vez de àqueles que já foram.

— É exatamente sobre isso que precisamos conversar . Espere um pouco , pelo amor de Deus!

Thulin chega ao último degrau e está saindo para o pátio central deserto quando sente Hess a segurar pelo ombro, obrigando-a a parar . Ela se desvencilha do toque e o fulmina com olhar, enquanto ele bate com o dedo em uma pasta que ela reconhece ser um arquivo de caso.

— De acordo com a análise inicial, não havia traço de pó de osso na arma que Linus Bekker usou para esquartejar Kristine Hartung. Havia traços do sangue dela, e eles presumiram que isso junto com a con ssão do criminoso era o su ciente para fazer o esquartejamento parecer plausível.

— Mas do que é que você está falando? Onde você conseguiu esse relatório?

— Acabei de chegar do Departamento Forense. Genz me deu uma mão com um experimento. Quando você corta um osso, não importa que osso seja, o pó microscópico dos ossos ca preso nas ranhuras e fendas da lâmina. Olhe para essas imagens ampliadas do facão que usamos no experimento. É impossível remover as partículas, não importa o quanto você se esforce para limpar a lâmina. Mas na análise forense do geneticista, só foram encontrados traços de sangue. E não de pó de osso.

Hess entrega para Thulin algumas folhas soltas de papel com fotos ampliadas do que parecem ser pequenas partículas sobre uma superfície metálica, supostamente o facão. Mas são os membros decepados em uma das imagens que chamam sua atenção.

— O que é isso no fundo? Um porco?

— Foi só um experimento. Não é uma prova, mas o importante é...

— Se isso fosse relevante, eles provavelmente teriam mencionado, você não acha?

— Não era importante na época, mas pode ser agora... Agora que encontramos a digital.

A porta se abre e o vento frio entra, trazendo com ele a risada de dois homens. Um deles é Tim Jansen, um investigador alto e forte, que costuma ser visto sempre ao lado do seu parceiro, Martin Ricks. Jansen tem reputação de ser um detetive experiente e atento, mas Thulin o acha um porco chauvinista e se lembra claramente de como ele se esfregou nela durante o treinamento de combate no inverno , só a soltando quando ela acertou o cotovelo no seu plexo solar . Jansen também é o investigador que, junto com seu parceiro, conseguiu a con ssão de Linus Bekker, e Thulin tem a sensação de que a posição deles no departamento é inexpugnável.

— Tudo bem, Hess? Está em um período sabático?

O cumprimento de Jansen vem acompanhado de uma risada, e Hess não responde. Espera até eles atravessarem o pátio antes de dizer qualquer outra coisa, e Thulin quer dizer a ele que todo esse cuidado é absurdo .

— Talvez não seja nada. A nal de contas, encontraram o sangue dela, e para ser bem sincero eu não dou a mínima de qualquer jeito, mas você precisa falar com seu chefe para discutirem o rumo que a investigação deve tomar — argumenta Hess, sustentando seu olhar .

Thulin não quer admitir , mas, depois de visitar Magnus no Glostrup Hospital, também entrou no arquivo do caso Hartung para dar uma olhada, só para se assegurar de que não havia nada para se preocupar; e até onde viu, não havia. Além do lembrete de como deve ter sido doloroso para os pais quando ela e Hess apareceram na casa deles naquele dia.

— E você está me contando isso porque o seu trabalho em Haia faz de você um perito em casos de homicídio?

— Não , eu estou te contando isso porque...

— Então não se meta. Eu não quero que você comece a arrumar problemas se envolvendo no luto das pessoas porque alguém fez o trabalho direito enquanto você não faz o seu.

Hess a encara e Thulin enxerga a surpresa nos olhos dele. É um fator atenuante que ele estivesse tão mergulhado em sua linha de raciocínio que não tivesse percebido que estava atrapalhando mais do que ajudando, mas isso não muda nada. Ela está prestes a sair pela porta quando uma voz ecoa no pátio.

— Thulin, o pessoal de TI está tentando falar com você!

Ela olha para o policial que está descendo para falar com ela, segurando um celular .

— Diga que eu ligo em um minuto.

— É importante. O celular de Laura Kjær acabou de receber uma mensagem.

Thulin percebe que Hess cou alerta, então se vira para o policial e pega o telefone.

Um técnico de informática está do outro lado da linha. Um jovem cujo nome ela não grava. Ele fala rapidamente, tagarelando em uma tentativa de explicar a situação.

— É sobre o celular da vítima. Nós sempre cancelamos a conta quando terminamos de examinar tudo , mas isso leva alguns dias, então a linha ainda está ativa e ainda é possível...

— Só me diga qual foi a mensagem.

Thulin olha para as colunas do pátio e para as folhas cor de bronze que giram pelo ar, sentindo o olhar de Hess xo na sua nuca, enquanto o técnico de informática lê a mensagem para ela. Um vento frio passa pelas portas entreabertas, e ela se ouve perguntar se eles têm como rastrear o remetente.