As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 22 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 22

 

Está garoando, e as luzes uorescentes do bicicletário iluminam o fundo da quadra de basquete. As crianças molhadas param para observar quem passa antes de continuar o jogo. Odin Park, no bairro Ydre Nørrebro, não tem muitos residentes brancos, então quando aparece um por lá as pessoas logo notam. Em geral, são policiais, fardados ou não, mas os policiais vêm em duplas, nunca sozinhos, como o cara que caminha lentamente em direção a um bloco na extremidade do conjunto habitacional, carregando uma sacola de comida.

Hess sobe pela escada externa até o terceiro andar e então segue o corredor até a última porta. Na frente dos outros apartamentos há grandes sacos de lixo, bicicletas e um monte de tralha, e, de uma janela meio aberta, ele ouve vozes em árabe e sente o cheiro de temperos que o fazem se lembrar do bairro tunisiano em Paris. Em frente à sua porta, no número 37C, há uma velha e gasta mesa de jardim e uma cadeira instável de plástico. Hess para e procura sua chave.

Ele acende a luz, iluminando o apartamento. Há dois cômodos. Sua mala de viagem está em um canto, encostada à parede, onde ele a deixou depois de pegar a chave com o corretor mais cedo naquele dia. O apartamento foi alugado antes para um estudante boliviano que voltou para casa em abril e, segundo o corretor , foi impossível voltar a alugar o imóvel desde então. O que não é de se estranhar. No cômodo da frente, há uma mesa, duas cadeiras e uma cozinha pequena com um fogão de duas bocas. O piso é irregular e cheio de falhas, as quatro paredes vazias e sujas. Não há nenhum objeto pessoal ali, apenas uma TV velha em um canto, que, apesar da aparência analógica, ainda funciona, porque está conectada ao pacote de TV a cabo da associação de moradores. Nunca houve necessidade de fazer uma reforma, porque Hess nunca estava lá, mas, como com o passar dos anos a hipoteca passou a ser paga pelos locatários, ele manteve o apartamento. Hess tira o casaco, o coldre e os cigarros e pendura o casaco nas costas de uma das cadeiras para secar . Pela terceira vez na última meia hora, ele liga para François no número que combinaram, mas novamente a ligação não é atendida, e Hess não deixa recado.

Ele senta à mesa, abrindo o pacote de comida vietnamita, e liga a TV. Come frango e macarrão sem muita vontade, passando por um monte de canais até chegar ao noticiário. Estão exibindo imagens de Rosa Hartung naquele dia em Christiansborg, enquanto um narrador conta novamente a história sobre sua lha. Hess continua mudando de canal e acaba em um programa sobre aranhas sul-africanas, famosas por comerem a própria mãe assim que saem dos ovos. O programa não desperta nenhum interesse nele, mas não atrapalha seu raciocínio enquanto tenta descobrir uma forma de voltar para Haia o mais rápido possível.

 

Os últimos dias foram dramáticos para Hess. No m de semana anterior , do nada, ele foi dispensado de suas obrigações pelo chefe alemão da Europol, Freimann. Uma dispensa que deveria ser executada imediatamente. Bem, não era muito inesperado, mas certamente foi uma reação um pouco exagerada. Pelo menos na opinião de Hess. A decisão tinha percorrido o sistema e os rumores chegaram a Copenhague, e já na noite de domingo ele recebeu as ordens de voltar para casa. Na reunião de segunda-feira, na delegacia, os chefes dinamarqueses recusaram sua interpretação da situação e lembraram que as ações dele eram particularmente infelizes considerando que a polícia dinamarquesa já tinha problemas para lidar com a Europol, pois a relação tinha cado maculada desde o notório referendo.

Em outras palavras, Hess não estava ajudando em nada, e a colaboração dependia de continuar nas boas graças da Europol. Um dos chefes enfatizou que a situação chegava a ser constrangedora, e Hess tentou parecer arrependido. Depois disso, passaram por uma lista dos seus pecados: insubordinação, faltas, escapadas, acusações de se embebedar e participar de festas nas capitais europeias, e, por m, a teoria abrangente de que ele estava física e mentalmente esgotado. Ele refutou dizendo que estavam fazendo tempestade em copo d’água e que sua avalição provaria isso. Na sua cabeça, ele já estava no voo I5-55 para Haia — a passagem já estava reservada — e, a não ser que o voo atrasasse, estaria de volta ao seu apartamento no segundo andar de um prédio em Zeekantstraat bem a tempo de se jogar no sofá e assistir ao jogo da Liga dos Campeões entre Ajax Amsterdam e Dortmund. Mas então tinham lançado uma bomba em cima dele. Até tudo ser resolvido, Hess tinha sido relegado à sua antiga divisão, a Divisão de Crimes Hediondos. Começando na manhã seguinte.

Hess não trouxe quase nada para Copenhague. Jogou só os itens básicos na bolsa de viagem antes de partir , e depois da reunião desastrosa voltou para o hotel metodista perto da estação de trem, embora tivesse acabado de fazer o check-out. O primeiro passo foi ligar para o seu antigo parceiro, François, explicar a situação e obter uma atualização sobre as coisas em Haia. François era um francês de Marselha, tinha quarenta e um anos e era da terceira geração de policiais da família. Um cara durão , mas com coração de ouro, e o único entre os seus colegas em quem Hess realmente con ava. François explicou que a avaliação tinha começado e que ele manteria Hess informado, dando-lhe o máximo de cobertura possível, mas que precisavam combinar quem disse o que para que não parecessem estar de conluio nos seus respectivos relatórios. Se tudo aquilo se tornasse uma questão disciplinar , os telefonemas entre eles poderiam ser gravados, então parecia uma boa ideia usar um celular novo. Depois que desligou, Hess tomou uma lata de cerveja no minibar e tentou falar com a administradora de imóveis que estava com a chave do seu apartamento: não tinha motivo para gastar mais dinheiro com hotel do que o absolutamente necessário. Mas como o escritório estava fechado , Hess acabou pegando no sono na cama do hotel, ainda todo vestido , depois de assistir à vergonhosa derrota de três a zero do Ajax Amsterdam para os alemães.

As aranhas estavam acabando de devorar a mãe, e o seu celular novo toca. O inglês de François não é muito bom, então Hess sempre prefere conversar em francês com ele, embora seu francês também não seja muito bom, já que aprendeu sozinho.

— Como foi o primeiro dia de trabalho? — François quer saber .

— Ótimo.

Eles acertam tudo rapidamente; Hess conta para François o que está escrevendo no seu relatório, e François conta a ele os últimos desdobramentos. Quando terminam, Hess sente que tem alguma coisa incomodando o francês.

— O que foi?

— Você não vai querer ouvir .

— Desembuche.

— Só estava pensando: por que você não relaxa e ca em Copenhague por um tempo? Tenho certeza de que logo vai estar de volta, mas talvez seja bom para você. Se afastar um pouco de tudo. Recarregar as baterias. Conhecer algumas lindas dinamarquesas e...

— Você tem razão, eu realmente não quero ouvir . Só se concentre no seu relatório e entregue para Freimann o mais rápido possível.

Hess desliga. Conforme o dia foi passando, a possibilidade de car

em Copenhague se tornou cada vez mais insuportável. Claro que seus cinco anos na Europol não foram nenhum passeio no parque, mas qualquer coisa era melhor do que estar ali. Como um o cial de ligação representando a polícia dinamarquesa na Europol, ele poderia muito bem ter se contentado em car atrás de uma tela de computador no escritório na sede, mas logo que Hess chegou foi escolhido pelo investigador de uma força-tarefa móvel e transnacional.

Em média, ele passava uns cento e cinquenta dias por ano viajando, enquanto um caso era substituído por outro e mais outro. Berlim virava Lisboa, que virava Calábria, que virava Marselha e assim por diante, a única interrupção eram breves estadias em Haia, onde tinha recebido um apartamento. Ele mantinha um contato tênue com o sistema dinamarquês por meio de relatórios ocasionais, geralmente por e-mail e algumas vezes por Skype, que deveriam resumir as conexões do crime organizado no Norte europeu — principalmente na Escandinávia e na Dinamarca. Esse contato ocasional era perfeito para Hess. Assim como a sensação de liberdade. Com o tempo, aprendeu a conviver com o maquinismo da polícia europeia, um colosso com pés atolados em um milhão de obstáculos legais e políticos, que pareciam cada vez mais intransponíveis sempre que se deparava com eles. Estava esgotado? Sim, talvez. Como investigador , ele via muitos exemplos de injustiça, maldade e morte o tempo todo. Ele seguia pistas, colhia evidências e interrogava pessoas em diversos idiomas, mas, em geral, as acusações eram arquivadas por políticos que não conseguiam chegar a um acordo além das próprias fronteiras. Por outro lado, Hess podia fazer as coisas como bem quisesse. O sistema era tão vasto e emaranhado que ele podia se safar de tudo. Pelo menos até pouco tempo, antes da chegada de um novo chefe ao seu departamento. Freimann, um jovem burocrata da antiga Alemanha Oriental, que acreditava na cooperação da polícia pan-europeia e tinha começado diligentemente a organizar as operações e limpar o lugar . Mas agora mesmo um m de semana prolongado com Freimann em uma ilha deserta parecia mais tentador , depois do seu primeiro dia de trabalho em Copenhague.

Para ser justo, o dia até teve um começo tolerável. Ele conseguiu evitar velhos conhecidos na delegacia e foi enviado para uma missão logo de manhã. A investigadora que era sua parceira era mais inteligente do que a maioria e claramente não tinha nenhum interesse na sua presença, o que era bem vantajoso. Mas então um assassinato aparentemente simples tinha se complicado por uma impressão digital e, antes que ele percebesse, estava em uma casa na qual o luto se prendia às paredes como piche. E aquilo sempre fazia com que ele sentisse vontade de fugir aos gritos de qualquer lugar .

Depois da visita à casa da família Hartung, ele precisava respirar um pouco. Tinha alguma coisa o incomodando, e não era só o luto. Era um detalhe. Algo que ainda nem tinha virado um pensamento; ou talvez tivesse, mas provocou uma enxurrada de perguntas que sua mente consciente se apressou a afastar — ele simplesmente não queria lidar com aquilo.

Hess caminhou pelas ruas molhadas, dando uma volta pela cidade que não conhecia mais. Havia vidro e aço por todos os lados, obras nas ruas que eram sinais de uma cidade em transformação. Em tese uma capital europeia como todas as outras, porém menor e mais segura do que a maioria das capitais no sul. Famílias felizes com crianças pequenas desa avam o outono e a chuva para aproveitarem as atrações do Tivoli. E as pilhas de folhas caídas sob os castanheiros às margens dos lagos o zeram pensar em Laura Kjær . A imagem de cartão-postal daquela segura cidade de conto de fadas tinha começado a ruir outra vez e, quando chegou à Queen Louise’ s Bridge, lembranças começaram a se materializar, como fantasminhas brincalhões que se recusaram a desaparecer até ele chegar a Ydre Nørrebro.

Hess sabe que não deve se preocupar . Não é responsabilidade dele. Existem loucos em todos os lugares, e pais perdem os lhos todos os dias, assim como os lhos perdem os pais. Ele já viu isso muitas vezes, em diferentes cidades e países, em mais rostos do que é capaz de se lembrar . Dali a alguns dias, receberá uma ligação conciliatória de Haia, então não importa o que ele viu hoje. Logo vai embarcar em um avião , um trem ou um carro para uma nova missão e, até lá, vai simplesmente passar o tempo.

Hess percebe que está olhando apaticamente para uma parede sem cor e, antes que que muito inquieto de novo, ele joga o que sobrou do macarrão no lixo e segue para a porta.