As Sombras de Outubro
Quarta-Feira, 4 de Novembro
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O cigarro não tem o mesmo gosto de sempre, e Hess não está com a menor pressa de entrar na atmosfera internacional, como geralmente. Está do lado de fora do terminal três do aeroporto e, apesar da chuva, espera para ver se Thulin vai aparecer.
Ainda está mexido pelas emoções do dia anterior , e, se por acaso se esquecer delas por um momento, basta olhar para o noticiário na tela do iPad. O reencontro da família Hartung superou os artigos sobre Simon Genz e foi a grande notícia do dia, só ultrapassada pela possibilidade de uma nova guerra no Oriente Médio. Até mesmo Hess teve que lutar para segurar as lágrimas quando viu os pais parados no vento frio, abraçando a lha no meio do bosque. E quando ele caiu na cama em Odin, naquela última noite, dormiu por dez horas seguidas pela primeira vez em dez anos.
Com uma esquecida sensação de bem-estar , ele se levantou e foi com Thulin e a lha, que estava aproveitando as férias de outono, até a instituição para onde Magnus Kjær foi levado. O antigo padrasto de Magnus, Hans Henrik Hauge, foi encontrado e preso naquele m de semana por policiais de trânsito em um albergue em Jutland, mas não foi por isso que Hess quis visitar o garoto. As duas crianças, Le e Magnus, logo zeram amizade e começaram a conversar sobre League of Legends, enquanto o chefe do departamento informava aos detetives que tinham encontrado uma boa família de acolhimento para ele. A família era de Gilleleje e tinha dez anos de experiência e um lho adotivo um pouco mais novo que Magnus, que poderia gostar de ter um irmão ou irmã. O encontro entre Magnus e a família parecia ter ido bem, embora depois o menino tenha dito que, se pudesse escolher , preferia morar com o “policial com os olhos”. Não fazia o menor sentido, é claro, mas, enquanto Thulin foi dar uma volta com Le, Hess e Magnus brincaram um pouco. O resultado foi uma torre conquistada e a derrota de uma horda de servos e um campeão , antes de Hess entregar a Magnus um papel com o seu número de telefone e ir embora. Ele se certi cou mais uma vez com o chefe do departamento se a família de acolhimento era realmente boa e,
nalmente, saiu.
No museu de ciências naturais, comeu o menu do dia com Thulin, e, enquanto Le estava ocupada passando pelo labirinto de luz, eles
caram sentados na cafeteria entre todas as famílias com lhos, entre
gritos e berros. Os dois sabiam que ele tinha que partir para Bucareste, mas a intimidade e a naturalidade que dividiram nos últimos dias de repente deu lugar a uma conversa constrangida. Hess se perdeu nos profundos olhos de Thulin e tentou dizer alguma coisa. Mas bem nessa hora a lha dela voltou correndo da Toca do Leão, onde dava para medir a força do seu rugido ao en ar a cabeça em um buraco em uma caixa e gritar o mais alto possível. Depois disso, Thulin teve que ir embora, mas antes disse que daria uma passada no aeroporto para se despedir . Com aquele pensamento feliz, Hess voltou correndo para Odin Park, onde deveria se encontrar com o zelador e o corretor .
Mas o corretor estava desanimado; o comprador tinha desistido por ter encontrado um lugar mais “seguro” em Østerbro. O zelador paquistanês pareceu car mais aborrecido com isso do que o próprio Hess, que agradeceu e deixou as chaves com ele, mas no caminho para o aeroporto estava se sentindo tão cheio de energia que decidiu parar no Cemitério Vestre.
Era a primeira vez que Hess visitava o túmulo. Não sabia exatamente onde cava, mas na administração do cemitério lhe mostraram um caminho em direção a um pequeno bosque. O túmulo parecia tão triste quanto tinha imaginado. Uma pedra coberta de musgo, um pouco de mato e umas pedras. Isso fez com que se sentisse culpado. Hess colocou sobre os cascalhos uma or que tinha colhido no bosque, então tirou a aliança e a enterrou embaixo da lápide. Hess sabe que ela gostaria que ele tivesse feito isso muito antes, mas mesmo então foi difícil. Ficar diante do túmulo fez com que ele deixasse as lembranças uírem livremente pela primeira vez em muito tempo, e, quando caminhou em direção à saída, sentia-se mais leve do que quando entrou.
Outro táxi passa pelo terminal três, e Hess apaga o cigarro e dá as costas para a chuva. Thulin não vai vir , e talvez seja melhor assim. Ele vive como se não tivesse casa e nada na sua vida é minimamente organizado. En a a mão no bolso e pega o celular para acessar o cartão de embarque. A caminho da escada rolante que dá na área de embarque, percebe que recebeu uma mensagem.
“Boa viagem ”, é tudo que diz. Ao ver de quem é, ele clica na imagem anexa.
A princípio, não consegue entender direito o que é. Um desenho estranho e infantil de uma grande árvore com galhos e fotos coladas; dele, de um papagaio e de um hamster . E então ele começa a rir. Rir de verdade. Quando chega na área de embarque para passar pela segurança, já olhou a foto várias vezes e não consegue parar de rir.
— Você mandou? Ele viu?
Le observa enquanto Thulin larga o celular e abre uma gaveta para guardar o cartaz.
— Sim, eu mandei. Vai lá abrir a porta para o seu avô.
— Quando ele vai voltar?
— Não faço ideia. Agora vá abrir a porta!
Le segue pelo corredor em direção à porta. Para Thulin, mandar aquela foto foi o auge de um dia estranho. Ter ido visitar Magnus Kjær com Hess e Le foi emocionante, e as coisas não melhoraram muito depois que Le os convenceu a irem juntos ao inferno familiar que era o Museu de Ciências Naturais. Na cafeteria, em meio a crianças gritando e lancheiras, ela de repente sentiu o perigo de uma vida tão rotineira quanto a das famílias à volta deles. Sabia que Hess não era assim, mas quando ele olhou para ela, prestes a dizer alguma coisa, não conseguiu evitar pensar em casas separadas, pensões e toda a grande mentira que era a família tradicional. Segundos depois, disse que passaria no aeroporto, mas só para sair correndo de lá e chegar em casa em segurança.
Quando voltaram para casa, Le insistiu em imprimir uma das fotos que tinha tirado de Hess na Toca do Leão. E pior ainda: quis colar a foto no seu cartaz com a árvore da família.
Thulin relutou muito. Mas, quando a foto foi colada, Hess pareceu tão natural quanto os bichinhos de estimação à sua volta, e foi a foto dessa árvore da família que Le insistiu em mandar .
Thulin hesita perto da gaveta da cozinha e não consegue evitar um sorriso. Quando ouve Le e o avô na sala, decide pendurar o cartaz na parede da cozinha. Não em um lugar de destaque. Apenas do lado do exaustor . Por um ou dois dias.