As Sombras de Outubro
Capítulo 37
A porta da sala de Gustav está encostada, mas o cômodo está vazio. Steen avança, pensando que tem sorte de as outras turmas estarem em aula, os corredores estarem vazios e ele não precisar enfrentar olhares inquisidores.
Ao passar pelas portas que levam para o jardim de infância, ele quase consegue ignorar a decoração outonal com animais feitos de castanhas. A visita policial do outro dia foi um pesadelo. A impressão digital. A sensação que despertou dentro dele quando compreendeu o que estavam dizendo. A esperança, crescendo e se misturando com a perplexidade. Aquilo já tinha acontecido muitas vezes antes — ele e Rosa serem empurrados de volta para o início —, mas daquela vez foi ainda mais inesperado. Mais tarde eles conversaram que as coisas eram como eram — e que por Gustav, pelo menos, deveriam ser fortes o su ciente para encarar de frente os golpes e as quedas desses lembretes do que tinha acontecido com a lha. Independentemente de como fossem. Eles prometeram que seguiriam em frente, apesar de tudo , e embora Steen quase sinta os animais de castanha seguindo-o com o olhar , ele vira no corredor e segue para a área comum, determinado a não se deixar afetar .
Steen para de repente. Leva um momento para perceber que as crianças sentadas na sala de convivência são colegas de turma de Kristine. Faz muito tempo desde a última vez em que os viu, mas ainda reconhece os rostos.
Estão sentados calmamente em volta das mesas brancas espalhadas pelo carpete marrom, trabalhando em grupos; mas, assim que o primeiro aluno o vê, corre um burburinho pela sala e todos os rostos se voltam para ele. Ninguém fala nada. Por um segundo, Steen não sabe o que fazer , mas então começa a se afastar por onde veio.
— Oi.
Steen se vira para a garota sozinha na mesa mais próxima, seus livros de escola empilhados à frente, e percebe que é Mathilde. Ela parece mais velha. Mais séria, vestida de preto. Ela dá um sorriso amigável.
— Você está procurando o Gustav?
— Estou.
Ele já a viu milhares de vezes; Mathilde ia tanto à casa deles que Steen tinha se acostumado a falar com ela como se fosse sua própria
lha, mas não era mais assim, e ele não consegue encontrar as
palavras.
— A turma dele passou por aqui há um tempo, mas já devem estar voltando.
— Obrigado . Você sabe para onde eles foram?
— Não.
Steen olha para o relógio, embora saiba que horas são.
— Tudo bem. Vou esperar no carro.
— Tudo bem com você?
Steen olha para Mathilde e tenta sorrir. Aquela é uma das perguntas perigosas, mas ele já a ouviu tantas vezes que sabe que só precisa responder rápido.
— Tudo. Estou um pouco ocupado, mas isso é bom. E você?
Ela assente e força um sorriso, mas parece triste.
— Sinto muito não ter aparecido mais para visitar .
— Não sinta. Está tudo bem.
— Olá, Steen. Posso ajudá-lo em alguma coisa?
Steen se vira e se depara com o professor Jonas Kragh vindo na direção deles. Ele tem uns quarenta e poucos anos, está de jeans e uma camiseta preta justa. Os olhos são gentis, mas também alertas e interrogativos, e Steen sabe exatamente por quê. Toda a turma foi afetada pelo que aconteceu, e a escola está se esforçando para ajudar os alunos a superar . Kragh foi um dos professores que achou que seria melhor se os alunos não participassem da cerimônia memorial, que por motivos lógicos foi realizada alguns meses depois do desaparecimento de Kristine. Ele acreditava que aquilo faria mais mal do que bem, como se estivessem reabrindo uma ferida que estava começando a cicatrizar , e deixou aquilo bem claro para Steen na época. Nesse meio-tempo , a direção da escola declarou que os próprios alunos poderiam decidir se queriam participar ou não e mais ou menos todos os colegas de turma de Kristine apareceram.
— Não , está tudo bem. Estou de saída.
Quando Steen chega ao carro, o sinal toca. Ele fecha a porta e tenta se concentrar em encontrar o lho entre as crianças que estão saindo. Sabe que fez a coisa certa, mas ver Mathilde trouxe a visita da polícia de volta à sua mente e ele se lembra da última explicação do seu terapeuta: “o luto é o amor que cou sem lar , e é necessário aprender a viver com o luto e continuar seguindo adiante”.
Ele ouve Gustav entrar no carro e se sentar ao seu lado, e ouve a explicação de que o professor de literatura os levou até a biblioteca e os fez pegar livros para ler no tempo livre e por isso ele se atrasou um pouco. Steen quer assentir , demonstrar compreensão, ligar o carro e ir embora, mas ca só ali parado, pois sabe que precisa voltar à escola. O sinal toca, e ele luta contra o impulso. Sabe que ceder vai levá-lo a ultrapassar o limite que de niu para si mesmo, mas se não zer isso agora talvez nunca pergunte a Mathilde, e existe algo na pergunta que é realmente importante, que talvez importe mais do que qualquer outra coisa no mundo.
— O que foi?
Steen abre a porta do carro.
— Só uma coisa que eu preciso fazer . Fica aqui.
— O que você vai fazer?
Steen bate a porta do carro e segue para a entrada principal, as folhas voando à sua volta.