As Sombras de Outubro
Capítulo 47
A relações-públicas da delegacia está ansiosa para ajudá-lo a traçar um curso de ação, mas Nylander a interrompe e diz que ele mesmo vai resolver tudo. Normalmente, teria dado atenção a ela porque a mulher o atrai desde que começou a trabalhar e a andar pelo departamento dando bons conselhos. Mas agora, quando desce para o pátio, quer usar o resto do caminho para colocar os pensamentos em ordem antes de enfrentar a imprensa, e o diploma dela de Estudos da Mídia — provavelmente três anos de café com leite e sexo casual — não vai ajudá-lo. Não depois da desconcertante reunião que acabou de ter com Hess e Thulin no seu escritório.
Antes de Nylander sair para o pátio interno, ele é informado que a ministra Rosa Hartung encontrou uma brecha na agenda e está a caminho da delegacia. Nylander dá instruções estritas de que ela e o marido devem usar a entrada dos fundos e não falar com ninguém além dele.
Foi Hess quem sugeriu que ele, Nylander e Thulin se reunissem rapidamente no escritório dele depois da reunião para continuarem a conversa em particular. Hess então colocou fotos da cena do crime de Laura Kjær e de Anne Sejer-Lassen na mesa de Nylander .
— A primeira vítima está sem uma das mãos. A outra, sem as duas. É possível que o assassino pretendesse mutilar ainda mais Anne Sejer-Lassen, se não tivéssemos atrapalhado seus planos, mas e se ele tiver posicionado intencionalmente as vítimas para que as encontrássemos daquele jeito?
— Não estou entendendo. Fala logo. Eu não tenho o dia todo — respondeu Nylander .
Thulin, que obviamente tinha falado em particular com Hess antes da reunião, mostrou a ele duas fotos em close dos srs. Castanha que Nylander já tinha visto.
— Um sr. Castanha consiste em uma castanha para a cabeça e outra para o corpo. A cabeça tem olhos, que são feitos com um furador ou algum outro instrumento a ado , e o corpo tem quatro varetas, que são os braços e as pernas. Mas o sr . Castanha não tem mãos nem pés.
Nylander cou em silêncio, olhando para os srs. Castanha e seus braços cortados. Por um instante, sentiu como se estivesse no jardim de infância, sem saber se ria ou chorava.
— Você está dizendo o que eu estou pensando?
Era uma ideia nojenta. Era quase preciso ser um doente para cogitar uma coisa daquelas, mas de repente Nylander percebeu o que Hess queria dizer durante a reunião sobre tentar evitar que aquilo voltasse a acontecer . Nenhum deles respondeu, mas a ideia de que o assassino podia estar fazendo o próprio boneco com carne e osso era difícil de afastar .
Hess insistiu na necessidade de reabrir o caso Hartung. Ele cou
dizendo “vocês” ao se referir ao caso — “vocês precisam fazer” e “ vocês têm que considerar a possibilidade que...”, até que Nylander esclareceu duas coisas. Primeira: Hess agora era um membro do departamento e estava exatamente na mesma posição que os outros investigadores, e, até onde ele sabia, não tinha ninguém mexendo os pauzinhos para levá-lo de volta para Haia. Na verdade, era o contrário. Segunda: reabrir o caso Hartung estava fora de questão. Não importava o que aquela impressão digital signi casse, o caso Hartung estava fechado. Eles tinham uma con ssão, tinham convicção, e nem mesmo Deus faria com que ele recomeçasse aquilo tudo de novo. Por aquele mesmo motivo, Nylander tomou a decisão de conduzir ele mesmo a conversa com a família Hartung para informar sobre a nova impressão digital. A descoberta não deveria ser supervalorizada e os serviços de inteligência tinham informado que a ministra teve uma semana difícil — ela estava sofrendo assédio de uma ou mais pessoas, sendo o ataque mais recente o para-brisa quebrado do carro ministerial com uma mensagem escrita com sangue de algum animal.
Nylander não achou necessário envolver Hess e Thulin naquilo e pediu para Hess sair para poder conversar a sós com a detetive. Perguntou diretamente se ela achava que Hess estava pronto para lidar com o caso. De um antigo arquivo pessoal, ele já sabia o motivo trágico que tinha feito com que Hess deixasse o departamento, e, embora o homem tivesse muita experiência na Europol, ele também tinha sérias questões com autoridade, o que, diante dos fatos, parecia indicar que seus melhores dias haviam cado para trás.
Embora estivesse claro que Thulin não gostava do cara, ela respondeu que sim, então Nylander lhe disse que queria que os dois continuassem no caso — com a condição de que, se houvesse qualquer sinal de problemas com Hess, queria ser informado imediatamente. É claro que Nylander acrescentou um comentário dizendo que a recomendação para o NC3 teria que esperar até as coisas se acalmarem, e ele sabia que Thulin ia entender o recado — que a lealdade era uma condição para a recomendação.
Ao sair da delegacia, Nylander se aproxima dos abutres, que estão espalhados por lá na esperança de alguém cair de uma janela. Foi ideia dele encontrá-los ali fora em vez de marcar uma coletiva, porque assim será muito mais fácil encerrar o assunto e voltar para sua sala. Mesmo assim, quando os ashes começaram a pipocar , sente o próprio rosto assumir uma expressão familiar e percebe que sentiu falta da atenção. É isso que ele faz melhor . Claro, o dele está na reta, mas existe muita coisa a se ganhar . Nos próximos dias, ele ainda será a pessoa com quem todo mundo quer falar e, considerando a notoriedade do caso, talvez essa seja a oportunidade que está procurando. Se tudo sair bem, talvez seja útil ter Mark Hess na manga.