As Sombras de Outubro
Capítulo 64
Hess sente que a cabeça está prestes a explodir e se arrepende de não ter cado no vento frio do lado de fora dos muros da prefeitura. A dormência que acometeu sua cabeça depois da briga com Hauge foi substituída no decorrer da semana por uma dor persistente. Para piorar , Hauge ainda não foi encontrado e ele foi obrigado a participar do interrogatório de Erik Sejer-Lassen na delegacia, antes de correr para a prefeitura para interrogar Henning Loeb e seu chefe, com quem está sentado agora em um escritório abafado demais no Centro de Serviços Sociais da Infância e Adolescência. A atmosfera pesada e o painel de mogno na parede não criam um ambiente exatamente amigável para crianças.
O assistente social está ocupado demais tentando salvar a própria pele, provavelmente por causa da presença do diretor do departamento , que está batendo os dedos nervosamente no braço da cadeira.
— Como eu disse, o sistema caiu. Foi por isso que eu não consegui ajudar .
— Não foi o que você me disse quando conversamos na terça-feira. Você me disse que não tinha nenhum relatório sobre as lhas de Anne Sejer-Lassen, quando na verdade tinha.
— Acho que eu disse que o sistema não me mostrou nada.
— Não, não foi isso. Eu informei o número de identidade das meninas e você disse...
— O .k., olha. Talvez eu não me lembre exatamente das palavras...
— Por que você não me falou a verdade?
— Bem, não foi minha intenção esconder nada...
Henning Loeb continua se contorcendo na cadeira, lançando olhares apreensivos para seu chefe pelo canto dos olhos, e Hess se xinga por não ter ido até lá falar com o cara dias antes, logo que pensou nisso.
A suspeita em relação à pessoa que fez a denúncia anônima no caso de Laura Kjær foi desconsiderada depois do que encontraram no quarto subterrâneo na garagem, porque aparentemente não havia uma denúncia correspondente no caso de Anne Sejer-Lassen. Hess já tinha a declaração do assistente social dizendo que a prefeitura não recebeu nada do tipo enquanto a família morava em Islands Brygge, então ele e Thulin tinham se concentrado no Conselho Tutelar de Gentofte, responsável pela área de Klampenborg.
Lá, foram informados de que não tinham conhecimento de nenhum relatório sobre Anne Sejer-Lassen, então a teoria de que ambos os assassinatos podiam estar conectados por violência contra crianças começou a ruir . Ninguém no círculo de amizades da família Sejer-Lassen achava que os machucados das meninas fossem qualquer outra coisa senão acidentes. As respostas da au pair foram mais hesitantes, mas só no nal da tarde anterior — depois que Hess e Thulin lhe asseguraram que a protegeriam da ira do patrão — foi que ela começou a chorar e por m desabafou. Ela também contou sobre o assistente social do Conselho Tutelar de Copenhague que apareceu no antigo endereço de Islands Brygge — ele fez algumas perguntas por causa de uma denúncia anônima acusando Anne de não tomar conta das lhas direito. Hess cou com raiva de si mesmo ao perceber o tempo precioso que tinham perdido.
Ele não cou com uma boa impressão do assistente social depois da conversa por telefone, e isso não mudou muito durante o interrogatório. Teve que conduzi-lo sozinho porque Thulin e os técnicos de TI tinham começado a vasculhar os computadores do departamento em busca de pistas digitais do denunciante.
O assistente social continuava defendendo sua mentira como um “ erro técnico”, mas ao ler os dois e-mails anônimos, um contra Laura Kjær e o outro contra Anne Sejer-Lassen, Hess formou outra teoria sobre o motivo de Loeb ter sido tão evasivo ao telefone.
A denúncia a respeito de Anne foi recebida pelo serviço de denúncias anônimas aproximadamente uma semana depois da denúncia de Laura e pouco antes de a família Sejer-Lassen se mudar para Klampenborg. Ela é incomumente prolixa, ocupando quase uma folha A4 inteira. Em síntese, exige que as lhas de Anne Sejer-Lassen, Lina e So a, sejam tiradas de seus cuidados porque as meninas são vítimas de violência. Mas o e-mail é errante, quase sem sinais de pontuação, escrito como um único uxo de pensamento, em total contraste com a mensagem sucinta, fria e direta sobre Laura Kjær. Anne é descrita como uma socialite cabeça de vento que está mais preocupada consigo mesma do que com as meninas, uma mulher obcecada com dinheiro e luxo. E diz que qualquer pessoa que analise os exames médicos realizados em vários hospitais percebe que as meninas devem ser retiradas da família. O tamanho e o estilo de fonte das mensagens também são completamente diferentes, mas, ao ler uma depois da outra, chama a atenção o uso das expressões “puta egoísta ” e “ devia estar atenta”. Várias vezes, na verdade, no caso de Anne Sejer-Lassen, o que sugere que os remetentes são a mesma pessoa e que as diferenças foram criadas para confundir . Hess imagina que foi isso que provocou a inquietação de Henning Loeb, fazendo com que mentisse sobre as meninas da família Sejer-Lassen.
Loeb está se escondendo atrás das regras, defendendo como lidou com os casos: tudo foi feito seguindo à risca o protocolo, e os pais negaram ter qualquer conhecimento sobre violência. Ele repete isso como se fosse esperado que os pais mostrassem todas as cartas assim que o Conselho Tutelar batesse à porta deles.
— Mas a investigação policial trouxe outras informações sobre esses casos. Naturalmente vamos recomendar uma revisão completa e imediata de todo o departamento — intervém o chefe.
O assistente social ca em silêncio ao ouvir o comentário e durante todas as a rmações subsequentes do chefe. Hess sente a pele da cabeça comichando. Percebe que devia ter pedido para ser examinado quando foi ao pronto-socorro na terça-feira, mas em vez disso voltou para Odin e sua bagunça de materiais de pintura. Dormiu pensando no homem que estava esperando por Thulin com ores e vinho. Por algum motivo, o fato de ter sido surpreendido o deixou irritado — é claro que havia alguém esperando por ela no m do expediente. Não que fosse da conta dele.
No dia seguinte, acordou com a dor de cabeça mais excruciante do mundo e, assim que abriu os olhos, seu celular tocou. Era François, que não entendia por que Hess não tinha se esforçado mais para falar com Freimann depois da reunião por telefone. Ele não queria mais o emprego de volta? Que porra estava pensando? Hess disse que retornaria a ligação e desligou. O intrometido paquistanês do 34C pareceu adivinhar que ele acordou, porque ele logo estava à porta, olhando para a desordem lá dentro enquanto informava que o corretor tinha feito uma visita infrutífera no dia anterior .
— E quanto às latas de tinta e à cera de chão no corredor? Você precisa pensar nos outros moradores, sabe?
Hess fez várias promessas vagas, mas não manteve a palavra; ele e Thulin caram ocupados demais dando corda para Sejer-Lassen se enforcar .
— Mas o que você pode me contar sobre a pessoa que fez a denúncia? Descobriram alguma coisa nessas visitas que alegam ter feito? — insiste Hess.
— Nós zemos as visitas e investigamos. Não é uma alegação. Mas como eu disse...
— Pare com isso. O garoto estava sendo estuprado em um quarto subterrâneo e as duas garotas já tinham passado por tantos tratamentos médicos que dá para farejar a história a quilômetros, mas claro que você deve ter um motivo bom pra caralho pra nada disso ter sido descoberto. O que eu quero descobrir é se você sabe alguma coisa sobre a pessoa que denunciou.
— Eu não sei mais nada. E não estou gostando do seu tom. Como disse...
— Tudo bem. Vamos fazer uma pausa — interrompe Nylander , que acaba de chegar .
Ele para na porta do escritório e, com um gesto de cabeça, deixa claro para Hess que quer conversar. Hess ca satisfeito por sair da sala abafada e seguir para a escadaria, onde pessoas passam por eles lançando olhares curiosos.
— Não é seu trabalho avaliar como o Conselho Tutelar investiga os casos.
— Então vou tentar pegar mais leve.
— Onde está Thulin?
— Aqui do lado. Ela e o pessoal de TI estão tentando rastrear os e-mails de denúncia.
— Então nós estamos achando que pode ser o assassino?
Hess tenta ignorar a pontada de irritação ao ouvir o chefe usar o pronome “nós”. Freimann fala da mesma forma, e Hess se pergunta se ele e Nylander zeram o mesmo curso de gestão.
— Sim, por aí. Quando podemos falar com Rosa Hartung?
— Sobre o quê?
— Bem, sobre...
— Nós já conversamos com a ministra. Ela não conhece nem Laura Kjær nem Anne Sejer-Lassen.
— Mas o fato de nós dois estarmos aqui signi ca que precisamos falar com ela de novo. As duas vítimas foram denunciadas anonimamente para que os lhos fossem entregues à custódia do estado . Ou talvez esse não seja nem de longe o objetivo do assassino. Talvez ele só esteja apontando para um sistema que não funciona, mas de qualquer forma é preciso ser muito imbecil para não ver que isso pode ter alguma coisa a ver com Rosa Hartung. A nal de contas, ela é a ministra do Bem-Estar Social, e quanto mais se pensa nisso, mais signi cativo é o fato de os assassinatos terem começado mais ou menos na mesma época que ela voltou ao trabalho.
— Hess, você está fazendo um bom trabalho. E eu normalmente não pego no pé das pessoas por causa de problemas de reputação. Mas parece que você acabou de me chamar de imbecil.
— Então você me interpretou mal, é claro. A questão é que quando se acrescenta o fato de que as impressões digitais nos dois bonecos encontrados nas cenas dos crimes são da lha de Rosa Hartung...
— Ouça bem. O seu chefe em Haia pediu uma avaliação da sua competência pro ssional e naturalmente eu quero te ajudar a voltar para os trilhos. Mas isso signi ca que você precisa se concentrar no que é importante. Nós não vamos falar com Rosa Hartung de novo porque isso não é relevante. Entendido?
A informação sobre o seu chefe em Haia deixa Hess surpreso. Por um momento, surpreso demais para responder . Nylander olha para Thulin que acaba de sair da sala de computadores do departamento.
— E aí?
— As denúncias vieram do mesmo servidor na Ucrânia, mas os administradores de lá não costumam colaborar com as autoridades. Na verdade, é o oposto. Talvez a gente consiga um endereço IP em algumas semanas, mas até lá não vai adiantar mais nada.
— Ajuda em alguma coisa se eu perguntar para o ministro da Justiça se ele está disposto a entrar em contato com seu colega na Ucrânia?
— Duvido muito. Mesmo que eles queiram ajudar , vai levar um tempo que nós não temos.
— Nem me fale. Foram apenas sete dias entre a primeira morte e a segunda. Se o assassino for tão louco quanto vocês dizem, não podemos car aqui parados.
— Não precisamos car . As duas mensagens chegaram ao Conselho Tutelar pelo programa de denúncias anônimas, certo? O primeiro chegou há três meses, o segundo, duas semanas depois. Se presumirmos que ambos vieram do assassino , e que ele vai atacar de novo...
— Então ele já mandou uma mensagem anônima sobre a próxima vítima.
— Exatamente. Só tem um problema. Eles disseram que o esquema de denúncias anônimas recebe uma média de cinco mensagens por semana direcionadas ao Centro de Serviços Sociais da Infância e Adolescência. Isso dá um total anual de duzentas e sessenta mensagens. Nem todas são sobre questões de guarda das crianças, mas elas não são classi cadas, então não sabemos com quantas mensagens estamos lidando.
Nylander assente.
— Vou falar com o diretor do departamento. Eles têm bons motivos para nos ajudar . Do que você precisa?
— Hess?
A cabeça dele está latejando e a notícia sobre a aliança entre Nylander e Freimann não ajuda em nada. Hess tenta pensar claramente para responder a Thulin.
— Denúncias anônimas sobre negligência e violência contra crianças nos últimos seis meses. Principalmente contra mães entre vinte e cinquenta anos, em que o denunciante peça que a guarda legal seja tirada delas. Casos que já foram avaliados, mas em que não foram encontrados motivos para intervenção.
O chefe do departamento aparece na porta e olha com ansiedade para eles. Nylander aproveita a oportunidade para dizer do que precisam.
— Mas esses casos não são arquivados em um lugar só. Vai levar tempo para encontrar todos — responde ele.
Nylander olha para Hess, que começou a caminhar de volta para a saleta abafada.
— Então é melhor você colocar todo mundo para trabalhar. Temos muita coisa para resolver , então precisamos disso em uma hora.