As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 121 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 121

 

Hess costumava pensar na morte com indiferença. Não por odiar a vida, mas porque existir era penoso demais. Não buscou ajuda, nem procurou os poucos amigos que tinha. Não aceitou os conselhos que lhe deram. Em vez disso, fugiu. Fugiu o mais rápido que pôde, com a escuridão o perseguindo, e por vezes isso funcionou. Pequenos refúgios em cantos afastados da Europa, onde sua mente recebia novas impressões e novos desa os. Mas a escuridão sempre voltava. Junto com as lembranças e o rosto dos mortos que ele acumulou em todos aqueles anos. Ele não tinha ninguém, não era ninguém, e sua dívida não era com os vivos, então, se a morte chegasse, não faria a menor diferença para ele.

Era assim que se sentia no geral, mas não é essa a emoção que o atinge quando é deixado no porão.

Quando a porta bate atrás de Genz e o fogo começa a se espalhar , ele imediatamente engatinha pelo chão para pegar o instrumento ensanguentado que está caído no chão atrás de Rosa Hartung. É fácil descobrir para o que foi usado, e com os dentes a ados da lâmina ele rapidamente corta o cabo que prende seus pulsos. Ele também o usa para soltar os pés e, a essa altura, o fogo alcançou o meio do aposento. Indo em direção a Rosa, ele agarra o celular e a arma largados aos pés dela. Nuvens de fumaça preta já se acumulam no teto, e ele observa as chamas enquanto solta cada uma das tiras de couro o mais rápido que consegue. Quando o fogo atinge o piso abaixo da maca de metal, ele conseguiu soltar o corpo imóvel de Rosa e levá-lo até um canto onde Genz não jogou gasolina.

Mas é só um paliativo. O fogo já está lambendo as tábuas que cobrem as paredes e logo chegará ao teto, e tanto ele quanto Rosa Hartung estão encharcados de combustível. É uma questão se segundos até as chamas chegarem ao canto em que estão, ou antes que a temperatura do porão que tão alta que eles vão se incendiar espontaneamente. A única saída é pela porta por onde Genz desapareceu, mas é impossível de abrir . A maçaneta já está tão quente que o casaco que Hess tirou para proteger a pele pegou fogo quando tentou girá-la. O tapete negro de fumaça abaixo do teto está cada vez mais grosso , mas então Hess nota um pequeno redemoinho de fumaça passando por entre as tábuas de uma parede em frente a eles. Pegando a serra, ele pressiona os dentes da lâmina na junção e a usa como uma alavanca. Na primeira tentativa, consegue quebrar um pedaço do painel de forma que pode en ar os dedos ali e puxar até arrancar.

Hess encontra uma das janelas do porão, protegida por dentro por duas barras de ferro , e na escuridão do lado de fora vê as luzes traseiras de um carro passando pelo pátio. Ele puxa as barras em desespero e, quando o carro desaparece nas sombras, passa pela sua mente que vai morrer . Ele se vira para o fogo e para Rosa Hartung, aos seus pés, e é o curativo no m de um dos braços que lhe dá a ideia. Agarrando o serrote, volta a atenção para a janela, e seu primeiro pensamento é que as barras não parecem mais grossas do que os ossos que a ferramenta foi usada para cortar. As lâminas cortam a primeira barra como uma faca na manteiga e, depois de mais três cortes, as barras estão soltas. Hess abre o trinco da janela e a empurra.

Com a pele das costas queimando, ele ergue Hartung pelo parapeito , depois se iça até lá e passa por ela engatinhando. Enquanto recua, puxando ela junto, sente as chamas lamberem seu pescoço e suas roupas, mas então cai de costas na neve do lado de fora.

Tossindo, Hess se levanta e começa a arrastar Rosa Hartung pelo pátio . Seu corpo parece que está em chamas e tudo que ele quer é mergulhar na neve para esfriar e descansar os pulmões. Mas, quando está a uns vinte metros de distância da fazenda em chamas, ele apoia Hartung em uma parede de pedra. E então começa a correr .