As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 87 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 87

 

No banco da frente da viatura, Tim Jansen confere os cartuchos no pente da arma e o coloca de volta na sua Heckler & Koch. O reforço vai levar pelo menos dez minutos para chegar , mas isso não é problema. Ele nunca teve a menor intenção de esperar por eles. O assassino de Ricks talvez esteja dentro da casa, e Jansen prefere fazer o confronto inicial e o interrogatório sozinho. Pelo menos agora as pessoas sabem onde ele está, para o caso de ter algum problema e, quando pedirem para explicar por que entrou sozinho, ele sempre pode alegar que não teve escolha, que a situação exigiu que entrasse antes da chegada do reforço.

Jansen sente o vento úmido no rosto quando sai do carro. O velho bairro industrial em Sydhavnen é uma mistura de armazéns enormes, prédios novos, ferros-velhos e uma meia dúzia de residências espremidas entre fábricas. Poeira e lixo voam pelo ar e não há carros na rua enquanto ele caminha em direção à casa.

A construção de dois andares poderia ser confundida com uma residência, mas, quando se aproxima, ele vê o que resta de uma placa em uma parede gasta anunciando que já foi um matadouro. A janela ao lado da porta está coberta por um material preto, bloqueando totalmente a visão da rua, então Jansen segue pela entrada de veículos e chega a um pátio. O grande prédio retangular nos fundos do terreno deve ser o antigo matadouro. Ao longo da lateral da construção há plataformas sob grandes portões usados para carga e descarga. Um pouco afastado, o abatedouro é circundado por um jardim com uma cerca quebrada e três ou quatro árvores frutíferas que parecem prestes a ser arrancadas pelo vento. Jansen segue em direção ao prédio e nota uma porta dos fundos. Não há nenhuma placa, mas tem um capacho e um vaso com um abeto plantado. Bate na porta com uma das mãos, enquanto a outra solta a trava de segurança da arma no bolso do casaco.

 

Para Jansen, os dias desde a morte de Martin Ricks parecem irreais. A sensação de irrealidade começou quando viu o corpo do parceiro no meio das luzes da ambulância e dos latidos dos cachorros da polícia que faziam buscas nos loteamentos de Hammock Gardens. Ao chegar de Urbanplan, ele não sabia de nada sobre o amigo e então, de repente, se viu olhando para algo incompreensível. Primeiro achou que aquela gura pálida não podia ser seu parceiro. Que a morte não podia ter reduzido Ricks àquele corpo inerte aos seus pés. Mas foi exatamente assim. E embora nas horas que se seguiram Jansen tivesse quase esperado que Ricks aparecesse para brigar com alguém por tê-lo deixado largado sobre o cascalho por tanto tempo, isso não aconteceu.

Viraram parceiros quase por acaso, mas como Jansen bem lembrava, estavam em sintonia desde o primeiro dia. Ricks possuía exatamente as qualidades que o tornavam um parceiro suportável. Não era particularmente inteligente, nem respondão — na verdade, ele não falava muito —, no entanto, era extremamente obstinado e leal quando você o conquistava. Além disso, Ricks nutria uma descon ança saudável em relação a quase tudo e todos, provavelmente por ter sido tão sacaneado quando era criança, e Jansen rapidamente percebeu como poderia aproveitar todo o potencial do cara. Se ele era a cabeça, então Ricks era o corpo, e eles logo passaram a compartilhar uma aversão natural pelos chefes e pelos advogados, porque essas pessoas não sabiam nada sobre o trabalho policial. Juntos eles prenderam tantos motoqueiros, paquistaneses, maridos abusivos, estupradores e assassinos que deviam ter recebido uma chuva de promoções e medalhas até se aposentarem. Mas não era assim que a sociedade funcionava. As bênçãos do mundo não eram distribuídas de forma justa. Eles costumavam conversar sobre isso, comemorando seus feitos nos bares e boates até estarem bêbados ou acabarem em um pequeno bordel em Ydre Østerbro.

Tudo isso acabou. O único agradecimento que Ricks ia receber era o nome gravado ao lado de outros no memorial da delegacia. Jansen não é um cara sentimental, mas, quando chegou ao trabalho na manhã do dia anterior , sentiu o peso de caminhar pelo pátio colunado sabendo daquilo. Ficou em casa por dois dias. Na noite do assassinato , estava chocado demais para ajudar de qualquer forma além de informar à noiva de Ricks o que tinha acontecido e, mais tarde naquela noite, sua esposa acordou e o encontrou apático, sentado na sala totalmente escura, em Vanløse. No dia seguinte, sua família foi a uma festa de aniversário, enquanto ele cou em casa montando uma estante de livros no quarto do lho. Mas as instruções eram incompreensíveis e, por volta das dez e meia da manhã, Jansen começou a beber vinho branco. Quando a esposa chegou em casa com os lhos naquela tarde, ele tinha cambaleado até o barracão do jardim, tomando vodca com Red Bull, e quando acordou no chão soube que precisava voltar logo ao trabalho.

Segunda-feira foi seu primeiro dia de volta. A delegacia estava fervilhando de atividade e objetivo, e as pessoas o cumprimentaram com um aceno compassivo. Nylander se recusou a permitir que continuasse no caso, é claro. Então ele juntou alguns colegas no vestiário e deixou claro que, assim que recebessem qualquer informação importante sobre o assassino, queria ser informado. Alguns pareceram não concordar , mas outros compartilhavam sua opinião: que Ricks tinha morrido porque Hess e Thulin não estavam prontos para lidar com aquilo. Além disso, um deles era responsável por vazar a informação para a imprensa. Provavelmente Hess. E as constantes dúvidas que ele levantava em relação ao caso Hartung eram um tapa ainda maior na cara, agora que Ricks tinha sido assassinado.

Infelizmente, as coisas ainda estavam paradas quando seus colegas foram enviados para o ministério naquela manhã. Jansen não tinha nada de importante para fazer , então seguiu até o subúrbio de Greve, comprou seis latinhas de cerveja em um quiosque no caminho e tomou algumas antes de bater na porta do pequeno apartamento perto da estação de metrô onde Ricks morara. A noiva dele estava em lágrimas. Ele foi convidado a entrar e tinha acabado de aceitar uma xícara de chá quando um dos detetives ligou do ministério. Tinham algumas teorias — pessoas que possuíam bons motivos para odiar o Estado, o sistema, o Ministério do Bem-Estar Social e o mundo como um todo. Jansen cou ouvindo as opções e um dos casos pareceu oferecer um motivo mais forte. Depois de se certi car de que Thulin e Hess não tinham sido informados, desligou, pediu licença para a noiva de Ricks e seguiu direto para o endereço de Sydhavnen.

 

— Quem é? — respondeu uma voz atrás da porta.

— Polícia. Abra!

Jansen bate impacientemente, a mão segurando a arma no bolso. A porta se abre e um rosto enrugado , com expressão preocupada, aparece. Jansen esconde a surpresa. É uma velha e ele sente o cheiro de cigarro e comida estragada vindo de dentro da casa.

— Preciso falar com Benedikte Skans e Asger Neergaard — diz Jansen, repetindo os nomes que seus colegas no ministério passaram, mas a velha nega com a cabeça.

— Eles não moram mais aqui. Se mudaram há uns seis meses.

— Mudaram? Para onde?

— Sei lá. Eles não disseram. Do que se trata?

— Você mora aqui sozinha?

— Moro, sim. Mas não me lembro de ter deixado você usar esse tom comigo.

Jansen hesita por um momento. Não esperava uma coisa dessas. A velha começa a tossir e se enrola mais no casaco contra o frio que vem da rua.

— Tem mais alguma coisa em que eu possa ajudar?

— Deixa pra lá. Sinto muito por incomodar .

— Adeus, então.

Jansen se afasta e a velha fecha a porta. Por alguns segundos ele não tem certeza do que fazer . A resposta da mulher o pegou desprevenido. Está prestes a voltar para o calor do carro e ligar para os colegas no ministério quando seu olhar é atraído por um movimento na janela do segundo andar . Ele se dá conta de que está olhando para um móbile pendurado no teto. Um móbile de passarinhos, do tipo que se pendura acima de um berço, e Jansen sabe imediatamente que aquilo não deveria estar ali se a velha estivesse dizendo a verdade sobre Benedikte Skans e Asger Neergaard terem se mudado.

Bate novamente, com mais força dessa vez. Quando a velha

nalmente abre a porta, ele a empurra para passar , entrando na casa e

sacando a arma. A mulher grita em protesto. Ele segue resoluto pelo corredor , entra na cozinha e caminha até a sala que fora a loja. Depois de se assegurar que está vazia, vai para as escadas que a velha tenta bloquear com o próprio corpo.

— Saia do caminho!

— Não há nada lá em cima. Você não pode...

— Cale a boca e saia da minha frente!

Jansen grita e a empurra, subindo a escada com a mulher choramingando atrás dele. Com a arma em riste e o dedo no gatilho, vai abrindo todas as portas. As duas primeiras são quartos normais, mas a última é um quarto de bebê.

O móbile está pendurado em cima do berço, mas não há ninguém ali e, por um instante, Jansen acha que cometeu um erro. Então nota uma parede atrás da porta e sabe imediatamente que descobriu quem matou Martin Ricks.