As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 116 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 116

 

A luz é forte, cegante. Ela pisca e se esforça para abrir os olhos, e a primeira coisa que nota é o teto e as paredes brancos. À esquerda, um pouco afastada da parede, consegue ver uma mesa baixa de aço que cintila à luz, e isso combinado com os monitores na outra parede a fazem crer que está em um hospital. Está deitada em uma cama de hospital e tudo não passou de um sonho horrível, mas, quando tenta se sentar, percebe que não consegue. Não está deitada em uma cama, e sim em uma mesa cirúrgica, também de aço. Seus braços e pernas estão nus e presos com faixas de couro xas na mesa. A visão a faz gritar , mas a tira que segura sua cabeça passa através da boca aberta, abafando os gritos que saem incompreensíveis.

— Oi de novo. Você está bem?

Rosa se sente tonta e não consegue vê-lo.

— O efeito vai passar em dez minutos, mais ou menos. Nem todo mundo sabe disso, mas castanhas-da-índia contêm esculina, um veneno que é tão e caz quanto o clorofórmio, se você zer a mistura correta.

Os olhos de Rosa se alternam de um lado para outro. Mesmo assim, tudo que consegue é ouvir a voz dele.

— De qualquer maneira, temos muita coisa para fazer , então é melhor você tentar car bem acordada a partir de agora. Combinado?

De repente, ele entra no seu campo de visão, usando um macacão branco de plástico. Em uma das mãos está segurando uma mala de viagem, que coloca em cima da mesa de aço, e, enquanto ele se debruça para abri-la, ela o ouve dizer que a história de Kristine começou no dia em que ele de repente reconheceu Rosa no noticiário, depois de anos de busca.

— Eu realmente tinha começado a pensar que nunca ia te encontrar . Mas você deixou de ser uma desconhecida no parlamento e foi promovida a ministra do Bem-estar Social. Imagine a ironia. Eu só te encontrei por causa disso...

Rosa percebe que o macacão que ele usa é idêntico ao dos técnicos da polícia. O homem também usa uma máscara branca que cobre a boca e uma touca azul, e abre a mala com mãos enluvadas. Quando Rosa força a cabeça para a esquerda, consegue ver dois buracos no interior acolchoado. Ele está bloqueando o conteúdo do primeiro, mas ao fundo ela vê um lustroso bastão de metal. Uma das pontas tem uma bola metálica do tamanho de um punho fechado, coberta por pequenas farpas a adas. Na outra, o cabo de metal se a na para formar um furador de uns cinco ou seis centímetros. Ela se contrai e força as faixas de couro enquanto ouve a voz do homem contando que descobriu por que ele e a irmã foram transferidos para a Fazenda do Castanheiro ao acessar um antigo arquivo do Conselho Tutelar de Odsherred.

— Você era só uma garotinha inocente, é claro, tentando lidar com a frustração. Mas a sua mentirinha nunca foi descoberta e sempre que você aparecia na televisão e começava a falar sobre as pobres crianças, eu sabia pela expressão do seu rosto que você já tinha se esquecido daquilo.

Rosa grita. Quer dizer que não é verdade, mas os sons que emite mais parecem berros de animais selvagens e, com o canto dos olhos, percebe quando ele tira o objeto do primeiro orifício.

— Por outro lado, eu achei que a morte era muito pouco para você. O que eu realmente queria era te mostrar o sofrimento que você causou. Só não sabia como. Até que eu descobri que você tinha uma

lha, com mais ou menos a mesma idade que a minha irmã tinha... E

foi aí que me veio a ideia. Comecei a estudar a sua rotina, principalmente a de Kristine, é claro, e já que ela não era muito esperta, mimada por aquela vidinha de rico, foi bem fácil criar um plano. Tudo que eu tive que fazer foi esperar o outono. Aliás, foi você que ensinou sua lha a fazer srs. Castanha?

Rosa tenta analisar o aposento. Não há janelas, escadas, nem portas na sua linha de visão. Mesmo assim, começa a gritar sistematicamente, embora a maior parte do som seja abafada pela faixa de couro. O som enche a sala e lhe dá a energia de que precisa para tentar se soltar . Mas então a voz de repente está muito mais perto, e ela percebe que ele está mexendo em alguma coisa ao lado do seu corpo.

— Foi algo muito especial de ver . Naquele ponto, eu não sabia como poderia usar aquilo, mas vi que tinha certa poesia, ela vendendo bonecos de castanha na estrada junto com a amiga. Isso na verdade me segurou por alguns dias, mas depois eu a segui quando ela saiu do ginásio, como já tinha feito tantas vezes antes. Apenas algumas ruas antes da sua casa, eu a abordei pedindo informações sobre como chegar a Rådhuspladsen, para poder en á-la na van. Eu a droguei e larguei a bicicleta e a mochila na oresta para a polícia ter com o que se ocupar , então nós partimos. Ela foi muito educada. Isso eu posso dizer . Inocente e amigável. E, acredite, você só consegue isso se tem os pais certos...

Rosa está chorando. Seu peito sobe e desce no ritmo dos soluços, que forçam caminho pela sua boca e tentam escapar. Ela é dominada pelo senso de que merece estar ali. A culpa é dela, e ela merece a punição. Não importa o que tenha acontecido, ela não cuidou da lha.

— Mas então... O mais engraçado é que essa história tem quatro capítulos, e esse foi apenas o primeiro. Vamos fazer uma parada agora. Depois eu conto mais. Que tal?

Um barulho ensurdecedor surge de repente e Rosa tenta virar a cabeça. O instrumento é de aço ou alumínio, talvez do tamanho de um ferro de passar . Tem duas alças, uma placa de metal e uma guia soldada à mão. Rosa leva um instante para perceber que o barulho está vindo das lâminas girando na frente do instrumento. De repente, compreende por que seus braços e suas pernas estão para fora da beirada da cama e, quando o serrote atinge os ossos do seu pulso, começa a gritar novamente sob a faixa de couro.

 

— Você está bem? Está me ouvindo?

A voz a alcança, e a luz branca e forte pisca de novo diante dos seus olhos. Rosa tenta se orientar e se lembra do que aconteceu antes de perder a consciência. Por um momento ca aliviada porque foi só isso, mas então sente a paralisia no seu lado esquerdo. Quando se vira para olhar , o pânico volta. Uma grande braçadeira de plástico preto impede que o sangue jorre do ferimento aberto onde sua mão esquerda costumava existir , e no balde azul no chão ela consegue ver a ponta de alguns dedos.

— O segundo capítulo começa neste porão. Quando vocês começaram a perceber que havia algo de errado, Kristine e eu já estávamos aqui.

Ela ouve a voz enquanto ele caminha até o outro lado, segurando o instrumento e o balde azul. Há borrifos de sangue, o sangue dela, no macacão branco, até a altura do ombro, e na máscara que cobre a boca.

— Eu sabia que o desaparecimento dela viraria o país de cabeça para baixo, então estava preparado. O porão era bem diferente naquela época, e eu arrumei tudo de forma que mesmo que alguém viesse até a fazenda não encontrasse nada. Mas Kristine cou bastante surpresa, é claro, quando acordou aqui em baixo. Assustada, talvez seja uma palavra melhor. Tentei explicar que eu precisava que ela me desse sua mãozinha para eu fazer um corte rápido para poder usar seu DNA para chamar a atenção da polícia para outra pessoa. E ela aceitou com muita coragem. Mas na maior parte do tempo ela cava sozinha, por causa do meu trabalho em Copenhague. Eu sei que você deve estar se perguntando como ela se sentiu. Se estava triste ou com medo, e a resposta sincera é sim, ela estava sentindo tudo isso. Ela pediu e implorou para voltar para você. Foi muito tocante, mas nada dura para sempre e, depois que a tempestade passou, cerca de um mês depois, chegou a hora de dizer adeus.

As palavras dele doem mais que a ferida no braço. Rosa chora novamente, e é como se seu peito estivesse sendo rasgado.

— Esse foi o segundo capítulo. Agora vamos fazer mais uma parada. Tente não apagar por tanto tempo dessa vez. Eu não tenho o dia todo .

Ele coloca o balde azul embaixo da mão direita e Rosa implora que ele pare, mas tudo que sai de sua boca são ruídos sem sentido. O instrumento é ligado, as placas começam a girar , e ela berra de agonia enquanto a lâmina mergulha no seu pulso. Seu corpo contrai e se arqueia enquanto sente os dentes da lâmina deslizarem pelo osso e pelo tendão, decepando sua mão. A dor é inconcebível. E continua mesmo depois que o aparelho é desligado. Os gritos de Rosa são abafados pelo som de um alarme que atrai a atenção do homem, fazendo-o parar o que está fazendo. Ele se vira para os monitores na parede em frente, o instrumento ainda na mão, e Rosa tenta seguir os olhos dele. Em uma das telas, consegue ver alguma coisa se mexendo, e percebe que está assistindo às imagens das câmeras de segurança. Algo se aproxima. Um carro , talvez. É a última coisa que passa por sua mente antes de tudo car preto.