As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 20 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 20

 

Quando a porta da frente da villa se abre e Thulin olha para Steen Hartung, arrepende-se imediatamente de ter ido até lá. Ele está de avental, segurando um copo medidor , há alguns grãos de arroz nas mãos, e sua expressão deixa bem claro que estava esperando outra pessoa.

— Steen Hartung?

— Pois não?

— Sentimos muito incomodá-lo. Somos da polícia.

A expressão no rosto do homem muda. É como se alguma coisa se quebrasse dentro dele ou como se fosse trazido de volta para uma realidade da qual tinha se esquecido por um tempo.

— Podemos entrar?

— Do que se trata?

— Vai levar apenas um minuto, mas é melhor conversarmos lá dentro .

 

Thulin e Hess olham constrangidos ao redor da sala espaçosa, enquanto aguardam em silêncio. Além das portas de vidro que dão para o pátio, as luzes do jardim estão apagadas. A mesa de jantar está posta para três pessoas sob um grande lustre Arne Jacobsen, e o aroma de ensopado vem da cozinha. Thulin sente um impulso repentino de sair correndo antes que Steen Hartung volte. Ela lança um olhar para o colega, que está de costas para ela. Sabe que não pode esperar nenhuma ajuda dele.

Depois da conversa com Genz no Departamento Forense, Thulin telefonou para Nylander , que atendeu irritado por ser interrompido em uma reunião. Seu humor não melhorou muito quando ela explicou o motivo da ligação. Primeiro ele cou incrédulo, insistindo que só podia ser um erro, mas, ao saber que Genz tinha refeito o teste um milhão de vezes, cou em silêncio. Apesar de sua impressão geralmente negativa do departamento, Thulin sabia que Nylander estava longe de ser burro, então cou claro que ele levou a informação a sério. Disse que deveria existir alguma explicação lógica, alguma conexão simples sobre a qual eles não sabiam, por isso os enviou à casa da família Hartung. Pessoalmente, Thulin não conseguia imaginar nenhuma explicação lógica.

Hess não tinha falado muito. No caminho, Thulin contou a versão resumida do caso de Kristine Hartung. Ela não estava no departamento na época, mas naturalmente o caso foi assunto de muitas conversas na delegacia e houve muita cobertura da mídia depois que foi encerrado. Aliás, ele ainda está encerrado. Kristine Hartung era lha de Rosa Hartung, uma política e ministra do Bem-Estar Social que acabou de retornar ao trabalho. A lha de doze anos desapareceu no caminho de casa, voltando de um treino esportivo, menos de um ano antes. Sua bolsa e bicicleta foram encontradas na

oresta e, algumas semanas depois, um jovem nerd chamado Linus

Bekker foi preso. O cara tinha vários crimes sexuais em sua cha, e o peso das evidências forenses foi decisivo. Durante o interrogatório na delegacia, Bekker confessou ter violentado Kristine antes de estrangulá-la e cortar seu corpo em pedacinhos com um facão — manchado com o sangue de Kristine — descoberto em sua garagem. De acordo com o próprio testemunho, ele enterrou as diversas partes do corpo em diferentes locais da oresta na parte norte de Zelândia, mas Bekker , que foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide, não foi capaz de mostrar as localizações exatas para a polícia e, depois de dois meses de uma investigação intensa, envolvendo muitos recursos, eles desistiram quando o chão começou a congelar, tornando a tarefa impossível. Bekker foi condenado na primavera sob um poderoso escrutínio midiático e recebeu a punição mais dura possível: detenção em um manicômio por período indeterminado. Na realidade, aquilo queria dizer que ele caria tranca ado lá por pelo menos quinze ou vinte anos.

Thulin ouve o rádio ser desligado e Steen Hartung volta da cozinha.

— A minha esposa está lá em cima. Se vocês estão aqui porque... — Ele gagueja em busca das palavras. — Se foi sobre algo que vocês encontraram... Eu gostaria de saber antes de contar para a minha esposa.

— Nós não encontramos nada. Não tem a ver com isso.

O homem olha para ela. Está aliviado, mas também cauteloso e procurando entender: ele sabe, é claro, que deve existir um motivo para estarem ali.

— Estávamos examinando uma cena de crime hoje mais cedo e encontramos um objeto com uma impressão digital que muito provavelmente pertence à sua lha. Para ser bem especí ca, a impressão digital foi encontrada em um bonequinho feito com castanhas. Trouxe uma fotogra a do boneco e gostaria que o senhor desse uma olhada.

Ela estende a fotogra a, mas Steen Hartung só olha de relance, parecendo ter mergulhado em um estado de total perplexidade, antes de encarar Thulin novamente.

— Não é cem por cento certo que a impressão seja realmente dela, mas existe uma grande probabilidade que sim, então precisamos tentar descobrir o motivo de a termos encontrado.

Hartung pega a foto que Thulin colocou sobre a mesa de jantar .

— Eu não entendo. Uma impressão digital...?

— Exatamente. Nós encontramos em um parque em Husum. No número sete da rua Cedervænget, para ser bem precisa. Esse parque e esse endereço especí cos signi cam alguma coisa para o senhor?

— Não.

— E quanto a uma mulher chamada Laura Kjær? Ou seu lho, Magnus, ou um homem chamado Hans Henrik Hauge?

— Não.

— É possível que sua lha talvez conhecesse a família? Ou outra família da região? Ou talvez tivesse algum amigo por lá ou tenha visitado alguém ou...

— Não. Nós moramos aqui. Eu não entendo o que isso signi ca.

Por um momento Thulin não sabe o que dizer .

— Deve haver uma explicação lógica. Se a sua esposa estiver em casa, nós poderíamos perguntar sobre...

— Não. Vocês não vão perguntar nada para a minha esposa. — Hartung os fulmina com o olhar.

— Sentimos muito, mas precisamos descobrir o que isso signi ca.

— Eu estou pouco me fodendo. Vocês não vão falar com a minha esposa. As minhas respostas valem tanto quanto as dela. Nós não sabemos nada sobre essa impressão digital e não conhecemos o lugar que vocês mencionaram, e eu não entendo por que isso é tão importante!

Steen Hartung percebe de repente que Thulin e Hess estão olhando para algo atrás dele. Sua esposa tinha descido a escada e está olhando para eles do hall.

Por um momento, ninguém diz nada. Rosa Hartung entra na sala de estar e pega a fotogra a que Steen largou, cheio de raiva. Thulin pensa novamente em sair correndo e está cada vez mais irritada com Hess, que se mantém totalmente em silêncio.

— Sinto muito incomodá-la. Nós...

— Eu ouvi.

Rosa Hartung observa a foto do sr. Castanha como se esperasse encontrar alguma coisa. O marido começa a levá-los em direção à porta.

— Eles já estão de saída. Eu já disse que não sabemos de nada. Então , se nos derem licença.

— Ela os vendia na estrada principal...

Steen Hartung para perto da porta e se vira para a esposa.

— Todo outono. Com Mathilde, uma colega da escola. Elas se sentavam aqui e faziam um monte deles...

Rosa Hartung olha da foto para o marido e Thulin pode ver claramente o momento em que a lembrança cruza sua mente.

— Vendiam como? — pergunta Hess, aproximando-se.

— Elas tinham uma banquinha. Ofereciam para pedestres ou pessoas que paravam de carro. Elas também faziam bolos e suco. Dava para comprar o lanche e um desses bonecos...

— E elas zeram isso no ano passado também?

— Fizeram... Elas se sentaram bem aqui, nesta mesa. Colheram as castanhas no jardim e se divertiram bastante. No verão, elas organizavam um bazar , mas... mas ela gostava mais do outono, se tivéssemos tempo de fazer isso juntas. Eu me lembro porque foi no m de semana anterior ... — A voz de Rosa morre. — Por que isso é importante?

— É algo que precisamos investigar . Em relação a outro caso.

Rosa não fala mais nada. O marido está a um passo de distância, e é como se ambos estivessem prestes a desmoronar . Thulin pega a foto como se fosse um salva-vidas.

— Muito obrigada pelas informações. Temos tudo de que precisamos. Pedimos desculpas pela interrupção.