As Sombras de Outubro
Capítulo 86
O portão está se abrindo devagar, mas Hess não consegue esperar . Enquanto Thulin pega seus pertences de volta com o guarda atrás do vidro à prova de balas, ela o vê se espremendo pela abertura parcial e se apressando para o estacionamento. Quando o segue, o ar frio e úmido parece libertador , e ela respira fundo para se livrar de Linus Bekker .
Eles foram expulsos de lá. Dr . Weiland exigiu uma explicação para o incidente na sala de visitas. Bekker foi bastante convincente. Temeroso e ansioso, ele se afastou de Hess e Thulin como se tivesse sofrido danos físicos ou psicológicos. Para o médico, ele disse que Hess o “agarrou” e cou fazendo “perguntas estranhas sobre morte e assassinato”, e o médico cou do lado dele. Não adiantou argumentar contra as acusações; Hess e Thulin não tinham achado necessário gravar a conversa e, de qualquer forma, o celular deles estava com os guardas. A visita à ala de segurança do hospital psiquiátrico foi uma catástrofe. Ouvir os recados deixados no celular não melhorou em nada o humor de Thulin. Enquanto estavam lá, seu telefone tocou sete vezes e, quando ouve o primeiro recado, ela começa a correr na chuva em direção ao carro.
— Temos que voltar para o ministério. Eles encontraram alguns casos que precisamos veri car .
Thulin chega ao carro e o destranca, mas Hess continua parado na chuva.
— O ministério não importa. O assassino não vai mexer em nenhum dos casos para os quais ele mesmo nos guiou. Você não ouviu o que o Bekker acabou de falar?
— Eu ouvi um psicopata falando besteira e você enlouquecendo. Nada mais.
Thulin abre a porta, entra e larga a arma de Hess e seus pertences no banco do passageiro. Ela confere a hora no relógio do painel do carro e se dá conta de que vai ter que pedir para o avô tomar conta de Le de novo. Hess mal pisou no carro quando ela dá partida e sai.
— Bekker sabia que nós viríamos. Estava esperando por isso desde que foi condenado . Sabe quem estamos procurando — a rma Hess enquanto fecha a porta.
— Ele não sabe porra nenhuma. Linus Bekker é um criminoso pervertido que leu alguma coisa na legenda da televisão. Ele queria nos provocar e você caiu como um patinho. No que estava pensando?
— Ele sabe quem a levou.
— Merda nenhuma. Ele é culpado. O mundo todo sabe que a garota está morta e enterrada. Só você parece não acreditar nisso. Por que cargas d’água ele ia confessar a porra de um crime que não cometeu?
— Porque ele de repente percebeu quem cometeu. Alguém por quem estava disposto a assumir a culpa, porque, na cabeça doente dele, sentiu que tudo isso faz parte de um plano grandioso. Alguém que ele admira, alguém que ele tem como exemplo. Quem Linus Bekker consideraria um exemplo?
— Ninguém. O cara é louco de pedra. Ele só se interessa por morte e destruição.
— Exatamente. Alguém que seja perito no que Bekker mais valoriza. Ele deve ter visto alguma coisa no arquivo de fotos de cena de crime que invadiu.
Ela demora a entender do que ele está falando. Mas assim que entende, mete o pé no freio, quase causando um acidente com um enorme caminhão que desvia deles pela estrada açoitada pela chuva. Uma leira de carros segue o caminhão, enquanto Thulin sente o olhar de Hess.
— Desculpe se eu passei dos limites. Aquilo foi errado. Mas se Linus Bekker está mentindo, isso signi ca que ninguém sabe o que aconteceu com Kristine Hartung. Nem mesmo se ela está realmente morta.
Thulin não responde. Acelera novamente enquanto liga para alguém. Hess tem razão. Por mais irritante que isso seja. Demora um pouco , mas Genz atende. A conexão está ruim e soa como se ele estivesse em um carro também.
— Ei, por que eu não consegui falar com vocês? Como foi com Bekker?
— É por isso que estou ligando. Você tem acesso a todas as fotos de cenas de crime que ele viu? As fotos do arquivo que ele invadiu.
Genz parece surpreso.
— Acho que sim, mas vou ter que veri car. Por quê?
— Explico depois. Mas precisamos saber em quais fotos Bekker demonstrou mais interesse. Será que é possível rastrear quais eram as imagens favoritas dele? Fazer uma lista das mais clicadas? Além das que ele salvou no próprio computador, se tiver salvado. Achamos que pode ter uma pista importante aí, então precisamos disso o mais rápido possível. Só garanta que Nylander não saiba disso, está bem?
— Pode deixar comigo. Posso falar com um dos caras de TI quando eu voltar . Mas não é melhor esperar até sabermos se Jansen está certo?
— Jansen?
— Ele não ligou para vocês?
Thulin ca nervosa. Esqueceu completamente Jansen desde o breve encontro com ele naquela manhã, quando estavam saindo da sala de Nylander . Ele parecia um zumbi. Retraído e mudo. Ela cou mais tranquila quando viu que Nylander ia conversar com ele e acabar mandando-o de volta para casa. Algo lhe diz que não foi isso que aconteceu.
— Por que Jansen teria nos ligado?
— Para falar sobre o endereço em Sydhavnen. Eu ouvi quando ele pediu apoio pelo rádio, há um tempinho. Falou que seu instinto lhe disse que os suspeitos estavam lá dentro.
— Suspeitos? Que suspeitos? Jansen não está no caso.
— Ah, tá. Parece que ele não sabe disso. Agora ele está invadindo uma casa onde acha que os assassinos estão reunidos.