As Sombras de Outubro
Capítulo 49
Ninguém que esteja visitando a ala pediátrica do Rigshospital em Blegdamsvej deixa de parar para admirar o mural contendo os inúmeros desenhos coloridos, grandes e pequenos, pendurados no corredor . Hess não é exceção. É tanto sofrimento e gosto pela vida em um só lugar que ele não consegue afastar os olhos da parede, enquanto Thulin segue até a recepção para anunciar sua chegada.
A menção de Sejer-Lassen à internação da lha no Rigshospital fez os dois se lembrarem da carta pendurada no quadro de avisos na cozinha de Laura Kjær sobre o checkup do lho. No caminho para a cidade, Hess telefonou para lá e eles con rmaram que tanto o lho de Laura Kjær quanto a lha mais velha de Anne Sejer-Lassen tinham sido pacientes ali, mas a enfermeira com quem conversou não foi capaz de dar mais informações úteis, quanto mais dizer se a estadia das crianças foi na mesma época. Então eles foram ao hospital, principalmente porque era o único fato em comum que tinham para investigar , e também porque o Rigshospital cava no caminho de volta para a delegacia. Já que o dia não tinha resultado em nada de útil, parecia a coisa certa a fazer . Além disso, caram sabendo por Nylander que Rosa Hartung e seu marido não puderam contribuir com nada novo sobre Anne Sejer-Lassen, o que não ajudou a melhorar o clima entre eles.
Hess observa Thulin voltar da recepção, mas ela evita olhar para ele e segue para a garrafa térmica com café para os visitantes.
— Estão tentando entrar em contato com o clínico geral responsável. De acordo com os arquivos, ele cuidou dos casos das duas crianças.
— Então nós vamos conversar com ele agora?
— Eu não sei. Se você quiser fazer outra coisa, por mim tudo bem.
Hess não responde e em vez disso começa a olhar à volta com impaciência. Há crianças doentes e precisando de ajuda por todos os lados. Crianças com rostos lanhados, braços em tipoias, pernas engessadas. Crianças carecas, crianças em cadeiras de rodas e crianças andando por ali empurrando o suporte de soro. Bem no meio , está a sala de atividades, cercada com paredes de vidro e uma porta azul decorada com balões e galhos outonais. O som de crianças cantando atrai Hess para a porta, que está encostada. Lá dentro, algumas das mais velhas estão desenhando em um canto, enquanto as menores formam um semicírculo, sentadas em banquinhos coloridos de plástico do outro lado. Estão cantando viradas para uma mulher que segura uma imagem com um desenho fofo de uma maçã vermelha.
Sr. Maçã, onde está? Sr. Maçã, o que tem para me dar? Aqui estou, aqui estou, tenho maçãs para daaaar ...
A mulher assente de forma encorajadora para as crianças e, depois que cantam a última palavra, alongando a sílaba nal bem alto, ela coloca o desenho da maçã na mesa e pega o desenho de uma castanha.
— Bem alto agora!
Sr. Castanha, onde está? Sr. Castanha, o que tem para me dar? Aqui estou, aqui estou, tenho castanhas para dar...
As palavras provocam um frio na espinha de Hess. E ao se afastar da porta percebe que Thulin está olhando para ele.
— Vocês são os pais de Oskar? Vieram buscar o exame de raio X?
Uma enfermeira se aproxima deles e Thulin, que acabou de tomar um gole do café, engasga e começa a tossir .
— Não, não somos nós — responde Hess. — Nós somos da polícia e queremos falar com o clínico geral.
— Acho que ele ainda está fazendo a ronda.
A enfermeira é bonita. Olhos escuros brilhantes e cabelo castanho comprido preso em um rabo de cavalo. Deve ter uns trinta anos, mas algum tipo de seriedade contida em seu rosto faz com que pareça mais velha.
— Vamos ter que interromper . Por favor, avise que estamos com pressa.