As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 113 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 113

 

Outono , 1987

As mãos do menino estão sujas, ele tem terra embaixo das unhas. Está tentando fazer um buraco na castanha com um furador , mas Rosa precisa ensinar a ele. Não é para golpear , mas sim furar. Vai virando o furador até que ele penetre na casca da castanha. Primeiro faz o buraco para o pescoço nas duas castanhas, depois en a metade de um fósforo rmemente em uma delas antes de colocar a outra por cima. Então , pega o furador novamente e faz os buracos para os braços e as pernas — os buracos precisam ser fundos para que os palitos de fósforo quem bem presos.

É a garota quem aprende primeiro. É como se os dedos do garoto fossem pesados e insensíveis demais, e as castanhas cam caindo de suas mãos na grama molhada, então Rosa as pega de volta para que ele tente outra vez. Ela e a menina riem dele. Não é um riso de deboche e o menino não vê assim. Bem, talvez no início, nas primeiras vezes, quando se en aram no mato sob o castanheiro para catar castanhas com a mãe e o pai. Depois foram para o quintal dos fundos, onde estão agora, nos degraus de uma velha casinha de boneca entre as folhas vermelhas e amarelas, e Rosa riu de como ele se atrapalhava com as castanhas. Ele parecia assustado, assim como a irmã, mas Rosa os ajudou e eles entenderam que o riso dela não era maldoso.

— Sr . Castanha, onde está? Sr . Castanha, o que tem para me dar?

É Rosa quem canta enquanto mostra para o garoto o que precisa fazer para terminar seu sr. Castanha também e colocá-lo no aparador junto com os outros que zeram. Ela explica para os gêmeos que quanto mais bonecos zerem, mais dinheiro vão ganhar quando os venderem na banquinha da estrada. Rosa nunca teve irmãos, e, embora saiba que os gêmeos não vão car para sempre, provavelmente nem até o Natal, ela não quer pensar nisso. Adora vê-los ali quando acorda. Nas manhãs de sábado e domingo, quando eles não têm aula, ela cruza a casa até o quarto de hóspedes, que ca

afastado do quarto dos pais, e mesmo quando os acorda, os gêmeos não se zangam. Eles esfregam os olhos para afastar o sono e esperam que ela diga o que vão fazer . Os dois prestam muita atenção nas brincadeiras que Rosa propõe, e ela não se importa que eles não falem muito e nunca sugiram nada. Ela está sempre ansiosa para contar o que podem fazer e é como se sua cabeça estivesse sempre cheia de ideias e invenções, agora que tem uma plateia além da mãe e do pai, que em geral só exclamam “ Ah!” e “Muito bem” ou “Veja só!”.

— Rosa, você pode vir aqui um minuto?

— Agora não, mãe. Estamos brincando .

— Rosa, venha cá. Não vai demorar .

Rosa corre pelo gramado e passa pela horta, onde o pai deixou a pá en ada na terra entre as batatas e os arbustos de groselha.

— O que foi?

Ela se remexe impaciente na porta da despensa, mas a mãe manda que tire as botas e entre na despensa. Rosa ca surpresa de ver os pais lá dentro, ambos com um sorriso esquisito, e percebe que eles provavelmente estavam observando enquanto brincavam do lado de fora.

— Você gosta de brincar com Toke e Astrid?

— Claro. O que foi? Estamos ocupados.

Estava irritada por ter que car ali, em sua capa de chuva, enquanto os gêmeos esperavam por ela na casinha de boneca. Se terminarem os bonecos naquela manhã, podem pegar os engradados na garagem antes do almoço, então não têm tempo a perder.

— Decidimos adotar Toke e Astrid, para que possam car aqui para sempre. O que você acha?

A máquina de lavar começa a funcionar atrás de seu pai enquanto os dois adultos a encaram.

— Eles passaram por muita coisa. Precisam de um bom lar , e o seu pai e eu achamos que poderia ser aqui com a gente. Se você concordar . O que você acha?

A pergunta pega Rosa de surpresa. Não sabe o que pensar . Pensou que eles fossem oferecer algum lanche, um refresco ou alguns biscoitos. Mas não era isso que estavam perguntando. Então ela responde o que eles querem ouvir .

— Sim, claro.

No instante seguinte, a mãe e o pai saem pelo jardim molhado, mamãe de galocha e papai de chinelo. E ela percebe que estão felizes. Não estão com capa de chuva, nem com casaco, mas seguem até a casa de boneca onde os gêmeos estão sentados nos degraus, ainda ocupados com os srs. Castanha. Rosa ca parada na porta da despensa, onde eles lhe deram a notícia. Não consegue ouvir o que estão dizendo, mas a mãe e o pai se sentam ao lado dos gêmeos e começam a conversar. Rosa vê o rosto dos gêmeos. De repente, a garota dá um abraço no pai. O garoto começa a chorar . Só ca ali, chorando . A mãe passa o braço pelos ombros dele para consolá-lo, e os pais trocam um olhar e sorriem de um jeito que Rosa não se lembra de ter visto antes. O céu parece desabar nesse momento. A chuva cai pesadamente, enquanto Rosa ca parada na porta e os outros se encolhem sob o teto da pequena casa de boneca e riem.

 

— Nós entendemos completamente a sua decisão. Onde eles estão?

— No quarto de hóspedes. Vou buscá-los.

— E como está a sua lha?

— Está bem, considerando tudo.

Rosa está sentada à mesa da cozinha, mas escuta claramente as vozes no corredor . Mamãe passa pela porta e segue para o quarto de hóspedes, enquanto papai ca na sala com o homem e com a mulher . Rosa acabou de ver pela janela da cozinha eles saírem do carro. As vozes na sala viram sussurros e Rosa não consegue mais decifrar o que estão dizendo. Houve muitos cochichos naquela semana. Rosa quer que isso acabe logo. Tudo começou logo depois que ela contou a história. Não sabe de onde a tirou — bem, talvez daquela vez no jardim de infância. Ainda lembra como os adultos reagiram quando uma menina chamada Berit disse o que aconteceu na sala de brinquedos que tinha as almofadas. Ela estava brincando com os meninos, até que um deles pediu para ver o que tinha dentro da calcinha dela. Ele até ofereceu cinquenta centavos para ela. Então, Berit mostrou e perguntou se os outros meninos queriam ver também. Vários quiseram, então Berit ganhou muito dinheiro. Eles podiam colocar coisas lá dentro também, se pagassem mais vinte e cinco centavos.

Os adultos caram assustados, isso foi óbvio. Seguiu-se um monte de cochichos naquele dia na sala de recreação e também entre os pais, perto do armário dos casacos, e logo depois criaram novas regras que não eram nem um pouco divertidas. Rosa já tinha quase se esquecido de tudo aquilo. Mas então certa vez os pais passaram o dia todo ocupados comprando e montando camas novas e pintando o quarto de hóspedes, e a história chegou de forma natural e sem esforço.

Pela abertura da porta ela vê as duas crianças passarem de cabeça baixa. Ouve os passos na escada do lado de fora, onde o pai colocou as malas deles. No corredor , ela ouve a mãe perguntando para onde as crianças vão.

— Ainda não encontramos um lugar para elas, mas esperamos que não leve muito tempo.

Os adultos se despedem, e Rosa vai para o quarto. Não quer ver os gêmeos porque sua barriga dói. Como se tivesse um nó lá dentro. Mas não pode desmentir a história agora, porque já contou, e não é legal mentir a respeito de uma coisa dessas. Tem que guardar o segredo e nunca mais dizer nada a ninguém. Mesmo assim, sente que vai explodir quando vê o presente que eles deixaram para ela na cama. Um círculo formado por cinco bonecos de castanha, como se estivessem de mãos dadas. Estavam unidos por um arame, e dois bonecos eram maiores do que os outros, como se fossem o pai, a mãe e os três lhos.

— Tudo bem, Rosa, eles já foram...

Rosa passa correndo pelos pais. Ela ouve quando eles chamam seu nome, surpresos, enquanto sai correndo pela porta. O carro branco acabou de sair da vaga e está passando pelo portão. Rosa corre o mais rápido que consegue, usando só as meias, até o carro desaparecer . A última coisa que vê são os olhos do garoto, olhando pelo vidro traseiro do carro.