As Sombras de Outubro
Capítulo 51
O assistente social Henning Loeb tinha acabado de almoçar no restaurante do porão da prefeitura quando recebeu a ligação. A manhã tinha sido uma provação. Pegou chuva enquanto pedalava para o trabalho e, quando nalmente chegou ao bicicletário nos fundos do prédio, suas roupas e sapatos estavam completamente encharcados. Mesmo assim, seu chefe — o diretor do Centro de Serviços Sociais da Infância e Adolescência — lhe pediu que participasse de uma reunião emergencial com uma família afegã e seu advogado , que estavam tentando reverter a decisão do Conselho Tutelar de tirar a guarda da
lha deles.
Henning Loeb conhece o caso de trás para a frente, já que ele mesmo recomendou que a criança fosse afastada dos pais. Ainda assim, tinham lhe solicitado que perdesse uma hora e meia sentado ouvindo as asneiras e as reclamações. Hoje em dia, a maioria dos casos de perda de guarda são contra famílias de imigrantes e, nesse caso, é necessária a participação de um intérprete na reunião. O que, é claro, fez tudo demorar ainda mais. Francamente, a reunião foi uma tremenda perda de tempo. O caso já estava resolvido: o pai imigrante fora violento com a lha de treze anos repetidas vezes porque ela tinha um namorado dinamarquês. Em uma sociedade democrática, porém, até mesmo um troglodita como aquele tinha direitos, então permitiram que ele fosse ouvido. Enquanto os argumentos eram apresentados de um lado e do outro da mesa, Henning — ainda molhado e com frio — cou vendo a vida passar pela janela da prefeitura.
Depois, embora ainda estivesse pegajoso por causa da chuva, teve que se concentrar nos seus casos, contando minutos no relógio da mente porque já estava com o trabalho do dia atrasado. Faltava apenas uma entrevista para ele ser transferido para um setor mais bem organizado e com cheiro mais agradável, no departamento de Administração de Tecnologia e Ambiente, no segundo andar, e ela deveria acontecer naquela tarde. Se conseguisse adiantar o trabalho, teria tempo para se preparar , e, caso se saísse bem na entrevista, logo poderia pular daquele barco antes que ele afundasse sob o peso de todos os passageiros incestuosos e/ou psicóticos que subiam a bordo vindo das margens sociais. Parecia apenas justo que pudesse fazer sugestões sobre renovação urbana e melhorias nos parques municipais em um escritório com uma vista decente da estagiária ruiva, aluna de arquitetura, que usava minissaias e estava sempre com um sorriso caloroso no rosto, não importava o que acontecesse. Ela merecia um homem de verdade. Não seria necessariamente Henning que faria as honras, é claro, mas vê-la todos os dias e ter suas fantasias — isso ninguém poderia tirar dele.
Em segundos, Henning se arrepende de ter atendido o telefone porque não consegue se livrar do detetive. Ele fala daquele jeito que Henning mais odeia: com autoridade e usando o imperativo, e logo deixa bem claro que precisa da informação imediatamente. Não é daqui a pouco e de nitivamente não é um pouco mais tarde. Então Henning tem que parar tudo que está fazendo e correr para o computador do seu escritório.
— Preciso de tudo que você tem sobre o caso de um garoto chamado Magnus Kjær .
O detetive informa o número de identidade do garoto e Henning liga o computador enquanto explica que é o responsável por literalmente centenas de casos, então obviamente ele não consegue se lembrar de todos de cabeça, na hipótese de o investigador estar com alguma dúvida.
— Só me diga o que está no arquivo.
Henning passa os olhos pela tela, enrolando um pouco. Acontece que é um dos seus casos, por sorte um que pode ser facilmente resumido.
— Você está certo, esse é um dos nossos casos. Houve uma denúncia anônima, feita por e-mail, sobre a mãe do garoto , Laura Kjær , que, de acordo com o e-mail, não tinha capacidade para cuidar do lho. Nós investigamos e descobrimos que a alegação era improcedente, então não há muito mais que eu possa...
— Eu quero ouvir tudo sobre o caso. Agora.
Henning disfarça um suspiro. Aquilo pode demorar , então ele pega o ritmo e informa ao detetive a versão mais curta que consegue enquanto passa pelo arquivo.
— O e-mail chegou há uns três meses através do programa de denúncias anônimas, que foi implantado pela ministra do Bem-Estar Social nas unidades do Conselho Tutelar espalhadas pelo país para que pessoas possam ligar ou enviar e-mails anônimos para denunciar crianças que estejam sofrendo algum tipo de abuso . Então não temos como saber quem fez essa denúncia em particular . Basicamente, ela diz que o garoto deveria ser tirado dos cuidados da mãe o mais rápido possível porque ela era, e eu estou citando exatamente como diz o e-mail, “uma puta egoísta”. Também havia algumas coisas sobre ela só pensar em abrir as pernas enquanto fechava os olhos para os problemas do garoto, mesmo que ela, abre aspas, “devesse estar atenta ”. Fecha aspas. De acordo com o e-mail, nós encontraríamos provas na casa.
— E o que vocês encontraram lá?
— Nada. Seguimos todo o protocolo e tivemos muito trabalho para acompanhar as alegações de negligência, então conversamos com o garoto introvertido e com os pais chocados. A mãe e o padrasto, eu acho . Mas não havia nada de suspeito e infelizmente esse tipo de trote vingativo não é incomum.
— Eu gostaria de ver o e-mail. Você pode enviar uma cópia?
Henning estava esperando por aquela pergunta.
— Claro que posso. Assim que você me mostrar um mandado. Então , se é só isso...
— Mas não tinha nenhuma informação sobre o remetente?
— Não. É isso que “anônimo” signi ca. Como eu disse...
— E por que você chamou a denúncia de vingativa?
— Bem, porque não encontramos nada e porque é para se vingar que as pessoas usam o esquema de denúncias anônimas. Pode perguntar no departamento scal. São os políticos que encorajam esse tipo de coisa. As pessoas fazem fofoca por nada. Ninguém para pra pensar que existe alguém que realmente vai ter que dedicar tempo e recursos para investigar a merda que escrevem e mandam. De qualquer forma, se é só isso...
— Na verdade, tem mais uma coisa, aproveitando que estou falando com você. Eu gostaria de veri car se você recebeu alguma coisa sobre outras duas crianças.
O detetive informa mais dois números de identidade, dessa vez sobre duas meninas, Lina e So a Sejer-Lassen. A família agora mora em Klampenborg, mas o cara sabe que moravam em Brygee — na jurisdição de Copenhague — até recentemente, e é sobre esse período que ele quer saber . Irritado , Henning consulta novamente o computador , dando uma olhada no relógio. Ainda vai dar tempo de se preparar , se ele conseguir acelerar as coisas. O computador
nalmente responde e ele dá uma olhada nas observações enquanto o
detetive repete os números. Está prestes a dizer que se lembra do caso, que foi dele também, mas então percebe algo na tela que não tinha notado antes. Ele rola pelo arquivo rapidamente e então volta para o de Magnus Kjær para con rmar um pressentimento e veri car as palavras usadas no e-mail anônimo. Henning Loeb vê algo que não compreende de todo, mas que o deixa cauteloso.
— Não. Sinto muito. Não tem nada aqui sobre elas. Não que eu esteja vendo.
— Tem certeza?
— O sistema não reconhece esses números de identidade. Tem mais alguma coisa? Eu estou realmente ocupado.
Henning Loeb sente a boca amargar . Para se prevenir , manda um e-mail para o departamento de TI informando que o sistema caiu e que não conseguiu ajudar a polícia com uma solicitação em particular . Não que ele ache que aquilo vá ser relevante, mas nunca se sabe. Henning só está a uma entrevista de subir na hierarquia e fugir de toda aquela merda. Para bem, bem longe. Até o segundo andar, no departamento de Tecnologia e Desenvolvimento — talvez se ele usar as cartas certas até consiga en ar o pau na ruivinha.