As Sombras de Outubro
Capítulo 105
Está nevando intensamente e parte da paisagem que Hess enxerga pelo para-brisa é branca e inde nida. A autoestrada ainda era trafegável porque removedores de neve passam de tempos em tempos, mas ele agora saiu da autoestrada E47 e está dirigindo por uma estrada secundária em direção a Vordingborg e tem que seguir a vinte quilômetros por hora para não bater nos carros à frente.
No caminho de Copenhague a Zelândia ele ligou para a polícia local em Risskov e Nyborg, mas temia que eles não fossem de muita ajuda. As informações sobre os assassinatos em Risskov eram muito limitadas. Já que o crime tinha ocorrido dezessete anos antes, suas perguntas foram respondidas com grande desdém pela polícia de Aarhus, e ele foi transferido três vezes antes de uma policial car com pena e procurar o arquivo do caso: tinha sido arquivado havia muito tempo como não resolvido. Ela não conhecia o caso pessoalmente, mas se dispôs a ler fragmentos do relatório por telefone. Mas nada daquilo foi útil. A vítima, uma assistente de laboratório, era mãe solo e na noite do assassinato tinha arrumado alguém para cuidar da lha de um ano porque estava esperando um amigo para o jantar . Quando o amigo chegou, a encontrou esfaqueada e morta no chão da sala e chamou a polícia. Dois anos depois, a investigação não era mais prioridade e o caso foi arquivado — eles não tinham suspeitos nem pistas para seguir .
Já no caso de Nyborg, em 2015, a história era diferente. A vítima era a mãe de um garoto de três anos, e a investigação ainda estava aberta. O pai do garoto, um ex-namorado , era o principal suspeito e houve um pedido de prisão contra ele, mas acredita-se que ele tenha se escondido na Tailândia. O motivo, aparentemente, foi uma mistura de ciúme e dinheiro. O cara tinha ligações com uma gangue de motoqueiros, e o delegado local trabalhava com a teoria de que ele tinha seguido o carro da vítima e observado enquanto ela tinha um encontro com um jogador de futebol casado. No caminho para casa, ele a obrigou a parar no acostamento, a atacou e a esfaqueou com uma arma desconhecida, perfurando o cérebro através do olho esquerdo . Como Hess não acreditava que o ex-namorado da vítima, agora supostamente em Pattaya, pudesse ser responsável pelos assassinatos atuais na capital, ele perguntou ao delegado se havia algum outro suspeito. Alguém que tivesse ligação com a mulher , sem ser um amigo próximo , um ex-namorado ou parente. Mas o delegado achava que não , e Hess sentiu que o homem considerou a pergunta uma crítica indireta ao seu trabalho e decidiu não insistir . Em vez disso, ele abordou a questão do boneco pendurado no retrovisor do carro da mulher .
— Quando interrogou as pessoas e mostrou as fotos da cena do crime, alguém notou qualquer objeto que causasse estranhamento ou que parecia fora de lugar?
— Mas como você sabe disso? Por que você pergunta?
— Será que o senhor poderia me dizer quem foi?
— A mãe da vítima cou surpresa ao ver um sr . Castanha no retrovisor . Disse que a vítima era alérgica a castanhas desde criança, então aquilo era um pouco estranho.
O delegado, que não gostava de deixar nenhuma ponta solta, decidiu investigar . Fazendo perguntas no jardim de infância da lha,
descobriu que ela tinha feito um sr. Castanha algumas semanas antes, então não era inconcebível que a mãe tivesse pendurado uma das criações da lha no carro, apesar da alergia. A informação causou arrepios em Hess. Embora a teoria do delegado soasse plausível, não acreditou naquilo nem por um momento. Mas quem passaria tempo se perguntando sobre a presença de srs. Castanha em setembro ou outubro? Provavelmente ninguém. Por um momento, Hess sentiu que a pergunta abriu uma dúvida e o delegado estava reavaliando a questão, então ele se apressou a fechá-la. Não havia motivos para dar o alarme quando ele não tem nada mais do que teorias com que trabalhar .
Sem conseguir mais informações sobre aqueles dois casos, Hess decidiu seguir para o sul na esperança de encontrar alguém com quem pudesse conversar sobre o caso de Møn. Por sorte, Møn ca na
jurisdição de Vordingborg, na província mais ao sul da Dinamarca, então pelo menos não vai precisar dirigir horas e horas até lá. Mas está começando a se arrepender da decisão. Não entrou em contato com Thulin nem com Nylander pelo mesmo motivo que o fez encerrar a conversa com o delegado e, enquanto sobe os degraus da delegacia de Vordingborg, duvida muito que falará com qualquer um dos dois. Desde o seu momento de clareza no aeroporto, percebeu o quanto a tarefa era difícil. Mesmo que a mesma pessoa estivesse matando e aterrorizando mulheres há décadas, talvez demorasse mais algumas décadas para encontrarem o assassino. Se aquilo fosse verdade.
Na recepção frenética da delegacia de Vordingborg, Hess mente na maior cara de pau, dizendo que é da Divisão de Crimes Hediondos em Copenhague e que gostaria de falar com o delegado local. A delegacia está muito movimentada, uma baita confusão, com as pessoas esbarrando umas nas outras, mas uma alma caridosa aponta para uma sala no m de um corredor e diz para ele pedir para falar com Brink.
Hess entra em um escritório grande e sujo onde um homem com rosto marcado e cabelo ruivo, com uns sessenta anos e uns cem quilos, está vestindo o casaco enquanto fala ao telefone.
— Então largue essa merda aí, se não consegue ligar. Estou indo!
O homem desliga e segue para a entrada, não dando a menor indicação de que vai desviar de Hess.
— Eu gostaria de falar com Brink.
— Estou de saída. Você vai ter que esperar até segunda-feira.
Hess se apressa para pegar o distintivo, mas o homem já passou por ele e está atravessando o corredor enquanto fecha o casaco.
— É importante. Eu tenho algumas perguntas sobre um caso e...
— Tenho certeza que tem, mas eu estou saindo agora para a minha folga de m de semana. Pergunte na recepção. Tenho certeza de que vão ajudá-lo. Passar bem.
— Eu não posso perguntar na recepção. É sobre os assassinatos em Møn, em 1989.
Brink para no meio do corredor. Por um momento, ele permanece de costas, mas, quando se vira e olha para Hess, parece que acabou de ver um fantasma.