As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 88 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 88

 

Já escureceu e, a essa hora, os últimos carros normalmente estão partindo de Sydhavnen, deixando as ruas desertas. Mas não hoje. Do lado de fora da casa desmantelada que outrora abrigava o maior matadouro de Copenhague, as ruas estão cheias de policiais e técnicos forenses, andando de um lado para outro com suas pranchetas. Os carros formaram uma la e os potentes re etores iluminam todas as janelas na frente da construção. Do quarto no primeiro andar, Hess ouve a senhora chorando de vez em quando enquanto é interrogada — e o som se mistura com instruções bruscas, passos, mensagens de rádio crepitantes —, mas principalmente a conversa de Thulin e Jansen perto da porta.

— Mas quem foi que lhe deu a pista para vir até aqui?

— E quem disse que alguém me deu alguma coisa? Talvez eu só estivesse dando uma volta.

— E por que você não ligou?

— Para você e Hess? Por que eu faria isso?

A foto deve ter uns dois anos, mais ou menos. O vidro está sujo, mas tem uma moldura bonita com detalhes pretos na beirada. Ela foi colocada sobre o travesseiro, dentro do berço branco, ao lado de uma chupeta e um cacho no de cabelo claro. A jovem mãe na foto está ao lado de uma incubadora, segurando um bebê enrolado em um cobertor e sorrindo para a câmera. É uma expressão forçada, evidenciando cansaço e um esforço enorme, e, como a jovem ainda está usando a veste amarrotada do hospital, Hess imagina que a foto tenha sido tirada logo depois do parto. O sorriso não chega aos olhos da garota. Há um quê de fragilidade, alguma coisa irreal na sua expressão, como se alguém tivesse colocado o bebê no seu colo e ela estivesse tentando representar um papel para o qual não está preparada.

Não há a menor dúvida de que Benedikte Skans, na fotogra a, é a mesma enfermeira bonita e de rosto sério que ele e Thulin conheceram na ala pediátrica do Rigshospital quando foram interrogar Hussein Majid sobre Magnus Kjær e So a Sejer-Lassen. Desde que a foto foi tirada, o cabelo cresceu, o rosto cou envelhecido e o sorriso desapareceu. Mas é ela, e Hess se esforça para desvendar a conexão .

Desde que ele e Thulin saíram da ala de segurança do hospital psiquiátrico, a conversa com Linus Bekker pesava dentro dele, como um câncer se espalhando. Toda a sua atenção e energia giravam em torno da possibilidade de identi carem o assassino através de imagens no arquivo que Bekker invadiu, mas então as notícias começaram a chegar . Primeiro, na conversa com Genz, e depois com um dos detetives que deixaram no ministério, que tinha corrido para Sydhavnen depois da ligação de Jansen, pedindo reforços. Não precisava de muita imaginação para deduzir que Jansen recebeu a pista de um dos detetives que estavam analisando os arquivos no ministério, mas naquele momento esse detalhe parece irrelevante diante da descoberta sobre Benedikte Skans e seu namorado.

— O que descobrimos?

Nylander acaba de chegar , e Jansen parece aliviado pela interrupção.

— O contrato de aluguel foi feito em nome de Benedikte Skans. Uma enfermeira de vinte e oito anos que trabalha no Rigshospital. O

lho dela com o namorado foi retirado de casa pelo Conselho Tutelar

de Copenhague há dezoito meses. A criança foi mandada para uma família de acolhimento e Benedikte Skans entrou com um processo. Também procurou a imprensa e atacou o Ministério do Bem-Estar Social por encorajar os Conselhos Tutelares a tirarem crianças de suas famílias.

— Rosa Hartung.

— Exatamente. A mídia adorou isso, até se dar conta de que o Conselho Tutelar teve bons motivos para retirar a criança, e o caso foi esquecido. Mas não por Benedikte Skans e o namorado, porque logo depois o lho deles morreu. Skans foi tranca ada em um hospital psiquiátrico e só saiu em abril deste ano. Ela conseguiu o emprego de volta e se mudou para cá com o namorado, mas, como podem ver nessa parede, nunca se esqueceram do acontecido.

Hess está ocupado observando a parede e não presta atenção. Conhece a maioria das informações pelo arquivo do Conselho Tutelar de Copenhague, que um dos detetives trouxe do ministério. Benedikte Skans desperdiçou a juventude em noitadas regadas a drogas, em Tingbjerg, e em um treinamento incompleto em uma butique de roupas. Então, aos vinte e um anos, foi aceita na faculdade de enfermagem em Copenhague. Ela concluiu o curso com boas notas e isso foi mais ou menos na mesma época que conheceu o namorado, Asger Neergaard, que estava alguns anos à frente dela na escola que frequentaram em Tingbjerg. Nesse intervalo, Neergaard entrou para o Exército em Slagelse e foi enviado em uma missão no Afeganistão. Juntos eles criaram um lar no prédio dilapidado do antigo matadouro. Benedikte Skans conseguiu emprego como enfermeira na ala pediátrica do Rigshospital, enquanto ela e o namorado tentavam ter o próprio lho. De acordo com as observações do assistente social, quando Benedikte engravidou, começou a demonstrar sinais de ansiedade e questões de autoestima. Aos vinte e seis anos, deu à luz um menino prematuro, com apenas sete meses de gestação, o que causou uma psicose puerperal. Ao que tudo indica, o pai não foi de muita ajuda. O assistente social considerou o pai de vinte e oito anos um soldado imaturo e introspectivo, às vezes agressivo, se Benedikte Skans o irritasse. O Conselho Tutelar se esforçou para oferecer suporte através de diversos programas, mas depois de seis meses os problemas psicológicos de Benedikte Skans só tinham piorado , e ela foi diagnosticada com transtorno bipolar . Quando não conseguiram contato com a família por algumas semanas, o Conselho Tutelar procurou a polícia, que fez uma busca — o que se provou a decisão certa. O menino de sete meses foi encontrado inconsciente no berço, com o corpo todo sujo de fezes e vômito, e havia sinais preocupantes de subnutrição. No hospital, os médicos descobriram que ele tinha asma e alergias alimentares, que transformaram os pedacinhos de chocolate com nozes que eles lhe davam em um verdadeiro perigo.

Embora a intervenção provavelmente tenha salvado a vida do menino, aquilo despertou toda a fúria de Benedikte Skans. Foi entrevistada várias vezes, expressando toda sua indignação diante da forma como ela e sua família foram tratadas: “Se eu sou uma péssima mãe, então existem muitas como eu”, dizia uma das manchetes de jornal colocada no arquivo do caso. Como o Conselho Tutelar não tornou pública a negligência que a criança sofreu, deve ter parecido que o caso de Skans era bom — mas então Rosa Hartung foi a público, lembrando tanto a imprensa quanto os Conselhos Tutelares de que, para o bem das crianças, o parágrafo quarenta e dois da legislação vigente deveria ser interpretado da forma mais rigorosa possível. A mídia se calou. Logo em seguida o menino faleceu por causa de uma doença pulmonar aguda, apenas dois meses depois de ter sido tirado de casa. Benedikte Skans reagiu de forma violenta com o assistente social que foi lhe dar a notícia, e suas consultas com psiquiatras se transformaram em uma longa internação em Sankt Hans, em Roskilde. Ela recebeu alta em abril e voltou ao antigo emprego no Rigshospital como uma experiência.

Hess estremece diante da ideia, porque a parede atrás da porta deixa bem claro que a mulher não é nem um pouco sã.

— Na minha opinião, ela e o namorado estão nisso juntos — continua Jansen, dirigindo-se a Nylander . — Eles obviamente se sentiram injustiçados e bolaram um plano para debochar da ministra e ridicularizá-la ao expor o sistema e punir mulheres que não estavam tomando conta dos lhos. Como você pode ver , não resta dúvidas de quem é o alvo.

Jansen não está errado quanto a isso. Enquanto um lado do quarto é um mausoléu para a criança morta, o outro lado revela uma obsessão patológica com Rosa Hartung. Da esquerda para a direita, há recortes de manchetes e fotos de jornal sobre o desaparecimento de sua lha, incluindo fotos da própria ministra enlutada, tiradas por paparazzi. Palavras como “Esquartejada e enterrada” ou “Estuprada antes de ser esquartejada ” estão coladas de forma debochada ao lado de uma foto de Rosa Hartung toda de preto e chorando na cerimônia memorial. Há várias manchetes sobre a ministra, por exemplo, “Rosa Hartung arrasada ” ou “ Abatida pelo luto”, mas os recortes dão um salto no tempo e, mais para a direita da parede, há novas fotos, provavelmente de três ou quatro meses atrás, com manchetes como “Hartung está de volta ”. Em um artigo colado na parede, há um círculo desenhado em volta do retorno da ministra na primeira terça-feira de outubro e, ao lado, uma folha A4 com várias sel es de sua lha assim como as palavras “Bem-vinda de volta. Você vai morrer , sua piranha”.

Bem mais preocupante, porém, é o fato de que os recortes dão lugar a outra série de imagens. Fotogra as reveladas por lme, evidentemente tiradas em algum momento depois do m de setembro, antes do outono. São fotos da casa da ministra tiradas de vários ângulos, do marido , do lho, de um ginásio esportivo, do carro o cial, do escritório no ministério em Christiansborg, assim como diversas impressões feitas do Google Maps mostrando as rotas no centro da cidade.

O material é devastador e derruba por terra o frágil castelo de cartas que Hess estava começando a formar desde que saiu do hospital psiquiátrico. Será que a visita a Linus Bekker foi uma perda de tempo? Por mais que tente, não consegue mais reconstruir sua linha de pensamento — mas não é só isso que o incomoda. Existe claramente outra ameaça. Algo mais próximo, que exige atenção imediata, bem quando acham que o caso está sob controle, então Hess continua analisando a parede, enquanto Nylander faz mais perguntas a Jansen.

— E onde está o casal agora?

— Ninguém vê a mulher no Rigshospital desde que ela ligou para avisar que estava doente, há alguns dias, e não sabemos onde está o namorado também. Temos poucas informações sobre ele. Não são casados, então tudo está no nome de Benedikte Skans, mas já solicitamos os documentos dele ao Exército. O Departamento de Inteligência já foi informado do que descobrimos?

— Ah, sim. A ministra está segura. Quem é a mulher lá em baixo?

— É a mãe de Asger Neergaard. Parece que ela também mora aqui. Ela diz que não sabe onde eles estão, mas ainda não terminamos de interrogá-la.

— Mas nós acreditamos que esse jovem casal seja responsável pelos assassinatos?

Hess ouve Thulin falar antes que Jansen possa responder , e é quando percebe vários al netes na parede. Alguns pedaços de papel ainda estão presos embaixo de um ou dois, como se as fotos tivessem sido arrancadas com pressa.

— Nós ainda não sabemos. Antes de tirarmos conclusões, precisamos....

— Do que mais você precisa? Meu Deus, basta ter olhos para ver! — exclama Jansen.

— Exatamente! Aqui tem muito material sobre Rosa Hartung, mas nada sobre as mulheres assassinadas. Se esse casal é responsável pelas mortes, então deveria haver algum sinal aqui, mas não tem nada.

— Mas a mulher trabalhou como enfermeira em uma ala onde pode ter conhecido pelo menos duas das vítimas e seus lhos. E você acha isso irrelevante?

— Não, eu não acho que seja irrelevante. Obviamente precisamos prendê-los e interrogá-los, mas isso não vai ser muito fácil agora que você anunciou com letreiros neon que estamos esperando por eles!

Hess ainda não consegue encontrar a foto que devia estar pendurada na parede e, ao fundo, ouve Nylander intervir .

— Pelo que parece, Jansen agiu de forma correta, Thulin. Segundo o médico psiquiatra que foi muito gentil ao me ligar alguns minutos atrás, você e Hess estavam muito ocupados assediando Linus Bekker ... Apesar de eu ter ordenado especi camente que não zessem isso. Vocês têm alguma explicação?

Hess sabe que chegou a hora de defender Thulin, mas em vez disso ele se vira para Jansen.

— Jansen, será que a mulher tirou alguma coisa daqui antes de você entrar?

— Mas que porra vocês queriam com Linus Bekker?

A discussão continua atrás dele enquanto Hess tenta pensar em onde esconderia algo, se a polícia estivesse batendo na porta. Quando arrasta uma cômoda da parede, uma fotogra a amassada cai no chão e ele se apressa para pegá-la.

O jovem alto e com postura reta, que Hess imagina ser Asger Neergaard, está ao lado de um carro segurando um chaveiro. Usa um terno escuro e o carro preto brilha sob o sol como se tivesse acabado de ser lavado e polido. O terno e o carro caro são um enorme contraste com o velho matadouro, caindo aos pedaços, ao fundo. A princípio, Hess não compreende por que a mãe de Asger Neergaard teria tentado se livrar daquela foto especí ca, mas seus olhos voltam para o carro e, quando ele retorna ao mural e o compara com o carro o cial de Rosa Hartung, não lhe resta nenhuma dúvida: o carro dela é idêntico ao da foto. No entanto, antes que Hess tenha a chance de dizer qualquer coisa, Genz en a a cabeça pela porta, vestido com o macacão branco de sempre.

— Desculpe interromper . Nós acabamos de fazer uma busca no antigo abatedouro e vocês precisam ver uma coisa. Parece que um dos quartos foi usado para manter alguém preso por muito tempo.