As Sombras de Outubro
Capítulo 83
São aproximadamente cem quilômetros até Slagelse, e segundo o GPS a viagem duraria cerca de uma hora e quinze. Mas quando Thulin pega a saída perto de Grønningen, onde o hospital psiquiátrico e a ala de segurança estão localizados, mal passou uma hora.
É bom sair um pouco da cidade e ver as plantações e orestas na paisagem de outono, com seus tons de vermelho, amarelo e marrom. Logo as cores desaparecerão e aquela época do outono em que tudo
ca cinzento começará. Thulin tenta aproveitar a paisagem, embora
os pensamentos ainda estejam no laboratório forense.
Hess explicou sua teoria enquanto conversavam com Genz. Se Linus Bekker era inocente de qualquer crime contra Kristine Hartung, então outra pessoa tinha deliberadamente lançado a suspeita sobre ele. Ele era um bode expiatório perfeito, com as condenações e os problemas psicológicos exatos para chamar a atenção da polícia assim que se tornasse um suspeito. Mas o assassino — e nesse ponto Hess não estava se referindo a Linus Bekker — devia ter planejado tudo aquilo com muita antecedência, provavelmente com o objetivo especí co de fazer com que parecesse que Kristine Hartung estava morta e enterrada. A denúncia anônima sobre Linus Bekker que tinha levado à conclusão do caso agora parecia suspeita.
Primeiro Hess perguntou a Genz sobre a investigação da ligação telefônica que levou a polícia a chegar a Bekker . Genz foi imediatamente para o teclado para veri car os detalhes no relatório técnico. A denúncia anônima foi feita para um telefone xo, na manhã de segunda-feira, mas infelizmente não para o número de emergência, que grava automaticamente todas as ligações, e sim diretamente para o escritório de Nylander . Isso em si não era necessariamente suspeito; a nal de contas, Nylander estava em todos os jornais da época, então talvez zesse sentido que alguém seguindo o caso direcionasse a denúncia para ele. A chamada aparentemente viera de um celular pré-pago não registrado, então foi impossível rastrear o informante. As pistas terminavam ali. De acordo com o relatório, a secretária que atendeu à ligação não conseguiu dar mais detalhes além de que “um homem dinamarquês” a rmou rapidamente que deveriam investigar Linus Bekker e fazer uma busca em sua casa na apuração do caso Hartung. O nome de Linus Bekker foi repetido e a ligação cou muda.
Hess então pediu que Genz veri casse as evidências forenses novamente assim que fosse possível. No momento em que o foco da investigação passou a ser Bekker , outras pistas aparentemente irrelevantes podiam ter sido desconsideradas — e essas são as pistas que interessam a Hess agora. Levaria um tempo, mas Genz estava disposto a tentar . Ele só perguntou o que deveria dizer se alguém notasse que estava bisbilhotando os relatórios e a caixa de evidências do caso Hartung.
— Pode dizer que eu te pedi para fazer isso, assim você não vai ter problemas.
Por um momento, Thulin se perguntou o que deveria dizer . Não havia dúvidas de que esse desdobramento na investigação caía na pilha de coisas que Nylander não ia gostar e, se fossem pegos, poderia até afetar suas chances de transferência para o NC3. Mesmo assim, ela não conseguiu ligar para Nylander . Em vez disso, ligou para os detetives que estavam revisando os arquivos no ministério em busca de possíveis inimigos de Rosa Hartung. Nenhuma novidade em relação a isso, a não ser pelo fato de que a maioria dos casos envolvia uma enorme carga emocional e antipatia pelas autoridades. Então , quando Hess sugeriu que tentassem conversar com Linus Bekker, ela concordou. Ele telefonou para a ala de segurança da instituição psiquiátrica na qual o condenado cumpria sua pena. O psiquiatra estava em uma reunião, mas Hess deu a informação para o segundo no comando, explicando que estava a caminho e que chegariam dali a uma hora.
— Você realmente quer ir comigo? Se achar que isso pode comprometer a sua posição, não precisa.
— Tranquilo.
Thulin ainda tem di culdade em acreditar que a visita será útil. Parece muito mais provável que Linus Bekker estivesse dizendo a verdade quando confessou o crime. Ele ainda poderia ter aparecido atrás do cordão de isolamento que a polícia estabeleceu na oresta.
Até onde sabia, Tim Jansen e Martin Ricks não tinham medo de jogar duro — ou pior — para encorajar uma con ssão , mas não importava o quanto tivessem sido duros com Linus Bekker, ele teve muitas chances de voltar atrás na con ssão. Então por que seria falsa? Apesar dos supostos blecautes, Bekker se lembrou de uma série su ciente de eventos para fazer uma reconstituição de suas ações desde aquela tarde, quando estava passeando de carro e viu uma garota com uma bolsa esportiva, até mais tarde naquela mesma noite, quando se viu com um corpo na oresta, ao norte. Ele descreveu o estupro seguido de estrangulamento, descreveu que cou dirigindo a esmo, sem saber o que fazer com o corpo. No seu depoimento no tribunal, chegou a pedir desculpas aos pais da garota.
Tinha ; que ser verdadequalquer outra coisa não seria nada realista. Esse é o último pensamento de Thulin ao estacionar do lado de fora dos portões da unidade de segurança.