As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 119 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 119

 

O porão da casa de sua avó era mofado e com manchas de umidade nas paredes. O piso de pedra era irregular e as paredes ásperas, mal iluminadas por lâmpadas fracas penduradas no teto em bocais antigos de porcelana presos por cabos descascados. Um mundo desordenado de bagunça e tralhas, formado por cômodos estranhos e corredores, um mundo completamente diferente do outro lado da porta que separava os dois níveis.

No primeiro andar , tudo era amarelado. Móveis pesados, papel de parede oral, teto de gesso, cortinas e o fedor dos cigarros da avó. As cinzas se empilhavam em tigelas de cozinha ao lado de sua poltrona macia na sala, onde ela cou sentada até o dia em que foi levada para um asilo. Hess odiava car lá, mas odiava ainda mais lá embaixo. Não havia janelas, não havia ar , não havia como sair , a não ser por uma escada bamba, para a qual ele sempre corria, com a escuridão em seus calcanhares, quando tinha que descer lá para pegar outra garrafa e botar na mesinha ao lado da poltrona estofada da avó.

É com a mesma náusea e sensação de pânico que sentia quando criança que Hess acorda no porão sob a Fazenda do Castanheiro. Alguém está golpeando furiosamente seu rosto, e ele sente o sangue escorrendo por cima de um dos olhos.

— Quem mais sabe que você está aqui? Responda!

Hess foi arrastado pelo chão e está apoiado na parede. É Genz que o está golpeando. Está usando um macacão de plástico e só seus olhos são visíveis no espaço entre a máscara manchada de sangue e o protetor azul de cabelo. Hess tenta afastá-lo, mas é impossível: suas mãos estão presas às costas com algo que parece um cabo.

— Ninguém.

— Me dê aqui o seu dedo ou vou cortar ele fora. Anda logo!

Genz o joga no chão e se debruça sobre ele. Com o rosto pressionado no piso, Hess vasculha a sala em busca de sua arma, mas ela está caída a alguns metros de distância. Sente Genz pressionar seu polegar em algum aparelho e, quando ele se levanta e encara a tela, Hess percebe que ele usou sua digital para desbloquear o celular. Tenta se preparar para a fúria que virá, mas o chute na lateral da sua cabeça é tão forte que quase perde a consciência de novo.

— Você ligou para Nylander há nove minutos. Provavelmente logo depois de descer do carro no pátio.

— O .k., verdade. Eu esqueci.

Hess leva outro chute na lateral do rosto e, dessa vez, tem que cuspir o sangue para não engasgar . Promete a si mesmo que vai parar com o sarcasmo, mas a informação é útil. Se passaram nove minutos desde que entrou no pátio, reconheceu o carro de Rosa Hartung e ligou para Nylander , então não vai demorar muito para Brink e os policiais de Vordingborg chegarem. A não ser pela neve...

Hess cospe de novo e percebe que a poça de sangue aos seus pés não pode ser dele. Seguindo o gotejamento com os olhos, Hess se depara com uma ferida aberta em um braço. Rosa Hartung está inconsciente na mesa de aço, como se estivesse em um centro cirúrgico , o pulso envolto em um curativo onde antes esteve a sua mão. Seu pulso direito também foi serrado, mas só pela metade. No piso abaixo da mesa, um balde azul está a postos, e quando Hess vê o que tem lá dentro é tomado pela náusea.

— O que você fez com Thulin?

Mas Genz já não está mais ali. Largou o telefone de Hess no seu colo e caminhou até o outro lado da sala, onde Hess o ouve remexer em algumas coisas. Ele tenta se levantar .

— Genz, desista. Eles já sabem quem você é. Vão encontrá-lo. Onde ela está?

— Eles não vão encontrar nada. Você já se esqueceu de quem é Genz?

O cheiro de gasolina é inconfundível, e ele reaparece com o galão e começa a espalhar o líquido pelas paredes. Quando chega em Rosa, Genz despeja o líquido sobre todo o corpo dela antes de continuar andando pelo aposento.

— Genz tem um pouco de experiência com investigação forense. Não haverá mais nada dele aqui quando chegarem. Genz foi inventado com um único objetivo e, quando descobrirem tudo, não vai adiantar mais nada.

— Genz, ouça bem o que estou dizendo...

— Não, vamos pular essa parte. Você claramente já conseguiu desenterrar tudo que aconteceu aqui na época, mas não perca o seu tempo dizendo que sente pena de mim, que eu vou receber uma punição mais leve se eu me entregar nem nada disso.

— Eu não tenho pena de você. Provavelmente é um psicopata desde que nasceu. Eu só tenho pena de você ter conseguido escapar daquele porão.

Genz o encara e dá um sorriso leve, surpreso, e Hess não tem tempo para se preparar para o terceiro chute no rosto.

— Eu devia ter acabado com você há muito tempo. De nitivamente quando estava de costas, olhando para aquela piranha da Jessie Kvium, em Hammock Gardens.

Hess cospe mais sangue, passando a língua pela boca. Sente gosto de ferro e alguns dentes parecem meio moles. O assassino ainda estava na cena do crime em Hammock Gardens e aquilo nem passou pela cabeça dele.

— Para ser sincero, eu te achei totalmente irrelevante. Disseram que você era só um babaca fracassado e egoísta com a carreira em declínio na Europol, mas de repente você aparece decepando porcos ou querendo conversar sobre Linus Bekker . E eu percebi que não era só em Thulin que eu precisava car de olho. Aliás, eu vi vocês bancando a família feliz, antes do passeio em Urbanplan. Aposto que se apaixonou pela vagabundinha.

— Onde ela está, Genz?

— Bem, com certeza não é o primeiro. Eu vi vários entrarem naquele apartamento. Infelizmente eu acho que você nem faz o tipo dela. Mas não se preocupe, eu vou dizer que você mandou um oi antes de cortar a garganta dela.

Hess sente a gasolina molhar seu corpo enquanto Genz esvazia a lata. Seus olhos ardem, assim como os ferimentos novos e antigos na cabeça, e ele prende a respiração enquanto o líquido continua caindo. Ele sacode a cabeça para se livrar das gotas que estão escorrendo, e, quando abre os olhos, Genz já tirou o macacão e largou tudo embolado no chão, junto com a máscara e a touca. Está parado na frente de uma porta branca de aço do outro lado do aposento, provavelmente a que leva até os degraus de concreto para a cozinha. Ele tem um sr . Castanha na mão e ca olhando para Hess enquanto risca o fósforo da perna do boneco e o joga no líquido no chão antes de sair e fechar a porta.