As Sombras de Outubro
Capítulo 27
Hess está de costas para a porta, fumando, enquanto o vento carrega a fumaça para os prédios e árvores. Diante dele está o sombrio estacionamento e árvores escuras e velhas, suas raízes se retorcendo e fazendo ondas no asfalto. Thulin vê uma ambulância passando pela pista e descendo para a garagem no subsolo enquanto as portas automáticas de vidro se abrem para ela.
Precisou amarrar as coisas com a enfermeira, se assegurar de que o garoto receberá o melhor tratamento possível. Hess saiu antes que ela terminasse, mas, quando chega ao estacionamento, percebe que está feliz por ele ter esperado por ela.
— O que vai acontecer com ele?
A pergunta parece estranhamente íntima, considerando que se conhecem há menos de vinte e quatro horas, mas ela sabe muito bem o que ele quer dizer .
— Está nas mãos dos assistentes sociais agora. Infelizmente, ele não tem parentes. Então provavelmente vão tentar encontrar uma solução no padrasto. A não ser que ele seja culpado, é claro.
Hess olha para Thulin.
— Você acha que é?
— Ele não tem um álibi sólido. E em noventa e nove por cento dos casos o culpado é o marido. Não conseguimos muita coisa lá dentro .
— Você acha? — Hess sustenta seu olhar enquanto continua: — Se o menino está falando a verdade, então o boneco com a impressão digital foi provavelmente levado até a cena do crime na mesma noite em que o assassinato aconteceu. Isso é estranho, para dizer o mínimo, e não acredito que a gente consiga explicar dizendo que alguém simplesmente comprou um boneco na rua um ano atrás, você não acha?
— As duas coisas não precisam necessariamente estar ligadas. O padrasto pode facilmente ter matado a mulher , e o garoto pode estar enganado em relação ao boneco. Nada mais faz sentido.
Hess está prestes a dizer mais alguma coisa, mas pensa melhor e apaga o cigarro com o sapato.
— Não , talvez não.
Ele se despede abruptamente com um aceno, e Thulin observa enquanto Hess atravessa o estacionamento. Ela abre a boca para perguntar se ele quer uma carona de volta para a cidade, mas quando faz isso uma lufada de vento sopra, derrubando alguma coisa atrás dela. Quando se vira, Thulin vê uma bolota cheia de espinhos, marrom-esverdeada, rolando até o espaço perto da bituqueira, onde outras bolotas iguais tinham se acumulado. Quando percebe o que é, ela ergue o olhar para o castanheiro e vê os galhos balançarem, enquanto outras bolotas espinhosas e marrom-esverdeadas esperam para se abrir e, por um momento, ela vê Kristine Hartung fazendo srs. Castanha na mesa da sala de casa. Ou em algum outro lugar .