As Sombras de Outubro
Capítulo 69
Thulin não tinha planejado desperdiçar tempo jantando, mas o fato de Hess ter aparecido mudou as coisas.
— Eu vim mais cedo porque me deram algumas plantas de Urbanplan e dos apartamentos. Você precisa estar atualizada antes de irmos.
— Mas primeiro você tem que me ajudar — intervém Le, antes que Thulin tenha a chance de responder . — Qual é o seu nome?
— Mark. Só que, como eu disse, hoje não tenho tempo para ajudar com o jogo. Mas vou adorar fazer isso uma outra hora.
— Você tem que jantar agora, Le — acrescenta Thulin rapidamente.
— Então o Mark pode jantar com a gente. Vem, Mark. Assim você vai poder me explicar tudinho. O namorado da minha mãe não pode jantar com a gente, mas você não é namorado dela, então você pode.
Le desaparece na cozinha. Parece muito estranho retirar o convite da lha, então Thulin dá um passo hesitante para o lado e faz um gesto para Hess entrar .
Na cozinha, ele se senta ao lado de Le, que troca o iPad por um laptop enquanto Thulin pega três pratos. Com o charme e a magnanimidade de uma princesa, Le toma posse da atenção do convidado. No início, sua simpatia provavelmente é só para implicar com Thulin, mas, à medida que Hess dá mais explicações sobre o jogo — a fonte do seu conhecimento ainda é desconhecida —, a menina
ca cada vez mais envolvida pelos conselhos dele sobre como chegar
ao tão sonhado nível seis.
— Você conhece o Park Su? Ele é famoso no mundo todo!
— Park Su? — pergunta Hess.
Logo um pôster e um boneco de plástico do adolescente coreano são colocados na mesa. Eles começam a jantar e a conversa evolui para outros jogos que Thulin nem sabia que a lha conhecia, mas Hess só conhece League of Legends e nunca tentou jogar outros. Para a lha, é como ter um aprendiz. Ela explica tudo para ele em um uxo rápido de palavras e, quando o assunto acaba, exibe a gaiola do papagaio — que logo terá um amigo , então elas vão poder colocar mais nomes na árvore da família.
— Ramazan tem quinze nomes na árvore dele, mas eu só tenho três. Cinco, se contar o papagaio e o hamster . Mamãe acha que não devo colocar os namorados dela lá, então é por isso que não tenho mais, senão eu teria um monte.
Nesse ponto, Thulin diz que é hora de a lha tentar alcançar o nível seis e, depois de mais alguns conselhos de Hess, Le nalmente se
acomoda no sofá e parte para a guerra.
— Garota esperta.
Thulin assente, preparando-se para as perguntas de praxe sobre o pai da menina, a família e toda a situação, que ela não tem o menor interesse em responder . Em vez disso, Hess pega o casaco que está pendurado nas costas da cadeira, tira um maço de papéis do bolso e os espalha pela mesa.
— Aqui, vamos dar uma olhada nisso. Repassar o plano.
Hess é detalhista, e Thulin ouve atentamente enquanto segue seus dedos, que traçam a planta dos andares, das escadas e das áreas externas do condomínio.
— Todo o complexo vai estar sob vigilância, mas a uma distância adequada para que a força-tarefa não espante o assassino. Se é que ele vai aparecer .
Ele também menciona a boneca, que vai estar enrolada em uma coberta para que Thulin possa ngir que está carregando a menina adormecida para casa. Ela faz alguns comentários sobre a equipe de vigilância, pois se preocupa que levantem as suspeitas do assassino , mas Hess insiste que isso é necessário.
— Não podemos correr nenhum risco. Se Jessie Kvium é a próxima vítima, então é muito provável que ele esteja altamente familiarizado com Urbanplan, e temos que estar na cena para podermos intervir rapidamente. Se houver qualquer perigo, você precisa nos informar na hora. E pode desistir a qualquer momento, se preferir que outra pessoa faça isso.
— Por que eu desistiria?
— Porque não é exatamente algo sem riscos.
Thulin olha nos olhos azul e verde e, se não o conhecesse, diria que o cara está preocupado com ela.
— Tudo bem. Não tenho problemas com isso.
— É essa menina que você está tentando encontrar?
Le saiu da sala sem que notassem, entrando na cozinha para pegar um copo d’água. Ela está olhando para o iPad de Thulin, apoiado na mesa da cozinha, exibindo o início de um noticiário que também tem Kristine Hartung como assunto principal, e o apresentador está revelando informações sobre o passado e o presente do caso.
— Você não pode assistir isso. Não é para criança.
Thulin se levanta e apaga rapidamente a tela. Já explicou para a
lha que terá que trabalhar até tarde e, quando a menina insistiu em
saber o motivo, Thulin disse que era porque iam procurar uma pessoa. Não mencionou nada sobre o assassino, então Le presumiu que fosse Kristine Hartung.
— O que aconteceu com ela?
— Le, volta para a sala, vai jogar.
— Ela morreu?
A pergunta é feita de um jeito direto e inocente, como se estivesse querendo saber se há dinossauros vivendo na ilha Bornholm. No entanto , por trás da pergunta há um tom de preocupação que faz com que Thulin prometa a si mesma que vai se lembrar de desligar o noticiário quando Le estiver por perto.
— Eu não sei, Le. Quero dizer ...
Thulin não sabe o que responder . Tem armadilhas em qualquer resposta, não importa qual.
— Ninguém sabe de verdade. Talvez ela só tenha se perdido. Algumas vezes a pessoa se perde e não consegue encontrar o caminho de volta para casa. Mas se ela tiver se perdido, então a gente vai encontrá-la.
É Hess quem responde. É uma boa resposta, e os olhos de Le voltam a brilhar .
— Eu nunca me perdi. Seus lhos já se perderam?
— Eu não tenho lhos.
— Por que não?
Thulin vê Hess sorrir para a menina, mas dessa vez ele não responde. A campainha toca e a espera termina.