As Sombras de Outubro
Capítulo 98
Hess corre pelo ladrilho molhado do pátio vazio. Dá para ouvir o noticiário da noite na televisão da guarita perto da entrada da delegacia — estão fazendo uma reportagem ao vivo da casa de Rosa Hartung, em Ydre Østerbro. Mas ele ignora. Quando chega no alto da escada e segue pelo corredor do departamento , vê latas de cerveja sendo abertas para comemorar a conclusão do caso. Um longo dia está chegando ao m, mas para Hess não está acabado.
— Onde está Nylander?
— Em reunião.
— Preciso falar com ele. É urgente. Agora!
A secretária ca com pena e desaparece pela porta, enquanto Hess aguarda do lado de fora. Seus sapatos estão enlameados e as roupas, encharcadas de chuva. Suas mãos estão trêmulas e ele não sabe se é por causa da agitação ou do frio da oresta, onde passou as últimas horas, ignorando obstinadamente as súplicas do médico-legista para que o deixasse trabalhar em paz. Não foi em vão.
— Eu não tenho tempo agora. A coletiva já vai começar — diz Nylander , aparecendo depois de se despedir de alguns gurões do alto escalão.
Hess sabe, por experiência, que esse é o momento que todo chefe de polícia aguarda: declarar publicamente que o caso está encerrado para que a imprensa se disperse. Mas precisa conversar com Nylander antes que ele fale com a imprensa, então o segue pelo corredor e explica que o caso não foi concluído .
— Hess, não estou nem um pouco surpreso por você estar seguindo por esse caminho.
— Em primeiro lugar , não há nada que indique que Benedikte Skans e Asger Neergaard conheciam as mulheres assassinadas. Não há nada na propriedade deles que indique que eles sequer chegaram perto das vítimas.
— Não sei se concordo com você quanto a isso.
— Em segundo, eles não tinham motivos para matá-las. Nem para decepar mãos e pés, para dizer a verdade. A raiva deles se dirigia única e exclusivamente a Rosa Hartung e não contra mulheres e mães em geral. Em tese, Skans poderia ter acessado os exames médicos dos
lhos das vítimas, por causa do trabalho no hospital, mas se ela e
Neergaard realmente zeram aquelas denúncias ao Conselho Tutelar , então por que não encontramos nenhuma evidência disso?
— Porque ainda não terminamos de investigar , Hess.
— Em terceiro lugar , Skans e provavelmente Neergaard têm álibi para os assassinatos de Jessie Kvium e Martin Ricks na noite de 16 de outubro. Acontece que Neergaard estava no hall da Royal Library , então nenhum dos dois poderia ter cometido esses crimes, o que signi ca que eles também não são responsáveis pelos outros assassinatos.
— Eu não faço ideia do que você está falando, mas se tem provas, eu vou adorar ouvir a respeito.
Nylander chegou à sala de operações e está pronto para pegar suas anotações e seguir para a entrevista coletiva, mas Hess bloqueia o caminho.
— Além disso, eu acabei de falar com o legista. Parece que Benedikte Skans cortou a própria carótida, mas, ao reconstruir a cena, dá para perceber que o movimento não é natural e que pode ser uma indicação de que alguém tentou forjar um suicídio.
— Eu também conversei com ele. E ele enfatizou que isso é tão possível quanto a hipótese de suicídio.
— Além disso, as facadas no tórax de Neergaard são ligeiramente altas demais para Skans, e, se ela planejou morrer junto com o namorado , então por que havia uma distância de uns dez metros entre um e outro, como se ela tivesse tentado fugir?
Nylander abre a boca, mas Hess não lhe dá chance.
— Se eles realmente foram capazes de cometer aqueles crimes, então por que foram idiotas o su ciente para sequestrar o garoto usando uma van alugada, que seria muito fácil rastrear?
— Então o que você acha que deve ser feito?
A pergunta de Nylander pega Hess de surpresa, e, ao começar a falar , percebe que está se exaltando. Hess se ouve falar sobre Linus Bekker e o arquivo de fotos de cenas do crime, que precisam analisar o mais rápido possível. Inclusive, acabou de pedir para um dos técnicos de TI lhe mandar o material que solicitou para Genz mais cedo.
— Além disso, precisamos investigar o assessor de Hartung, Frederik Vogel. Principalmente descobrir se ele tem álibi para a hora dos assassinatos.
— Hess, você não recebeu os recados que deixei no seu celular ...
Ele se vira em direção à voz de Thulin e percebe que ela entrou na sala. Está olhando para ele, segurando uma pilha de fotos.
— Que recados?
— Thulin, atualize ele. Eu não tenho tempo.
Nylander sai pela porta, mas Hess segura o seu ombro.
— E as impressões digitais nos bonecos sr. Castanha? Você não pode ir lá fora e declarar o caso resolvido antes de descobrirmos o que isso signi ca! Três mulheres assassinadas e pode haver uma quarta se você cometer esse erro agora!
— Eu não estou cometendo erro nenhum! E você é o único que não entende isso.
Livrando-se da mão de Hess, Nylander acena para Thulin e arruma as roupas. Hess olha para ela, que, hesitante, lhe passa as fotos. Ele olha a primeira. É uma foto de quatro mãos humanas decepadas, descansando na prateleira de uma geladeira.
— Encontrei isso na propriedade de Skans e Neergaard. No frigobar , em um dos armazéns do velho abatedouro...
Hess passa incredulamente por várias imagens de mãos decepadas, parando em uma fotogra a diferente, um pé azulado de mulher , serrado na altura do tornozelo, descansando na gaveta de legumes como uma obra de Damien Hirst.
Hess está perplexo, não consegue achar as palavras.
— Mas... Por que isso não foi encontrado mais cedo pelos técnicos? Essa sala estava fechada? Será que alguém poderia ter colocado isso lá?
— Hess, pelo amor de Deus, vá para casa.
Quando ergue o olhar, se depara com Nylander ainda ali.
— Mas e as impressões digitais? Kristine Hartung... Se pararmos de procurar e a garota ainda estiver viva...
Nylander desaparece pela porta, deixando Hess estupefato. Quando olha para Thulin, um minuto depois, em busca de apoio, se depara com uma expressão de compaixão. Seus olhos estão tristes e compreensivos, mas não por causa de Kristine Hartung. Não por causa da garota que desapareceu e nunca mais foi encontrada, não por causa de impressões digitais misteriosas em bonecos sr . Castanha, mas por causa dele. Hess vê nos olhos dela que Thulin pensa que sua capacidade de julgamento está prejudicada, e isso o deixa aterrorizado, porque não tem certeza se ela está errada.
Hess cambaleia para trás, saindo pela porta, e atravessa o corredor enquanto a ouve chamar seu nome. Na chuva do lado de fora, ele passa pelo pátio e, embora não olhe para trás, sente o olhar dela pela janela. Antes mesmo de sair do pátio, ele começa a correr .