As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 92 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 92

 

Asger não costuma se incomodar com a escuridão. Seus olhos se ajustam rapidamente, e, em geral, ele se sente calmo e controlado mesmo enquanto dirige em alta velocidade sob a chuva forte, como agora.

Foi no Afeganistão que começou a gostar de dirigir à noite. Quando tropas ou suprimentos precisavam ser transportados de um acampamento para outro, aquilo às vezes acontecia depois do pôr do sol, e, embora os colegas de Asger associassem aquele tipo de viagem a perigo, ele sempre pensou diferente. De qualquer forma, sempre adorou estar ao volante. Era como se sua mente se expandisse e seu campo de visão se transformasse com o ritmo das novas paisagens. Mas foi no Afeganistão que descobriu que gostava mais de dirigir durante a noite. Mesmo que houvesse menos coisas para ver . A escuridão parecia oferecer um manto de proteção , trazendo uma calma e um equilíbrio que ele não tinha em outros momentos. Mas não é o que está sentindo agora. A estrada escura é cercada por uma

oresta densa dos dois lados, e, embora ele mal consiga enxergar ,

parece que o perigo está à espreita, pronto para saltar da escuridão e engoli-lo por inteiro. Sente a pele formigar e a pressão nos ouvidos aumenta, enquanto ele pisa no acelerador como se estivesse fugindo da própria sombra.

Havia bloqueios da polícia em todos os cantos, e eles tiveram que mudar várias vezes de direção. Primeiro seguiram para o porto em Gedser e depois para a balsa sueca em Helsingør , mas nas duas vezes foram ultrapassados por um monte de viaturas da polícia com sirenes ligadas, e não era difícil descobrir para onde estavam indo. Agora, Asger decidiu seguir para Sjællands Odde, onde as balsas saem pela ponta da península. A Ponte do Grande Belt parece óbvia demais e por isso está fora de questão, mas Asger espera que a balsa para Jutland esteja sem policiamento, embora saiba que isso é bem improvável. Sua mente está fervilhando de pensamentos sobre o que deveriam fazer se a estrada estiver bloqueada também, mas não tem outra escolha. E Benedikte está sentada taciturna e calada ao seu lado.

Asger foi contra levar o merdinha com eles, mas ela não aceitou discutir o assunto. Ele entende. Se tivessem simplesmente desistido, tudo não passaria de uma farsa, e a lha da puta da ministra jamais entenderia o que tinha feito. Parece apenas justo que ela também sofra o que eles sofreram, e Asger não tem problemas na consciência por ter sequestrado o garoto , que devia agradecer à mãe por estar sendo jogado de um lado para o outro na traseira do carro.

Asger pisa no freio. Por um instante, parece que vai perder o controle da van, derrapando no asfalto molhado, até que consegue estabilizar o carro. Um pouco mais à frente, vê o brilho de luzes azuis entre as árvores e, embora não esteja vendo as viaturas de polícia, sabe que estão esperando em mais um bloqueio depois da próxima curva. Ele deixa o carro diminuir até parar no acostamento.

— Que porra estamos fazendo?

Benedikte não responde. Asger manobra o carro e volta para a estrada, enquanto enuncia suas opções.

Quando ela nalmente fala alguma coisa, não é o que ele esperava ouvir:

— Entre na oresta. Na próxima curva.

— Por quê? O que vamos fazer lá?

— Eu disse para virar na oresta.

Quando chegam à próxima saída, Asger obedece e entra na oresta, e logo estão passando por uma estradinha de cascalho esburacada e estreita. Então ele entende o que ela quer . É claro que Benedikte também percebeu que estão cercados, então agora vão fazer a única coisa racional que podem: dirigir pela oresta para o mais longe possível e encontrar um lugar onde possam esperar a tempestade passar . Asger é o soldado, então deveria ter pensado nisso antes, mas é sempre Benedikte que encontra uma saída. Depois de dirigir por três ou quatro minutos, antes que a oresta que densa demais, ela pede abruptamente para que ele pare o carro.

— Não, ainda não. Precisamos avançar um pouco mais. Eles vão ver a gente se...

— Pare o carro. Pare agora!

Asger pisa no freio e o veículo para com um solavanco. Ele desliga o motor , mas deixa os faróis acesos. Benedikte ca imóvel por um tempo. Asger não consegue ver seu rosto, só ouve sua respiração e a chuva batendo no teto. Ela abre o porta-luvas e pega alguma coisa antes de abrir a porta da van.

— O que você está fazendo? Não podemos perder tempo aqui!

Benedikte bate a porta e, por um instante, Asger ca sentado na cabine da van, ouvindo o eco da própria voz. Com a luz dos faróis, vê quando ela cruza a frente do carro e, ao passar pela sua porta, ele instintivamente a abre e salta.

— O que você está fazendo?

Benedikte passa por ele, estendendo a mão para abrir a porta de correr do compartimento traseiro. Asger vê o brilho do objeto a ado que ela está segurando na mão direita e se lembra de que deixou sua faca militar no porta-luvas naquela manhã, ao pegar a van na Hertz. Percebe o que ela pretende fazer e, embora que surpreso com a súbita percepção de que gosta do merdinha, ele agarra Benedikte. Então sente como ela é forte e o quanto quer seguir em frente.

— Me solta! Me solta agora, eu já disse!

Eles lutam na escuridão , e Asger sente a faca cortá-lo perto da virilha enquanto ela tenta se libertar .

— Ele é só um garoto! Ele não fez nada com a gente!

Devagar , consegue puxá-la para si. Os braços dela cam moles e Benedikte começa a chorar . As lágrimas a dominam por completo, e Asger não sabe por quanto tempo cam ali na oresta, mas parece uma eternidade. É o melhor momento deles em muito tempo , e Asger sabe que Benedikte sente o mesmo. As forças contra eles são grandes demais, mas ainda têm um ao outro. Não consegue ver o rosto dela, mas as lágrimas pararam de cair, e ele tira a faca de sua mão e a joga no chão.

— Vamos libertar o garoto. É mais fácil se formos só nós dois, e, assim que a polícia o encontrar , eles vão relaxar um pouco, o.k.? Está bem?

Asger tem certeza de que vai dar tudo certo agora que sente o corpo dela junto ao dele. Acaricia o rosto de Benedikte e beija suas lágrimas, sentindo quando ela assente e soluça. Ela ainda está segurando sua mão , e, com a outra, ele faz menção de abrir a porta de correr . Se indicarem ao garoto para onde deve andar , ele vai chegar ao bloqueio policial em algumas horas, e isso dará a Asger e Benedikte o tempo de que precisam.

Um barulho faz Asger parar e olhar em volta, atentamente, na escuridão . O som distante de um motor . Ele olha para o lugar de onde vieram, ainda segurando a mão de Benedikte. A menos de cinquenta metros, vê um par de faróis reluzindo nas poças da estrada, e logo os dois estão iluminados e começam a piscar diante da luz forte. O carro para e, depois que o motorista os observa por um tempo, desliga o motor e os faróis.

A oresta está completamente escura agora. Milhares de pensamentos explodem na cabeça de Asger . Primeiro ele pensa que pode ser uma viatura policial sem identi cação , mas a polícia não estaria tão calma em uma situação como aquela, então acha que pode ser um fazendeiro ou um guarda-orestal. Aí percebe que o único motivo por que alguém passaria àquela hora pela estradinha de cascalho seria para encontrá-los. Mas não há como alguém tê-los visto entrando na oresta, e ele se certi cara havia muito tempo que seus telefones não pudessem ser rastreados.

Asger sente Benedikte car tensa ao seu lado e, quando ouve a porta do carro se abrir , sua pergunta soa na escuridão, sem resposta:

— Quem está aí?

Ao ouvir o som de passos se aproximando, percebe que logo vai descobrir e imediatamente se abaixa para pegar a faca no chão.