As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 11 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 11

 

No caminho para o centro da cidade no carro parlamentar , Vogel passa a agenda do dia. Todos os ministros do governo se encontrarão no Palácio de Christiansborg antes de seguirem para a capela real para a missa tradicional. Quando terminar , Rosa dará as boas-vindas à equipe no seu gabinete, localizado no Holmes Kanal em frente à praça do Palácio de Christiansborg, para onde deverá seguir a tempo da abertura o cial do parlamento.

O restante do dia também segue uma agenda apertada, mas Rosa insere algumas correções e atualizações no calendário do seu iPhone. Ela não precisa fazer isso, pois sua secretária acompanha tudo por ela, mas prefere assim. Isso a ajuda a perceber os detalhes, manter um senso de realidade e faz com que se sinta no controle. Principalmente nesse dia. Mas, quando o carro entra no pátio externo do parlamento, ela não está mais ouvindo as palavras de Vogel. Bandeiras dinamarquesas tremulam no mastro central, há vans da mídia espalhadas por lá, e ela observa as pessoas se preparando para entrar no ar ou já gravando suas reportagens para a câmera sob guarda-chuvas, iluminadas pelos fotógrafos.

— Asger, vamos contornar o prédio e seguir para a entrada dos fundos.

O novo motorista assente, mas Rosa não gosta da sugestão.

— Não. Pode me deixar aqui.

Vogel se vira para ela, surpreso, e o motorista a olha pelo retrovisor . Só agora ela nota que, apesar de ser jovem, existem rugas de expressão em volta de sua boca.

— Se não zermos isso agora, eles vão continuar tentando o dia inteiro. Siga direto para a entrada e me deixe descer lá.

— Rosa, tem certeza?

— Tenho.

 

O carro desliza até o meio-o, e o motorista salta e abre a porta para ela. Quando sai e começa a caminhar até os amplos degraus da entrada do palácio do parlamento, tudo parece se mover em câmera lenta: os câmeras se virando, os jornalistas se apressando em sua direção, boquiabertos e chamando:

— Ministra Rosa Hartung, um minuto, por favor!

Ela é atingida pela realidade. A multidão à sua volta explode, e ela é abordada pelas câmeras e pela saraivada de perguntas dos jornalistas. Consegue subir dois degraus antes de virar e olhar para a multidão, observando cada detalhe. As vozes, as luzes, os microfones, um chapéu azul en ado sobre uma testa enrugada, um braço acenando, um par de olhos escuros tentando segui-la de longe.

— Ministra, a senhora tem alguma declaração?

— Como é estar de volta?

— A senhora poderia nos dar dois minutos de atenção?

— Ministra, aqui!

Rosa sabe que foi o assunto em pauta de diversas reuniões editoriais nos últimos meses — principalmente nos últimos dias —, mas ninguém previu essa decisão: estão despreparados, e foi exatamente por isso que Rosa optou por encarar tudo de frente.

— Para trás! A ministra vai fazer uma declaração.

Vogel abre caminho até car na frente dela, certi cando-se de manter as pessoas afastadas. A maioria obedece à orientação, e Rosa analisa os rostos diante dela, muitos deles já conhecidos.

— Como bem sabem, tem sido um período muito difícil. Minha família e eu somos gratos por todo o apoio que recebemos. Estamos prestes a dar início a um novo ano parlamentar , e o momento é de olhar para o futuro. Quero agradecer ao primeiro-ministro por sua fé em mim, e estou ansiosa para mergulhar nos trabalhos políticos que me aguardam. Espero que vocês respeitem isso. Obrigada.

Rosa Hartung continua subindo as escadas, enquanto Vogel tenta abrir o caminho para ela.

— Mas ministra, a senhora está pronta para voltar?

— Como está se sentindo?

— Qual é a sensação de saber que o assassino nunca revelou a localização do corpo da sua lha...

Vogel consegue levá-la até as grandes portas e quando ela alcança sua secretária — que está aguardando na soleira com a mão estendida —, é como ser resgatada de um mar agitado.