As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 91 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 91

 

Hess percebe de repente que já não está prestando atenção há vários minutos. Está sentado à esquerda de Thulin na longa mesa na sala de operações, os olhos xos apaticamente na janela com vista para o pátio , que agora está coberto pela escuridão. À sua volta, um monte de vozes estressadas e nervosas, lembrando a todos da gravidade da situação. Ele já esteve ali antes. Não importa o local do mundo, a história é sempre a mesma quando se trata do sequestro de uma criança. A não ser pelo fato de que as coisas cam um pouco mais intensas quando a vítima é o lho de uma política proeminente.

O carro o cial de Hartung foi encontrado abandonado há exatamente cinco horas no acostamento de uma estrada a sudoeste de Copenhague. Não havia rastros do garoto, nem de Benedikte Skans ou Asger Neergaard. Os sequestradores não zeram nenhuma exigência. Encontrar o carro vazio deu início a uma das maiores buscas da história da Dinamarca. Fronteiras, aeroportos, estações de trem, pontes, estações de balsa e toda a costa, tudo está sendo patrulhado e observado , e Hess sente que toda a frota de viaturas da polícia está nas ruas, em vigilância. O Departamento de Inteligência e a Polícia de Copenhague estão compartilhando o controle de operações e até mesmo membros da Força Civil de Defesa foram arrancados de seus jantares para mergulharem nas sombras do outono. Colegas na Noruega, Suécia e Alemanha foram avisados, assim como a Interpol e a Europol, mas Hess não espera que eles façam parte das buscas. Se as autoridades internacionais entrarem em contato será porque existem indicações de que os sequestradores cruzaram várias fronteiras, e se isso acontecer, as chances de encontrarem Gustav Hartung cam

drasticamente reduzidas. Principalmente de encontrá-lo com vida. A regra de ouro nos casos de sequestro é que as chances são bem maiores de encontrar a vítima nas primeiras vinte e quatro horas, quando o rastro ainda está fresco. E a cada dia que passa, as chances

cam menores, e Hess sabe bem que as estatísticas de Haia se

baseiam em casos reais. Ele tenta pensar em qualquer coisa que não seja o outro caso de sequestro em que trabalhou, alguns anos antes, no qual houve a necessidade da colaboração da polícia francesa e alemã. Um menino de dois anos desapareceu em Karlsruhe, e o sequestrador exigiu, em francês, um resgate de dois milhões de euros do pai, um gerente de banco alemão. Hess estava presente na troca, mas ninguém apareceu para pegar o dinheiro no lugar combinado e, um mês depois, o garoto foi encontrado em um bueiro a menos de quinhentos metros da casa do banqueiro. O legista revelou que o crânio do menino estava quebrado , provavelmente porque o sequestrador o deixou cair enquanto fugia da área, no mesmo dia do sequestro. Eles nunca encontraram o assassino.

As circunstâncias do desaparecimento de Gustav Hartung felizmente são diferentes e ainda há espaço para otimismo. Os detetives estão agora interrogando colegas de Asger Neergaard no ministério e em Christiansborg, enquanto outros estão fazendo o mesmo em relação a Benedikte Skans, no Rigshospital. Até o momento, ninguém sabe dizer para onde o casal pode ter fugido com o garoto , mas é cedo demais para descartar a possibilidade de que tenham fugido. O noticiário está cheio de imagens de Gustav Hartung, o que di cultará muito para os sequestradores viajarem com o garoto. Isso é bom e ruim. Bom porque a maioria das pessoas logo vai conseguir reconhecer Gustav Hartung e informar às autoridades se o virem. Ruim porque isso põe uma enorme pressão nos sequestradores, e sempre existe a chance de eles tomarem uma decisão fatal no calor do momento. A questão foi discutida entre os policiais sêniores e agentes de inteligência, mas no m das contas foi irrelevante. A família Hartung insistiu em fazer o alerta sobre o garoto, acabando com a discussão. Hess compreende completamente a decisão. Um ano atrás, a família passou por um pesadelo do qual mal tinham acordado , e agora um novo pesadelo está começando. Nenhuma possibilidade podia ser deixada de lado. Ao seu lado, ouve a voz impaciente de Thulin se dirigindo a Genz, que está no meio da atualização das descobertas do Departamento Forense pelo viva-voz do celular de Nylander , em cima da mesa.

— Alguma novidade em relação ao celular deles?

— Não . Nem Benedikte Skans nem Asger Neergaard ligaram o telefone desde as 4h17 desta tarde, o que imagino que seja a hora do sequestro. É possível que estejam usando telefones não registrados, mas não podemos...

— E os iPads e notebooks da casa deles? Tinha pelo menos um iPad e um notebook Lenovo lá, e talvez haja algum recibo de passagens aéreas, balsas, trens. Ou cobranças de cartão de crédito?

— Como eu disse, ainda não encontramos nada de útil. Vai levar um tempo até eu conseguir acessar os arquivos apagados do Lenovo, porque foi dani cado e...

— Então você ainda não veri cou porra nenhuma. Genz, não temos tempo para isso! Se existem arquivos apagados no Lenovo, tudo que você precisa fazer é passá-lo pelo programa de recuperação de dados. Pelo amor de Deus!

— Thulin, Genz sabe o que está fazendo. Genz, entre em contato assim que descobrir alguma coisa.

— Claro. Vou voltar ao trabalho.

Nylander desliga e coloca o celular no bolso. Thulin se levanta e parece um boxeador cuja entrada no ringue foi vetada.

— Mais alguma coisa? Vamos prosseguir — continua Nylander .

Jansen empurra um bloco pela mesa.

— Conversei com a psiquiatra no hospital em Roskilde. Ela não disse nada que nos ajude agora, mas não há dúvida de que Benedikte Skans perdeu uns parafusos com a morte do lho. Uma das médicas a rma que a mulher se recuperou completamente durante a internação , mas não descarta a possibilidade de comportamento violento . Que ótimo, valeu. Isso é tão reconfortante quando você pensa que Skans trabalha na ala pediátrica de um hospital.

— Então não fazem ideia de onde ela pode estar. E Asger Neergaard?

— Ex-soldado, trinta anos, foi enviado para o Afeganistão duas vezes como motorista nos grupos de batalha sete e onze. Suas avaliações são decentes, mas, quando começamos a fazer perguntas para seus antigos colegas de alojamento, alguns falaram que ele deixou o Exército por motivos que vão um pouco além de ter enchido o saco.

— Desembuche logo.

— Alguns disseram que ele tinha tremores e evitava contato com os outros. Seu temperamento começou a car difícil e agressivo e ele passou a exibir alguns sinais de transtorno do estresse pós-traumático, embora nunca tenha recebido nenhum tratamento para isso. Eu não consigo entender como o Departamento de Inteligência o aprovou para ser motorista o cial da ministra, e imagino que algumas cabeças vão rolar por lá.

— Mas ninguém com quem você falou sabe onde ele pode estar?

— Não. Nem a mãe. Pelo menos ela diz que não.

— Então podemos terminar por aqui e continuar trabalhando. Ainda não temos nenhuma pista, e isso não é nada bom. Não há dúvidas quanto ao motivo no caso Hartung, então precisamos concentrar nossas energias em encontrar o garoto. Por enquanto, vamos nos desviar da investigação dos quatro assassinatos que eles cometeram, até o garoto estar são e salvo.

— Se eles cometeram os assassinatos — diz Hess, e é a primeira vez que fala na reunião. Nylander olha para ele como se houvesse um estranho na porta, querendo entrar . Hess continua, antes que seja impedido: — Até agora não há nada de concreto na propriedade do casal que indique qualquer envolvimento com os assassinatos. Eles mandaram ameaças de morte para Rosa Hartung e planejaram e executaram o sequestro do lho dela. Mas não há nada lá sobre as três mulheres assassinadas, e Asger Neergaard tem álibi para pelo menos um dos assassinatos. De acordo com os relatórios do Departamento de Inteligência, enquanto Anne Sejer-Lassen estava sendo assassinada, ele estava na companhia de Rosa Hartung e sua secretária no pátio perto do ministério.

— Mas Benedikte Skans não estava.

— Não , mas isso não signi ca necessariamente que ela tenha matado Anne Sejer-Lassen. De qualquer forma, qual teria sido o motivo?

— Eu não quero mais ouvir nenhuma defesa sobre sua visita a Linus Bekker . Benedikte Skans e Asger Neergaard são os principais suspeitos. Ponto nal. Nós vamos discutir a visita de vocês depois.

— Mas eu não estou tentando defender ...

— Hess, se você e Thulin tivessem usado melhor seu tempo, dedicando-se aos arquivos no ministério, talvez tivessem chegado a Skans e Neergaard mais cedo e, nesse caso, o sequestro de Gustav Hartung nem teria chegado a acontecer! Vocês estão entendendo aonde eu quero chegar?

Hess cala a boca. Ele estava pensando o mesmo e, por um momento, se sente culpado, mesmo sabendo que é injusti cado. Nylander sai da sala, Jansen e os outros o seguem, enquanto Thulin pega o casaco na cadeira.

— Agora o que importa é encontrar o garoto. Se eles não são os assassinos, nós vamos descobrir quem foi.

Ela não espera uma resposta. Hess observa Thulin passar pelo corredor e espiar pelos painéis de vidro enquanto os outros detetives trabalham diligentemente com a energia e o propósito que tomam conta de todos quando o caso está chegando a sua conclusão. Mesmo assim, Hess não consegue compartilhar a sensação. Ele se sente como uma marionete com os os presos ao teto, e, quando se levanta, é para sair e respirar um pouco de ar puro.