As Sombras de Outubro
Capítulo 126
A cozinha está vazia de um jeito que lhe diz que nunca mais vai voltar ali. Está sentada em um banco perto da mesa de linóleo esperando a mãe vir buscá-la, porque não tem autorização para sair sozinha.
Ela não é sua mãe de verdade, mas “mãe” é como a mulher insiste em ser chamada. Em vez de Astrid. Principalmente quando saem de casa. Ela ainda se lembra da sua mãe de verdade, do pai e do seu irmãozinho, e sonha com eles todos os dias. Mas sonhar dói muito, e ela aprendeu a obedecer às ordens até chegar o dia em que possa fugir . Já tentou várias vezes e imaginou outras tantas, mas nunca conseguiu. No entanto , agora sente uma esperança estranha crescer no peito enquanto está sentada ali olhando atentamente para a garagem pela janela.
Talvez a esperança tenha surgido alguns dias antes, quando o homem não apareceu. A mãe arrumou as malas e a avisou para esperar sentada no mesmo banco em que está agora. Mas ele não veio. E não apareceu no dia seguinte e nem no próximo. Também não telefonou. A mãe parece mais nervosa e insegura do que o normal. E, quando a acordou naquela manhã, ela percebeu pelo seu tom de voz que a mulher tinha tomado uma decisão.
Ir embora talvez seja bom. Sair daquela casa que odeia, ir para longe do homem e de suas câmeras, que sempre a perseguem. Mas para onde e para fazer o quê? Talvez para algo pior? Ela não se atreve a seguir essa linha de raciocínio até o m. Então não é daí que a esperança surge — e sim da fresta de luz que passa pela porta aberta e do fato de a mãe ainda não ter voltado.
Levantando-se cuidadosamente, ela mantém os olhos xos no
espaço vazio na frente da garagem. Talvez essa seja sua última chance. No canto do teto, a luz vermelha da câmera está piscando, e ela dá um passo hesitante de cada vez, seguindo para a porta.