As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 123 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 123

 

Seu peito está prestes a explodir e o coração martela contra as costelas. Sua respiração forma nuvens diante do rosto, e seus braços tremem enquanto ele tenta apontar a arma para o carro adiante. Está a uns setenta e cinco metros de distância, e Hess para no meio da estrada, no limite da luz dos faróis, bem no ponto em que saiu da

oresta escura momentos antes, feito um morto-vivo.

A primeira parte da oresta tinha estado iluminada pelo incêndio da fazenda. As chamas lançavam um brilho forte atrás dele e Hess correu na direção das árvores, lembrando-se de que a estrada para a fazenda não era reta, mas sim formava um gigantesco C antes de chegar à rodovia; ele esperava conseguir cortar caminho e chegar antes do carro. Mas, assim que se aprofundou entre as árvores, a luz das chamas cou mais fraca. A luminosidade da neve ajudou um pouco , porém, quando a oresta se fechou à sua volta, cou correndo às cegas. A escuridão o cercava por todos os lados, embora o contorno das árvores fosse um pouco mais preto, e ele decidiu seguir em linha reta, sem se importar com os obstáculos que encontrasse. Várias vezes tropeçou e foi arremessado na neve até, por m, não saber mais para onde deveria correr . Naquele instante, viu uma luz fraca à esquerda. A luz estava na frente dele, bem na frente, e ainda em movimento. Abruptamente, porém, a velocidade diminuiu até nalmente parar e, quando Hess nalmente chegou à estrada, o carro estava atrás dele, com os faróis ainda acesos.

Hess não sabe por que o carro parou e não se importa. Genz está em algum lugar atrás do para-brisa, e ele não vai desistir agora. Parado no meio da estrada, apontando a arma enquanto o vento assovia nas árvores, ele ouve o som irreal de um telefone tocando. Percebe que é o seu celular . Olhando para o carro, nota a luz clara de uma tela no lado do motorista. Hesitante, pega o telefone no bolso sem afastar os olhos do carro.

A voz é fria e sem emoção.

— Onde está Hartung?

Hess vê o contorno da pessoa atrás do volante. A pergunta faz com que ele se lembre de que a tortura de Rosa Hartung é a única coisa que realmente importa para Genz, e ele tenta controlar a respiração para soar o mais calmo possível.

— Ela está bem. Está sentada no pátio, esperando você contar o que aconteceu com a lha dela.

— Você está mentindo. É impossível que você tenha conseguido salvá-la.

— Aquele serrote que você fez corta muito mais que osso. Um bom técnico forense jamais teria deixado ele para trás. Você não acha?

Segue-se um longo silêncio. Hess sabe que Genz deve estar imaginando tudo que aconteceu no porão, avaliando se suas palavras são verdade, e por um instante teme que Genz volte para a fazenda, mesmo que a polícia esteja a caminho.

— Diga a ela que eu vou visitá-la de novo em breve. Agora saia da frente. Estou com Thulin aqui.

— Estou pouco me fodendo. Saia do carro e deite no chão com os braços abertos.

Silêncio.

— Genz, saia do carro!

Hess aponta para o único ponto que consegue enxergar dentro do carro . Mas a tela iluminada atrás do volante se apaga e a ligação ca

muda. No início, Hess não sabe o que isso signi ca, mas então o carro parece ganhar vida. O motor ronca violentamente, como se alguém tivesse pisado fundo do acelerador . As rodas giram na neve, provocando fumaça que brilha em um tom de vermelho, iluminada pelas luzes traseiras, e por m os pneus encontram a tração e o carro avança.

Hess joga o telefone de lado e mira. O carro está vindo direto para cima dele, ganhando velocidade a cada metro. Atira uma vez, depois outra e mais outra. Os primeiros cinco tiros atingem o radiador, mas nada acontece, e suas mãos trêmulas explicam o motivo. Tenta novamente, segurando a arma com as duas mãos, atirando vez atrás da outra, sua con ança diminuindo. É como se o carro estivesse protegido por um escudo invisível, e, quando está a uns trinta metros, ele percebe que corre o risco de acertar Thulin, se ela estiver lá dentro. O dedo ca imóvel no gatilho. Em pé na estrada com a arma pronta, ele ouve o ronco do motor , mas seu dedo não funciona. Pensa que está prestes a ser atingido — não lhe resta mais tempo para se jogar para fora do caminho. No último instante, vê um movimento atrás do para-brisa, e o carro muda de rumo. Ele sente o calor do capô quando o carro passa perto do seu quadril direito e, quando se vira, o vê voando pela estrada. Segue-se uma explosão de sons. Metal se amassando, vidro se estilhaçando, o som do motor que se eleva em um grito estridente e a buzina do carro que começa a tocar. Duas guras

entrelaçadas são lançadas pelo para-brisa em direção às árvores, feito bonecos. Parece que estão se segurando um ao outro enquanto giram pelo ar, mas então se separam, e um deles continua seu arco, enquanto o outro atinge uma árvore com um golpe e desaparece na escuridão.

Hess começa a correr . O capô envolve o tronco de uma árvore, mas os faróis ainda estão acesos, e a gura na árvore é a primeira coisa que ele vê. Um galho grosso e curvo sai pelo seu peito, e as penas estão penduradas no ar. Quando ele vê Hess, sua expressão entra em foco.

— Me... ajuda...

— Onde está Kristine Hartung?

Os olhos arregalados estão xos em Hess.

— Genz, responda.

Então a vida se esvai. Ele está pendurado bem próximo ao tronco, quase fundindo-se à árvore, a cabeça caída e os braços relaxados, como um de seus bonecos. Enquanto Hess olha desesperadamente em volta, gritando por Thulin, sente as castanhas estalarem sob seus passos na neve.