As Sombras de Outubro
Capítulo 52
Já escureceu no bairro residencial de Husum. Os postes estão acesos ao longo das vias adequadas para crianças, com seu limite de velocidade e quebra-molas, e os caminhos para a entrada das casas estão banhados pela luz de cozinhas fervilhando de atividade enquanto as famílias preparam o jantar e conversam sobre mais um dia tedioso. Quando Thulin salta da viatura na Cedervænget, sente cheiro de almôndega frita saindo pelo exaustor de uma casa vizinha da família Kjær . Apenas a casa modernista com sua garagem de metal e a caixa de correio que indica o número sete se mantém na escuridão , parecendo abandonada e triste.
Thulin escuta os últimos comentários enfadados de Nylander ao telefone antes de correr atrás de Hess na chuva até a porta da frente.
— Você está com a chave? — pergunta Hess, estendendo a mão.
Os dois chegam à entrada com a barreira de ta preta e amarela que lacra a porta e a cena do crime. Thulin pega a chave no bolso.
— Você disse que o Conselho Tutelar investigou o caso depois de uma denúncia anônima contra Laura Kjær , mas que não descobriu nenhum motivo para acreditar nas acusações?
— Isso. Chega pra lá. Você está na luz.
Hess pega a chave e está tentando en á-la na fechadura só com a luz fraca do poste.
— Então o que estamos fazendo aqui?
— Já disse. Eu só quero dar uma olhada na casa.
— Eu já vi a casa. Várias vezes.
Quando Thulin falou com Nylander , momentos antes, ele estava muito insatisfeito com os resultados do dia — ou com a falta de resultados, mais precisamente — e não entendia por que eles estavam voltando para Cedervænget. Nem Thulin. O álibi de Hans Henrik Hauge para a hora do assassinato de Anne Sejer-Lassen era um revés, mas já aceitou o fato. No entanto , ali está ela novamente, olhando para a casa sombria onde tudo começou.
Hess lhe contou sobre a conversa com o assistente social da prefeitura, para quem ligou a caminho do estacionamento depois de terem interrogado o médico. Sentada no carro, do lado de fora do Rigshospital, com a chuva castigando o para-brisa, ela ouviu tudo sobre o e-mail anônimo que acusava Laura Kjær de ser uma péssima mãe e dizia que ela deveria perder a guarda do lho. O Conselho Tutelar investigou o caso e concluiu que a denúncia era infundada. Foi considerado um trote, e o interesse de Thulin acabou por aí. Era esquisito que Laura só tivesse contado isso para o médico no Rigshospital, mas, por outro lado, era compreensível também: o lho
dela tinha transtorno do espectro autista, de acordo com os médicos, e seu comportamento — conforme descrito pela escola, por exemplo — poderia facilmente gerar algum mal-entendido sobre a mãe não ser capaz de tomar conta dele. E isso poderia facilmente ter induzido alguém a fazer uma denúncia. Além disso, é claro, Laura não teria como saber se um dos seus amigos era o remetente da tal denúncia anônima, ou alguém do trabalho ou da escola. Então, levando tudo isso em conta, não era tão estranho que ela tivesse mantido a discrição em relação ao assunto. Laura Kjær parecia ter feito tudo que uma mãe poderia fazer para ajudar o lho e, embora Thulin não goste de Hans Henrik Hauge, é obrigada a admitir que ele parece ter dado muito apoio a ela. Então o que deveriam fazer com a informação sobre a denúncia? O assistente social também negou haver algum relatório sobre Anne Sejer-Lassen; desse modo, não havia um fato em comum para investigarem.
Mesmo assim, Hess quis ir à casa de Laura Kjær e, durante o caminho, Thulin se arrependeu de não ter tirado o homem do caso quando teve a chance. Ela não está ignorando a previsão de Hess de que o assassino está apenas começando, e sentiu instintivamente a ameaça enquanto estava na oresta, perto do corpo de Anne Sejer-Lassen. No entanto, as abordagens investigativas dos dois eram completamente diferentes. Thulin também não gosta muito da ideia de bancar a informante de Nylander , a dedo-duro, caso Hess se desvie do caminho e comece a meter o nariz no caso Hartung. Nem mesmo como condição para conseguir uma recomendação para o NC3.
— Estamos investigando um duplo homicídio, e você mesmo disse que outros podem estar prestes a acontecer . Então não estou entendendo por que estamos perdendo tempo em uma casa que já passou pelo pente-no dos técnicos forenses!
— Você não precisa entrar. Na verdade, seria bom se você pudesse perguntar para os vizinhos se eles sabem alguma coisa sobre a denúncia ou quem poderia ter enviado. Assim a gente se adianta, não acha?
— E por que queremos saber disso?
A ta da barreira se solta quando Hess abre a porta e entra na casa. Ele fecha a passagem enquanto a chuva aumenta, fazendo Thulin correr para a primeira vizinha.