As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 4 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 4

 

É a primeira terça-feira de outubro. O outono demorou a chegar esse ano , mas hoje o céu sobre a cidade é um teto baixo de nuvens cinza e escuras, e está chovendo quando Naia Thulin sai do carro e começa a andar pela calçada. Ela ouve o celular tocando, mas não o pega no bolso do casaco. Está com a mão nas costas da lha para guiá-la por entre as ruas lotadas àquela hora. A manhã foi atarefada. Le estava mais interessada em conversar sobre League of Legends, que ela era nova demais para jogar, mas mesmo assim sabia tudo a respeito, e declarou que um jogador coreano pro ssional chamado Park Su era o seu grande herói.

— Coloquei a galocha na bolsa, para o caso de vocês irem ao parque. E lembre que o vovô vai vir te buscar, mas você vai ter que atravessar a rua sozinha. Olhe para a esquerda, para a direita e...

— Para a esquerda de novo, e eu tenho que me lembrar de vestir a jaqueta uorescente, para as pessoas me enxergarem.

— Fique quieta para eu amarrar o seu cadarço.

Tinham chegado à frente da escola e estavam embaixo do telhado do bicicletário. Thulin se abaixa enquanto Le tenta car quieta com os pés em uma poça.

— Quando vamos nos mudar para a casa do Sebastian?

— Eu nunca disse que a gente vai.

— Por que ele não está lá de manhã se está à noite?

— Os adultos são muito ocupados de manhã, e Sebastian tem que ir correndo para o trabalho.

— Ramazan ganhou um irmãozinho e agora ele tem quinze fotos na árvore da família, e eu só tenho três.

Thulin lança um olhar rápido para a lha e amaldiçoa aqueles lindos pôsteres de árvores genealógicas que a professora decorou com folhas de outono e expôs no mural para que os pais e as crianças pudessem admirá-los. Por outro lado, ela sempre ca feliz que Le conte automaticamente o avô como parte da família, mesmo que tecnicamente ele não seja seu avô de verdade.

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E você tem cinco fotos na árvore, se contar o papagaio e o hamster .

— Ninguém colocou animais nas árvores.

— Não , nem todas as crianças têm tanta sorte.

Le não responde e Thulin se levanta.

— Eu sei que a nossa família não é grande, mas estamos indo bem, e é isso que importa, está bem?

— Podemos ter outro papagaio, então?

Thulin olha para a lha, pensando em como aquela conversa começou e se perguntando se a menina é bem mais esperta do que parece.

— A gente conversa sobre isso outra hora. Só espere um minuto.

O celular começa a tocar novamente, e ela sabe que precisa atender dessa vez.

— Eu chego em quinze minutos.

— Sem pressa — responde a voz do outro lado, que ela reconhece como sendo uma das secretárias do seu chefe. — Nylander não vai conseguir chegar para a reunião desta manhã, então só na próxima terça-feira. Mas ele me pediu para te dizer para car com o novato hoje, para ele fazer alguma coisa enquanto está aqui.

— Mãe, eu vou entrar com o Ramazan!

Thulin observa enquanto a lha se aproxima do garoto. Ela se mistura muito bem com o resto da família síria, uma mulher e um homem com um recém-nascido nos braços, e mais duas crianças. Para Thulin, eles parecem saídos de um artigo de revista sobre a família modelo.

— Mas essa já é a segunda vez que o Nylander cancela, e nossa conversa vai levar menos de cinco minutos. Onde ele está agora?

— Acho que está indo para alguma reunião orçamentária. E ele gostaria de saber o assunto dessa reunião.

Por um momento, Thulin considera contar para ela que seus nove meses na Divisão de Crimes Hediondos, também conhecida como Divisão de Homicídios, foi tão excitante quanto uma visita ao museu da polícia. Que suas missões são entediantes, os padrões de tecnologia do departamento são tão impressionantes quanto um Commodore 1964, e que ela precisa desesperadamente partir para a próxima.

— Nada importante. Obrigada.

Ela desliga e acena para a lha que está correndo para a escola. Sente que a chuva está começando a ultrapassar a proteção do casaco e segue em direção à rua, percebendo que não pode esperar até a próxima terça-feira para a reunião. Ela se apressa por entre os pedestres, mas, quando chega ao carro e abre a porta, sente a estranha sensação de estar sendo observada. Do outro lado da rua, através de

leiras intermináveis de carros e caminhões, vê o contorno de uma

pessoa, mas quando a la anda, ela desapareceu. Afastando a sensação, Thulin entra no carro.