As Sombras de Outubro

Søren Sveistrup · Capítulo 67 de 130

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As Sombras de Outubro

Capítulo 67

 

— Mas é ela ou não?

— Não temos certeza. Ela sentiu que estava sendo seguida no shopping. O problema é que não se mostrou muito disposta a ajudar . Ou talvez não saiba de nada.

É Thulin quem responde a Nylander , enquanto Hess ca olhando para a sala de interrogatório pelo espelho unilateral; o revestimento em um dos lados faz com que seja possível ver Jessie Kvium sem que ela o veja. Hess pode não ter certeza, mas sua intuição lhe diz que ela está escondendo o tipo de segredo que interessa ao assassino. Fora isso, ela é bem diferente das outras vítimas. A impressão de Hess é que Laura Kjær e Anne Sejer-Lassen eram mais burguesas e preocupadas em manter as aparências, ao passo que Jessie Kvium parece ser indisciplinada e briguenta. Por outro lado, é exatamente isso que a torna um alvo bem claro. Jessie Kvium se destacava entre centenas de mulheres, atraía ao mesmo tempo que intimidava os homens. Nesse momento, a mulher está discutindo acaloradamente com o coitado do policial de guarda na porta, esforçando-se para passar por ele, e Hess está feliz por ter baixado o som do alto-falante na parede. Do lado de fora, já escureceu completamente e, por um segundo, Hess pensa que seria ótimo baixar o volume da voz de Nylander também.

— Mas se ela não pode ajudar , talvez vocês tenham escolhido a mulher errada, não?

— Ou talvez ela só esteja abalada e, nesse caso, a gente precisa de mais tempo.

— Mais tempo?

Nylander parece pensar nas palavras de Thulin, e toda experiência que Hess já teve na vida ao lidar com chefes de polícia lhe diz o que virá em seguida.

 

Thulin e Hess tinham seguido direto da prefeitura para Urbanplan, onde tocaram a campainha da casa de Jessie Kvium. Ninguém atendeu. A mulher também não atendia o telefone. O arquivo do caso não mencionava parentes, apenas o telefone do assistente social que mantinha contato semanal — era para veri cação, estritamente falando — com a mãe e a lha. A assistente social explicou ao telefone que elas tinham concordado que a lha faria aulas de dança às sextas-feiras, às cinco e quinze, na academia que cava no último andar do Amager Shopping Center .

Assim que encontraram Jessie Kvium, perceberam que havia algo de errado. A mulher disse que sentiu que alguém a estava seguindo quando desceu até o carro. Eles imediatamente revistaram as escadas, os corredores e o porão, mas não encontraram nada suspeito. Não havia câmeras de segurança nos corredores e o estacionamento estava lotado com pessoas fazendo as compras de m de semana.

Durante a conversa na delegacia, Jessie Kvium começou a car

cada vez mais agressiva. Cheirava a vinho e, quando pediram para ela tirar o casaco, viram que a saia estava rasgada. A mulher disse que tinha cado presa na porta do carro e exigiu saber por que estava em uma delegacia. Tentaram explicar a situação para ela, mas Jessie não tinha nenhuma informação útil. Nunca tinha sentido que estava sendo seguida antes e não tinha dúvidas de quem zera a denúncia anônima ao Conselho Tutelar dois meses antes, acusando-a de bater e negligenciar Olívia.

— Uma daquelas enxeridas da escola, claro. Elas estão sempre julgando os outros, porque têm medo que seus maridos velhos e imundos comecem a achar que a grama é mais verde do lado de cá. Mas ela nem sabia escrever direito.

— Jessie, nós não acreditamos que a denúncia tenha sido enviada por uma das mães da escola. Quem mais poderia ter sido?

Mas Jessie estava in exível: sabia que tinha sido uma delas. Para sua satisfação, o Conselho Tutelar acabou acreditando, embora tenha sido obviamente “um saco ter alguém metendo a porra do bedelho na sua vida o tempo todo”.

— Jessie, é extremamente importante que você seja sincera agora. Para o seu próprio bem. Nós não estamos acusando você de nada, mas se há alguma verdade na denúncia, então a pessoa que escreveu pode ter planos para machucar você.

— Quem vocês pensam que são?

Jessie Kvium reagiu com muita raiva. Ninguém tinha o direito de chamá-la de péssima mãe. Ela cuidava da lha sem ajuda do pai, que não pagava uma coroa sequer havia anos com a desculpa de que estava preso em Nyborg por trá co de drogas.

— Se vocês duvidam, podem perguntar à própria Olívia como ela está!

Hess e Thulin não tinham nenhuma intenção de fazer aquilo. A menina de seis anos, ainda com a roupa de balé, estava sentada na lanchonete com um refrigerante e um sanduíche, assistindo a desenhos animados com uma policial, achando que a mãe estava resolvendo alguma coisa com o carro. As roupas dela eram puídas e furadas e talvez fosse um pouco magra e desarrumada, mas era impossível dizer se a menina estava sofrendo maus-tratos. Considerando as circunstâncias, não era muito surpreendente que ela fosse introvertida, e pareceria um tipo de bullying se começassem a fazer perguntas sobre como a mãe a tratava.

 

Eles conseguem ouvir Jessie Kvium gritar mais um monte de palavrões na sala de interrogatório, dizendo ao guarda que quer permissão para ir embora, mas o som da voz dela é abafado por Nylander .

— Não temos mais tempo. Vocês disseram que esse era o passo que devíamos tomar, então agora é melhor usá-lo ou escolher outra direção.

— Talvez a investigação fosse mais rápida se pudéssemos conduzir os interrogatórios necessários.

— Você está se referindo a Rosa Hartung de novo?

— Só estou dizendo que não temos autorização para falar com ela.

— Quantas vezes eu preciso repetir?

— Eu não sei. Parei de contar . Mas não parece que está funcionando.

— Escutem! Acho que tem outro jeito.

Hess e Nylander param de discutir e olham para Thulin.

— Se nós realmente acreditamos que Jessie Kvium pode ser a próxima vítima, então só precisamos deixar que ela volte para a sua rotina enquanto camos de olho e esperamos o assassino aparecer .

Nylander olha para ela e nega com a cabeça.

— Nem pensar. Depois de dois assassinatos, eu não vou de jeito nenhum mandar Jessie Kvium de volta às ruas enquanto camos

sentados esperando um psicopata aparecer .

— Eu não estou falando de Jessie. Estou falando de mim.

Hess olha para Thulin, surpreso. Ela tem no máximo um metro e setenta de altura. Uma coisinha frágil que parece poder ser carregada por um vento mais forte, mas basta olhar nos olhos dela para que se comece a duvidar da própria força.

— Tenho mais ou menos a mesma altura, a mesma cor de cabelo e praticamente o mesmo corpo que Jessie Kvium. Se conseguirmos encontrar uma boneca para servir como a lha, acho que podemos enganar o assassino.

Nylander a encara com interesse.

— Quando você está pensando em fazer isso?

— O mais rápido possível. Para que o assassino não comece a se perguntar onde Jessie está. Se ela é o alvo , ele conhece a rotina dela. Hess, o que você acha?

A sugestão de Thulin é uma solução simples. Ele geralmente é a favor das soluções simples, mas não gosta dessa. Há muitas coisas que eles não sabem. Até agora, o assassino estava sempre um passo à frente deles, e em um estalar de dedos eles acham que podem virar a mesa?

— Vamos interrogar Jessie Kvium mais uma vez. Talvez...

A porta se abre. Tim Jansen aparece, arrancando um olhar exasperado de Nylander .

— Agora não, Jansen!

— Tem que ser agora. Ou talvez seja melhor só colocar no noticiário.

— Por quê?

Jansen xa o olhar em Hess.

— Porque alguém não manteve o bico calado sobre a digital de Kristine Hartung. A informação está em todos os canais. Estão dizendo que o caso Hartung talvez não tenha sido resolvido, no m das contas.